a saga de

As Quatro
Vontades

Livro I · A Queda das Raízes
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Quatro vontades fizeram o mundo não por amor, mas para decidir, entre si, qual delas era a melhor.

O mundo, que não pediu para existir, tornou-se o tabuleiro onde cada coragem, cada mentira, cada fome e cada lei valem um ponto numa conta que ninguém vivo deveria conhecer.

As vozes deste livro

A Têmpera — ordem, disciplina, honra
Korath
O Véu — segredo, engano, paciência
Véspera
A Fome — ímpeto, fúria, instinto
Thrym
A Forma — saber, beleza, persuasão
Aélith
CapítuloI
Aerin, o que viu a borda
✦ ✦ ✦
Aerin

A neve daquele ano chegou cedo, e chegou seca, do jeito que ela manda quando anda de bom humor.

Eu estava na soleira, a endireitar uma armadilha que uma raposa torcera na noite anterior, uma raposa que eu nunca pegaria e que sabia disso tão bem quanto eu, porque há invernos que armávamos os dois o mesmo teatro, ela a roubar a isca e eu a fingir que me importava. O arame estava frio o bastante para morder os dedos. Endireitei-o assim mesmo. Não porque importasse a raposa, mas porque a manhã ainda não pedia mais nada de mim.

Foi quando o frio mudou.

Não esfriou — mudou. Quem nunca viveu na borda do mundo dela não vai entender isto, e eu não vou tentar explicar a quem não viveu: o frio tem humores, e tem dono, e o dono estava perto. O ar ficou parado de um modo que o ar não fica sozinho. A neve, que vinha caindo torta, endireitou-se no meio da queda e desceu reta, como se alguém lá em cima tivesse pedido silêncio e até o tempo tivesse obedecido. Pousei o arame. Não me virei.

Ela passou a oeste, longe, sob a crosta.

Vi a sombra dela correr por baixo do gelo do lago como se corre a sombra de uma nuvem por baixo de um campo. Só que nenhuma nuvem tem aquele tamanho, e nenhum campo geme quando a sombra passa. O gelo cantou. Cantou aquele estalo longo e fundo que percorre meio vale, a placa inteira a falar de uma ponta à outra, e debaixo dos meus pés a terra contou-me o resto: o peso, o passo, a coisa imensa e antiga que se movia sem pressa nenhuma porque não há no mundo nada que a obrigue a ter pressa. As pessoas dos vilarejos lá embaixo, quando sentem isto, ajoelham-se. Chamam-na de Mãe do Inverno e oferecem-lhe os mortos pela água escura, e creem que rezam a um deus. Não rezam a um deus. Rezam a uma vizinha velha que mal repara neles, do mesmo jeito que eu mal reparo na raposa. Mas não os corrijo. Deixar um homem rezar é a única gentileza que não custa nada.

— Estás de bom humor — eu disse, ao vento, que era onde ela estava.

A sombra parou.

Foi só um instante, o tempo de uma respiração que demora mil anos, e a placa de gelo do lago tornou a estalar, mais perto, num registro que eu já aprendera a ler em três décadas de vizinhança: não era ameaça. Era resposta. Do jeito dela. Ela não tem palavras, ou tem-nas e acha-as pequenas demais para gastar comigo. Voltou a mover-se. O frio afrouxou um grau. Era como se um velho que passa todo dia à mesma hora tivesse erguido dois dedos do bastão, ao me ver à janela, e seguido o caminho.

Fiquei a vê-la sumir rumo ao norte branco, para o fundo das geleiras que nem eu, que vivo na soleira delas, jamais tive coragem de visitar. Há algo que ela guarda lá. Sei que guarda porque o frio, quando vem daquela direção, vem carregado de uma tristeza que não é minha, e eu conheço a minha, convivo com ela há tempo suficiente para reconhecer a dos outros quando bate à porta enganada. Nunca lhe perguntei o que era. Há perguntas que a gente não faz aos vizinhos, mesmo aos que duram milênios. Sobretudo a esses.

Quando o frio voltou ao normal, voltei à armadilha.

E foi aí, de cócoras no arame, com os dedos a doer, que disse a coisa em voz alta, não para ela, que já ia longe, mas para o lugar onde ela estivera, que dá no mesmo.

— Eles vão chegar até ti, sabes — disse. — Não este ano. Nem no próximo. Mas vão.

O vento não respondeu.

— Vi a fumaça deles a subir mais ao sul, todo ano um pouco mais alto. Dobram um povo, descansam um inverno, dobram o seguinte. Os de pele de pedra já lhes pagam o ferro. Os do pântano já lhes vendem os segredos. Um dia não vai sobrar nada no chão para dobrar, e um povo que aprendeu a só saber dobrar não para por falta de joelho alheio. Vão olhar para cima. — Puxei o arame, que cedeu, enfim. — E quando o céu não se ajoelhar, vão olhar para ti.

Eu disse aquilo como quem comenta a colheita. Como quem lê uma notícia velha num jornal que já embrulhou peixe. Não havia profecia na minha voz, havia tédio: a certeza cansada de quem já viu o mesmo apetite comer o mesmo mundo antes, e sabe de cor onde a história põe o ponto-final.

E foi por isso que o silêncio dela me gelou mais que o inverno.

Porque ela ouviu. Senti que ouviu. A sombra, lá longe, teve uma hesitação de meio passo, um tropeço numa criatura que não tropeça nunca. E não negou. Um deus de verdade teria rido. Uma fera teria ignorado. Ela hesitou, e seguiu, e levou a hesitação com ela para debaixo do gelo, junto com a outra coisa que guarda.

Recolhi a armadilha. Decidi, ali, que ficaria mais um inverno. Tinha decidido o mesmo nos vinte e nove anteriores, e em cada um deles a decisão me parecera, por um momento, uma escolha.

Dentro, acendi o fogo e não acendi mais nada.

A cabana é pequena de propósito. Uma mesa. Um catre que não uso para dormir, porque não durmo, fico quieto, de olhos abertos, que é o mais perto do sono que a minha espécie alcança, e deixo a noite passar por mim como a água passa pela pedra. Uma prateleira de potes. E o cantil.

Bebi.

Não era água. Há trinta anos não é água, e há trinta anos eu finjo, perante ninguém, que ainda pode vir a ser. É um destilado que os do gelo fazem de uma raiz amarga, forte o bastante para apagar um boi, e eu bebo-o como quem toma um remédio que sabe que não cura, só adia. Bebo para a mesma coisa para que medito, nas noites em que a meditação cansa: para apagar os pensamentos um a um, até o último, até o silêncio. Tudo o mais já vi, já provei, já enterrei.

Bebi de novo, e foi um pensamento de menos.

Porque o problema de uma cabeça como a minha não é o que ela pensa. É o que ela deixa subir. Naquela noite, ao terceiro gole, algo subiu, quente, sob o esterno, na direção da garganta, e eu apaguei aquilo antes que chegasse onde se vê, como se assopra uma vela, sem nem olhar para o que era. Faz-se isto tantas vezes que vira respiração. Aprendi a não sentir em voz alta.

Mas o destilado é mais velho que a disciplina, e mais teimoso.

Ao quinto gole, ou ao sexto, a coisa subiu de novo por um canto, e dessa vez não era o meu nome, que é meu e nunca larguei. Era o título. O que me deram quando eu era o orgulho de um povo inteiro, quando a minha gente se reunia para ouvir o que eu vira, quando ser eu era uma coisa boa de ser. Veio inteiro, com a melodia colada, porque fizeram dele canção. Uma criatura, no auge, recebe canções, e eu recebi a minha, e ela era bonita.

E eu, bêbado, sozinho, na soleira da Mãe do Inverno, fiz a única coisa que faço quando a luz vence: cantei.

Cantei baixo, na língua que ninguém mais no mundo fala, a língua que morreu na boca dos que a falavam comigo. As palavras não importam a quem as lê; não as traduzo porque traduzidas mentem. Basta dizer que era um louvor. Um louvor a um homem que viu mais longe do que qualquer um do seu povo jamais vira, que olhou para onde não se deve olhar e voltou inteiro, e ensinou os outros a olhar. A melodia subia e o meu peito subia com ela, e a luz subiu também, e dessa vez eu deixei. Deixei brilhar, uma noite, porque não há ninguém em cem léguas para farejar um velho a cantar a si mesmo, e porque há dores que só saem quando se deixa vir.

Cantei o louvor inteiro. Cada verso que me chamava de grande.

E não há, em parte alguma deste mundo que eu ajudei a encolher, maldição mais exata do que um homem cantar, sozinho e a chorar luz, a canção que o celebra por ter aberto a porta pela qual entraram os que vieram matar todos os que a cantavam.

Quando acabou, apaguei aquilo. Tapei o cantil. Fiquei de olhos abertos, no escuro, a deixar a noite passar.

Do lado de fora da cabana, o céu começava a clarear sem entusiasmo, do modo que ele faz no inverno: uma palidez gradual, como quem não tem pressa de acordar e nem razão particular para o fazer. A raposa não tinha voltado. O arame da armadilha ficara encostado à soleira, onde o deixara.

Senti-os antes de os ouvir, e ouvi-os muito antes de qualquer homem os ouviria.

Foi pela manhã, ou no que serve de manhã quando o sol mal se levanta do horizonte e logo desiste. Estava de cócoras a recolher a água do degelo quando a terra mudou de assunto sob os meus pés. Não era ela. O passo dela eu conhecia, vasto e sem pressa, a fala de uma placa inteira. Isto era outra coisa. Pequeno. Regular. Pesado de um jeito que a vida não é: a vida pisa torto, descansa, hesita. Aquilo vinha em compasso, metal e pedra mordendo o chão gelado, um estalo seco e outro e outro, todos iguais.

Pousei a concha. Fiquei muito quieto, com a planta dos pés colada à terra, a contar.

Três. Vinham três.

E eu soube o que eram antes de subir ao alto e os ver recortados contra a neve, porque o compasso daquilo estava gravado em mim mais fundo do que a língua morta, mais fundo que a canção. Eram da minha gente. Não os tinha feito eu, mas conhecia a marca de quem os fez, a assinatura na curva do ombro de bronze, o jeito como a junta do joelho repetia uma proporção que só uma escola de mãos sabia repetir, mãos que eu vira trabalhar, mãos que eu chamara de minhas num tempo em que tinha gente a quem chamar de minha. Reconheci-os como se reconhece a letra de um morto numa carta que chega anos atrasada. Os meus tinham feito aquilo. E aquilo vinha, paciente e sem rosto, os olhos a acenderem-se fracos a cada três passos, cumprir a única ordem que ainda obedecia.

Vinham buscar-me.

NãO primeiro me viu.

A cabeça lisa virou-se, sem olhos, e os pontos de luz na face acenderam-se um tom acima, e o compasso quebrou, quebrou pela primeira vez, de três para quatro, mais rápido, porque a coisa tinha um alvo agora e o alvo era eu. Os outros dois viraram-se juntos. E aqui é onde um homem corajoso teria agido, feito o que eu sei fazer, o que me valeu uma canção: tocar o que está por trás do mundo, mergulhar até a borda, e desfazer aqueles três num gesto, como quem apaga três contas de um ábaco.

Pensei nisso. Por meio segundo, pensei.

Foi o tempo de a luz me subir pela garganta, oferecida, a magia grande a dizer usa-me, é para isto que serves, é isto que tu és, e foi o tempo de eu a recusar. Porque a magia grande não toca o gelo nem o fogo nem o ar; toca o tecido por baixo de tudo, e para tocá-lo eu teria de me abrir, e abrir-me acende-me como uma fogueira no escuro para qualquer olho que saiba olhar de cima. Desfazer três bonecos de bronze e, no mesmo gesto, gritar ao mundo inteiro aqui, o que vós procurais está exatamente aqui.

Então fiz a coisa pequena.

Pus a mão no chão — no chão dela, no frio dela, no gelo que era a vizinha de trinta anos, e não toquei a borda do mundo, toquei só a água. A água que já estava ali, dura e paciente sob a neve, à espera. Não há grandeza nisto. Um aprendiz dos do gelo faz parecido, e eles passam a vida a aprendê-lo, porque a magia do elemento não se arranca da estrutura das coisas, conversa-se com ela, e a conversa leva anos de afinidade, de viver imerso no frio até o frio responder. Eu tinha trinta anos de afinidade. Tinha uma vizinha que era o próprio inverno. Pedi ao gelo, e o gelo, que a conhecia melhor do que me conhecia, fez-me a cortesia de obedecer.

A crosta sob os três abriu-se.

Não com fúria — com lógica. Uma fenda reta, limpa, geométrica, do jeito que a minha gente gostava das coisas, e os três caíram pelo rasgo na água escura por baixo, o compasso a virar estrondo, o bronze a engolir o frio negro que nem o bronze atravessa a nado. A fenda fechou-se atrás deles com um estalo. O lago ficou liso outra vez, branco, mentindo que nada acontecera, do jeito que a neve mente sempre.

Não os destruí. Bronze daqueles não se afoga; vão andar pelo fundo, cegos, e um dia subir por uma margem qualquer e recomeçar o compasso. Só comprei tempo.

Entrei. Pus numa mochila o que cabe numa mochila quando se faz isto há um século: pouco. O cantil. Voltei à soleira uma última vez.

A oeste, sob o gelo, o frio tinha um peso conhecido. Ela estava perto, ou estivera, ou estaria. Com ela os tempos do verbo nunca foram firmes. Não disse adeus. Não se diz adeus a uma vizinha que vai durar mil anos depois de a nossa estrada ter virado pó; seria pretensão minha, e ela acharia graça. Apenas olhei o norte branco uma vez, demoradamente, do jeito que se olha uma janela que não se vai tornar a ver, e deixei que ela sentisse que eu olhava, se quisesse sentir. Foi a despedida possível entre dois que não pedem nada um ao outro. Foi mais do que eu disse a quase todos os que enterrei.

Depois virei as costas ao frio e desci para o sul, onde o mundo era mais morno e mais cheio de gente, e portanto mais perigoso, e portanto melhor lugar para um velho se perder no meio. Dizem que há vales lá embaixo onde a terra é boa e os homens moem o próprio trigo e não perguntam o nome de quem chega, contanto que chegue calado e fique calado. Um moinho, talvez. Sempre quis ver de perto se a farinha é mesmo tão sem memória quanto dizem.

Comecei a andar. À frente, a estrada; atrás, mais um lugar onde estive e que não foi meu. Pelo caminho, sem pressa, fui apagando a luz, uma linha de cada vez, e ensaiando o rosto seguinte, o de um homem velho e sem história, que ninguém cantaria, e que por isso ninguém viria buscar.

CapítuloII
Bryne, a Lámina de Redom
✦ ✦ ✦

Acordei antes do toque, como sempre. No escuro da tenda não soube onde estava. Só o frio, o cheiro de aço e óleo, e a certeza velha de que em poucas horas alguma coisa ia tentar me matar.

Depois lembrei do dia. O aperto de sempre apertou outra vez, fundo, debaixo das costelas. Fiquei deitada a senti-lo. Não confesso isso a ninguém. O aperto não atrapalha a mão. Levantei.

Vesti a armadura sozinha. O Garran tem três escudeiros e gosta que o vejam ser armado peça por peça, como um altar. Eu prefiro as minhas mãos. Uma fivela mal-apertada é como se morre.

Tev espreitou pela aba da tenda. Dezessete anos, primeira campanha, da minha guarda.

— Comandante. O Lorde-Marechal pergunta se—

— Daqui a pouco.

Ele não saiu. Ficou segurando a aba, e eu vi-lhe as mãos. Tremiam de leve. Percebeu que eu vi e fechou-as em punho.

— Vais vomitar?

— Não, comandante.

— Vais. Toda a gente vomita antes desta. Vai ali atrás, faz isso agora, e quando voltares já passou.

Apertei a última correia.

— Eu vomitei na minha primeira. O Vohl segurou-me o cabelo e não contou a ninguém.

O rapaz piscou, sem saber se podia rir. Não riu. Mas o punho cedeu, abriu, e foi o que eu quis. Saiu. Ouvi-o lá fora cumprindo a ordem, e voltou mais branco e mais firme. É assim que funciona: o medo precisa de sair por algum lado, e é melhor pela boca do que pelas pernas no meio da formação.

Deixei o elmo na arca. Nunca o uso. O Vohl, que me ensinou a segurar uma espada antes de me ensinar a ler, dizia que um soldado tem direito de ver os olhos de quem o manda morrer. É a única superstição que carrego, e carrego porque era dele.

Afiei a espada antes de sair. Não precisava; afiara na noite anterior. Mas afio quando há tempo a mais antes de uma coisa grande. Faca pequena na bota esquerda. Faca grande no cinto. Tudo no lugar. Saí.

Lá fora o acampamento ia até onde a vista alcançava, e atrás dele estava o bicho.

Os homens chamavam-no baixo, entre si: o bicho, a Montanha. Como se o nome verdadeiro pudesse acordá-lo de longe. Volkarn. Davam-lhe nome de montanha porque era do tamanho de uma. Marcháramos dias até ali: terras altas onde já não mora ninguém, só pedra, vento e os restos de uns povos antigos que um dia o adoraram e viraram pó. Mas ainda era terra nossa. Esse era o ponto, e a ofensa. Os outros dragões reinam longe, em desertos e geleiras que a gente finge que não existem. Volkarn dormia no nosso quintal. Um dia Redom decidiu que não cabíamos os dois na mesma terra.

Caldros veio ao meu lado enquanto a hoste se formava. O Lorde-Marechal cheira a couro e a tinta de mapa e fala pouco, o que sempre gostei nele.

— Três anos — disse, olhando o bicho, não a mim.

— Três anos — repeti.

— O conselho levou mais dez a decidir. — Caldros não tirou os olhos do bicho. — Não por medo do bicho. Por saber o que significa derrubá-lo.

— E o que significa.

— Que não sobrou nada acima de nós. — Falou devagar, como quem já tinha pensado a frase muitas vezes. — Quando comecei, ainda havia reinos a vergar, povos que não falavam a nossa língua, raças que se julgavam donas dos seus cantos do mundo. Hoje todos pagam tributo ou pagam com a vida. Sobrou ele. A coisa mais velha e mais forte que há, dormindo no nosso próprio quintal desde antes de existir Redom. Os outros impérios da história contentaram-se em mandar nos homens. Nós vamos pôr uma coleira no que os homens chamavam de deus.

— Não é vingança, então. É a última prova.

— É a prova de que não há mais nada que não caiba debaixo de nós. — Virou a cabeça para a janela um segundo, depois voltou. — O conselho esperou cem anos por estar seguro o bastante para tentar. É isto que se faz no topo, Bryne. Não se descansa. Sobe-se o último degrau só porque ainda há um degrau.

Não precisava dizer o resto. Três anos de túneis medidos a passo, de máquinas montadas peça por peça, de espiões anotando cada hábito da criatura. Cem mil homens à minha frente. Ninguém junta um exército desses para matar um bicho. Junta para prender uma montanha.

Caldros mandou rever a tração do guincho leste, que tinha dado folga na noite anterior. Andei a linha com ele. Contei os cabos, testei a fivela de dois arpões com o polegar, mandei trocar uma roldana que rangia. Coisa de manhã comum, a mesma que faço antes de qualquer marcha. O corpo sabe o caminho mesmo quando o resto não quer pensar no que vem.

Eu já o vira de longe, na marcha. Uma silhueta que a gente tomava por cordilheira. De perto era outra coisa, e nenhuma palavra que treinei me preparou para o de perto. Não cabia nos olhos. Tinha de virar a cabeça para acompanhar o flanco, e quando chegava à cauda já esquecera onde ficava a cabeça. As escamas das costas eram do tamanho de telhados, cobertas de musgo e de árvores tortas crescidas ali ao longo de séculos, porque o bicho ficava parado tempo suficiente para virar paisagem. Saía fumo de algum lugar fundo, devagar, do jeito que sai de uma terra que tem fogo por baixo. E havia o cheiro: quente, antigo, mineral. Cheiro de coisa que existe desde antes de haver nome para as coisas.

Os cavalos não chegavam perto. Relinchavam e puxavam as rédeas a meia légua, e tivemos de deixá-los para trás. Fomos a pé, que é o que se faz quando o terreno não deixa escolha.

Não se mata uma coisa dessas com uma espada. O plano de Caldros não era plano de batalha. Era plano de obra.

A manhã estava cinzenta, um céu baixo, e um vento descendo da serra com cheiro de pedra molhada. Bom tempo para morrer, dizia o Vohl, nesse jeito seco que ele tinha de dizer coisas sérias. Não superstição: frio conserva o soldado. É o calor que o mata antes do inimigo.

Subi numa pedra para que me vissem. Cem mil rostos voltados para cima, e atrás deles a coisa do tamanho do mundo. Não preparei discurso. Discurso longo, à beira de uma hora destas, é água a mais num odre já cheio.

— Não viemos matar um deus! — gritei, e a minha voz correu pela encosta. — Deixem isso para os poetas e para os tolos. Viemos cravar correntes. Cada arpão que entra é um palmo de terra que volta a ser nossa. Não olhem para o tamanho dele. Olhem para a corrente à vossa frente, e puxem, e quando ela estiver firme, puxem a próxima.

Silêncio. O tipo de silêncio que pesa.

— Vão dizer aos vossos netos que estiveram aqui — disse, mais baixo agora, e mesmo assim chegou longe, porque ninguém respirava. — Que no dia em que Redom prendeu a Montanha, vocês seguraram a corrente. Agora às posições.

Não houve grito de guerra. Eu não quis grito. Quis homens calmos fazendo um trabalho impossível, e foi o que tive: dez mil costas dobrando-se sobre os guinchos ao mesmo tempo, sem uma palavra, sem um grito. Só o metal e o esforço. As máquinas rolaram encosta abaixo. Os guinchos começaram a cantar.

Ele acordou antes do primeiro arpão. Claro que acordou: o chão tremia com os nossos passos, sentiu-nos muito antes de decidir se valíamos um olhar. Abriu um olho. Só um. Do tamanho de um lago, com uma brasa funda lá dentro, como uma forja vista do fundo de um poço. Esse olho passou pelos meus cem mil, pelas minhas máquinas de três anos, e seguiu em frente. Não mudou o ritmo. Não levantou a cabeça. Deixou-nos chegar.

Não sei o que se passa na cabeça de uma coisa daquele tamanho. Talvez tédio. Talvez nem fôssemos, para ele, acontecimento. Só sei o que vi: deixou-nos chegar. Deixou cravar o primeiro arpão. Depois o segundo. Depois quinhentos. As correntes cantaram ao esticar, as estacas morderam o chão debaixo dos seus membros, e ele continuou a não nos levar a sério.

E então se mexeu.

Não de uma vez. Coisa daquele tamanho não se mexe de uma vez. Primeiro o pescoço, um tremor lento que desceu pelas costas e chegou ao chão como terremoto. A corrente que eu segurava vibrou, e a vibração subiu pelo punho, pelo antebraço, até o ombro, e ali ficou. Não a soltei. Tev gritou alguma coisa ao meu lado que não cheguei a ouvir. O chão que eu pisava deixou, por um instante, de ser chão.

O Tev tinha voltado a ser homem. Ficou ao meu lado enquanto as máquinas desciam, e não disse nada, que foi o certo. O vento cheirava a pedra molhada. Em baixo, na planície, os cavalos que não chegaram a entrar faziam barulho de cavalos — coices, relinchos, o que os cavalos fazem quando não entendem o mundo. Em cima, o bicho exalava o mesmo bafo de sempre — quente, devagar, mineral, como terra com fogo por baixo.

Dei a primeira ordem antes de o sol limpar a serra. A voz saiu firme. Vinte anos de prática em parecer firme quando não estou. As máquinas avançaram. Os arpões já estavam cravados desde a noite anterior, e as correntes corriam dos guinchos até a carne do bicho, cravadas desde a noite, como cabos de um navio amarrado a uma montanha.

— Tensionar.

Os guinchos gemeram, as correntes esticaram, e pela primeira vez em três anos de planejamento a coisa que chamávamos de Montanha sentiu que estava presa.

Comandei do chão pela primeira hora. É o meu lugar: de onde vejo a linha inteira, de onde leio onde vai quebrar antes de quebrar. Movi a ala leste para tapar um vão. Mandei a cavalaria de Vasse render os guinchos da direita. Gritei nomes, dei direções, fiz o que sei fazer melhor que ninguém vivo — pôr um exército onde precisa estar no instante em que precisa estar. Cem mil homens cobriam a serra de uma ponta à outra. Na frente, agarrados às correntes e aos guinchos, estavam os dez mil das equipes de máquina: os que tocavam o bicho de perto, os que iam morrer primeiro.

Mas chega um momento numa batalha em que o lugar do comandante deixa de ser o chão. Quando a primeira equipe chegou ao lombo do bicho pelas correntes e não conseguiu cravar o segundo ancoradouro, soube que ia ter de subir. Ninguém treina um homem para estar de pé sobre uma coisa que respira. Um exército lê o rosto de quem o comanda. E aquele rosto tinha de estar lá em cima, onde todos o vissem.

Subi pelas correntes. De perto o bicho não era uma montanha; era carne, e isso era pior. As escamas tinham o tamanho de escudos e o calor de pedra ao meio-dia, e onde duas se encontravam saía um bafo morno que cheirava a forja e a algo doce por baixo, o cheiro de uma ferida que nunca fecha. Por baixo da minha mão havia um pulso, lento, fundo, paciente, o batimento de uma coisa que media o tempo em séculos e não tinha pressa de me sacudir. Cada batida levantava-me os joelhos um dedo do lombo e voltava a pousá-los. Cravei o ancoradouro a peso, contra aquele sobe-e-desce, e a viga entrou na fenda entre escamas e o pulso engoliu-a sem mudar de ritmo, como se eu lhe tivesse posto um espinho. A três passos de mim, na mesma corrente, estava o Renn, que eu treinara em rapaz e que já comandava equipa de máquina; cravava o ancoradouro dele com a mesma teimosia, a cara branca de quem está de pé sobre uma coisa que respira e não diz a ninguém que está. Trocámos um aceno. Olhei para baixo uma vez — cem mil homens, a linha inteira, voltados para cima, para mim. Não olhei de novo. Quem comanda do alto não pode pensar na altura.

E então nós o ferimos. De verdade. Cada viga de Vant-Côvado que entrava na carne ficava lá, e por uma hora inteira o bicho deixou-se cravar como se não valêssemos o esforço de uma reação. Vinte vigas no pescoço. Trinta. O chão vermelho num raio de léguas.

Foi quando ele se mexeu que a serra inteira soube o tamanho do erro. Não de uma vez — coisa daquele tamanho não se move de uma vez. Primeiro um tremor que desceu pelas costas dele e chegou ao chão como terremoto; senti a corrente vibrar do pulso ao ombro, e vi homens caírem de pé só com o sacudir da terra. Gritei a ordem certa — soltar as correntes do lombo, descer pelas de bombordo, o bicho vai rolar para estibordo. É a ordem que salva quem está em cima de uma coisa que se vira. O Renn ouviu-a. Vi-o ouvi-la, vi-o virar-se para a corrente certa, fazer tudo o que eu mandei e o que o ofício mandava. Não chegou. O lombo subiu debaixo dele antes de ele largar, e quando o flanco do bicho se ergueu, a escama em que ele se apoiava abriu-se contra a de cima como duas mós, e fechou. Não houve grito. Não dá tempo de gritar quando o que te apanha pesa o que pesa uma torre. O que saiu por entre as escamas, quando elas se separaram outra vez, não tinha forma de homem; reconheci-o pela fivela do peitoral que eu mesma lhe mandara reforçar três semanas antes, porque a dele andava gasta, e a fivela aguentou o que o homem não aguentou, e ficou ali a brilhar no meio do que tinha sido o Renn. Não tive tempo de reparar no que aquilo me fez, porque a garra já descia. Uma garra do tamanho de um navio varreu a ala leste; onde havia uma fileira de homens passou a haver uma faixa de terra revolvida e cor de ferro. A cauda baixou sobre as catapultas e fez delas lasca e carne misturadas, indistinguíveis, madeira e costela na mesma polpa. Morreram aos milhares, os meus, só naquele primeiro despertar — mas os milhares são um número, e eu já tinha aprendido, na fivela do Renn, que cada um daquele número fechava-se como ele se fechou, com alguém a três passos a quem eu dera a ordem certa.

E mesmo assim, mesmo assim, nós estávamos ganhando. Para cada máquina que ele esmagava, havia outras dez cuspindo aço. Cada viga que entrava o prendia mais, sangrava mais, o deixava mais lento. Era a conta fria de Caldros: trocar mil homens por mil feridas, e ter mais homens do que ele tinha sangue. Vi a cabeça enorme baixar, ofegante, com o pescoço cheio de ferro. Caldros, do outro lado do campo, levantou o punho. Os homens responderam com um rugido que nunca mais ouvi de exército nenhum — não de vitória iminente, mas de vitória a acontecer, agora, verificável. Pela memória do velho Vohl, nós íamos derrubar uma montanha.

Depois Caldros parou de sorrir. Vi-o parar antes de perceber porquê.

Foi o Tev quem gritou primeiro, lá em baixo. Nas franjas do flanco leste, onde o terreno dobrava e ninguém esperava movimento, havia sombras. Vultos baixos, rápidos, que se moviam pelo bordo das nossas linhas sem atacar ainda, só posicionando. Contei-os sem descer das correntes. Demasiados para batedores. Poucos para assalto frontal. Estavam a esperar alguma coisa.

O corte da garganta era meu. Por direito, por dever, e por uma razão que Caldros não escreveu em mapa nenhum: não se manda outro dar o sinal que fecha uma guerra. Sobe quem comanda.

Cheguei à dobra sob a mandíbula, onde a escama afrouxa porque a carne tem de dobrar. Um palmo de pele fina. Três anos a estudar a anatomia do maior animal que já viveu, e o que Caldros descobriu foi esse palmo. Olhei para baixo. O exército inteiro estava parado: era o plano. Quando eu baixasse a espada, tudo avançaria. O meu golpe não era para matar — Volkarn era velho demais e duro demais para morrer de uma espada. O golpe era para dizer agora. Era o farol.

Levantei a espada com as duas mãos. Com cento e vinte metros de ar por baixo de mim, não estava com medo do golpe. Estava com medo de falhar o sinal. De que a espada escorregasse e os homens lá embaixo vissem a sua comandante falhar.

Parei de pensar e baixei a espada. Entrou. Um palmo, porque a dobra tem um palmo, mas entrou. Virei-me e gritei para as equipes de escalada, e vi o sinal correr campo abaixo, e o exército inteiro mover-se de uma vez. Vi o rosto de Caldros lá embaixo, minúsculo, voltado para cima. Ele estava a sorrir. Foi o último sorriso que vi no campo.

A luz veio primeiro. Não sei de onde. Num instante eu erguia a espada sobre a garganta; no outro, uma luz se abriu no ar sobre todo o bicho, grande como uma cúpula. O meu golpe seguinte escorregou nela como em vidro — mas isso foi o de menos. O pior entendi olhando para baixo: as vigas, as pedras, as lanças de Vant-Côvado, a única coisa que furava aquela pele, tudo se desfazia naquela luz antes de tocá-lo. Ricocheteava, caía como chuva inútil sobre os nossos. A luz não curava o bicho. Não precisava. Só o cobria das únicas armas que o feriam. E num instante três anos e cem mil vidas viraram um bando de homens com alfinetes ao pé de uma montanha furiosa.

Caí das correntes. Rolei pela encosta de carne e pedra. Quando me levantei, vi o campo do ângulo que não queria: o do chão. E vi os Grakh. No flanco leste, onde dez minutos antes havia só campo e fumo. Uma formação densa, avançando pelo ponto exato onde as nossas linhas tinham cedido quando o bicho se ergueu. No mesmo instante em que ele se ergueu. Para que os dois golpes chegassem juntos. Não vi pensamento nisso; vi posição. E posição não é coincidência. Não é guerra quando dois inimigos atacam em coordenação. É acordo.

Bryne vs Avatar de Thrym

Vieram aos punhados, magros, suicidas, saindo de gargantas que ninguém pensou em vigiar. E atrás deles veio uma coisa que usava a forma de um Grakh sem ser um. Alta como três Grakh, com o corpo nunca terminado de formar, as bordas tremendo como se a carne não decidisse onde acabava. Jogou-se na junção da minha linha pelo gosto de a rasgar, e eu fui até ela, porque é o que faço: onde a linha range, é para lá que vai a comandante. Levei comigo a guarda de Vasse, os meus melhores, doze homens que tinham sobrevivido a tudo o que vinte anos de guerra puseram à frente deles.

Enquanto ía, gritei ordens para os flancos. O flanco leste estava a ceder — os Grakh empurravam pelo bordo onde as nossas linhas tinham afrouxado quando o bicho se ergueu. Por cima de tudo, Volkarn destroçava o que alcançava: uma garra baixou sobre o quintal da ala norte e fez lasca do que havia lá. Três frentes ao mesmo tempo. Fui à que punha tudo em risco e mandei os outros às que podiam ainda aguentar.

O que vi a seguir não cabe no que eu sabia ser possível. Uma lança de Vant-Côvado entrou no peito daquilo de ponta a ponta, e a coisa não parou. Riu. Partiu a haste como quem parte um graveto, arrancou o toco de dentro de si. A ferida estava lá — aberta, funda. A coisa olhou para ela uma vez, como quem nota uma mancha no casaco, e não olhou de novo. Dei a ordem que se dá quando um inimigo aguenta o ferro à frente: cercar, golpear por trás, derrubar pelo peso de muitos. Quatro homens prenderam-lhe os braços, dois foram às pernas, e eu fui à nuca com as duas mãos na espada e todo o meu peso atrás do gume. Entrou na carne dela um palmo e parou, como se eu tivesse batido em raiz de carvalho. A coisa abriu os braços, e os quatro homens voaram, e riu de novo.

Quebrei-lhe o joelho com um golpe lateral que partiria a perna de qualquer cavalo de guerra. Ouvi o estalo. Vi a perna dobrar para o lado errado. Dez segundos, talvez menos. Ela pisou com a perna torta. Ouviu-se o estalo do peso sobre o que estava partido, e ela avançou na mesma. Dois dos meus melhores caíram-lhe nas mãos e ela partiu-os contra o próprio corpo sem esforço, rindo o tempo todo, um riso sem raiva, quase alegre. Continuei a golpear. Cada ferida abria. A conta não acumulava. Não havia conta a fechar aqui — e uma comandante que percebe isso tem de largar o ponto e ir ao exército antes que o exército deixe de existir.

Foi o chão que decidiu por mim. Volkarn ergueu-se com um rugido que varreu o campo inteiro, e o que veio a seguir não foi som nem vento: foi a terra a partir por baixo dos pés. O terreno abriu em fendas, as estacas dos guinchos arrancaram do chão, as pedras rolaram encosta abaixo. Caí. Rolei. Quando me levantei, a coisa inacabada já não estava onde eu a deixara. O campo entre nós estava cheio de pedra e de fumo e de homens a correr. Não a procurei. Tinha um exército a tirar dali.

Recuei a ala esquerda com a voz, não com a espada — gritei as ordens que fecham um rombo, e os homens que ainda eram homens obedeceram. Fechei o vão antes que virasse brecha. Girei as balistas para os infiltrados, e vi os primeiros punhados de Grakh caírem como devem cair os que atacam Redom em campo. Estávamos a segurar por um fio, mas eu conheço a diferença entre uma batalha perdida e uma batalha difícil, e aquela ainda era só difícil. Mais um pouco e eu teria recuado a hoste em ordem, ferida, viva. Vi esse caminho. Esteve à distância da minha mão.

Então a minha própria artilharia virou-se contra nós.

As máquinas da ala direita, as minhas máquinas, servidas pelos meus homens, giraram nos eixos e cuspiram fogo e pedra não sobre o dragão, não sobre os Grakh, mas sobre a nossa própria retaguarda. Vi a primeira salva cair no meio de um quadrado de infantaria que eu mesma formara, e vi homens de Redom morrerem sob o ferro de Redom, e a minha mente recusou-se a aceitar, porque aquilo não tinha lugar em nenhuma lei que me ensinaram.

Soube depois que fora o capitão Tamel quem deu a ordem. Um bom homem. Lembro dele rindo numa fogueira, semanas antes. Mas naquela hora não soube de Tamel nem de nada. Soube só de uma coisa: a obediência que é a espinha do meu povo, a corrente que eu mesma ajudo a manter, tinha descido envenenada do topo até embaixo. Homens treinados para obedecer obedeceram.

Não foi o fogo que nos quebrou. Foi o que o fogo disse. No instante em que um soldado de Redom viu a morte chegar do próprio Redom, partiu-se a única coisa sem conserto rápido: a certeza de quem está ao teu lado. E sem ela os meus homens deixaram de ser exército e voltaram a ser o que todos somos por baixo do aço — gente apavorada que quer viver. O pânico espalhou-se mais rápido que qualquer fogo, e o pânico eu não soube combater, porque nunca, em toda a minha vida, precisei.

Foi sobre aquela massa já quebrada que o bicho acabou de se erguer. As correntes de três anos arrebentaram uma a uma, e cada estalo é um som que vou ouvir até morrer. Dei a ordem que jurara nunca dar. Recuar. Gritei recuar, e ouvi a minha própria voz fazê-lo, e soube que cada homem que me ouvisse entenderia, naquele segundo, que o mundo tinha mudado de eixo.

Trouxe os vivos montanha abaixo, e foram poucos. Marchei para aquela serra com cem mil. Na descida comecei a contar os que vinham atrás de mim. Parei em oitocentos e quarenta e um. Não porque chegasse ao fim — porque a seguir a oitocentos e quarenta e um vinha um rosto que eu conhecia, e depois do rosto vinha o nome, e depois do nome vinha a pergunta de onde estava o homem ao lado dele, e eu não quis saber a resposta ainda. Guardei o número. Oitocentas e quarenta e uma costas. Marchei.

Os portões brancos abriram devagar. Nas muralhas havia gente em silêncio. Não o silêncio dos que esperam — o dos que já entenderam. Não havia arauto que precisasse de falar.

Parei no portão. Virei-me. A montanha ainda fumegava lá longe, contra o céu baixo. Fiquei a olhar para ela o tempo que levei a perceber o que estava a acontecer dentro de mim, e o que estava a acontecer não era o que eu esperava. Não era o peso dos mortos, que esse já o conhecia. Era outra coisa. Fria. O nome Grakh apareceu-me na cabeça sem que eu o chamasse. Deixei-o ficar.

Virei as costas à montanha e entrei.

Bryne entrando em Redom
CapítuloIII
Véspera, a vontade do Véu
✦ ✦ ✦

Têmpano era pequena demais para ter nome nos mapas de Redom, e foi por isso que escolhi vê-la morrer. Os pequenos dizem a verdade sobre os grandes.

O homem chamava-se Edran. Quarenta e poucos anos, as costas de quem os passou todos curvado sobre a mesma terra. Observei-o por uma manhã, da forma como observo tudo: de toda parte e de lugar nenhum, sem mãos para tocá-lo e sem boca para avisá-lo. Não tinha nada de especial.

Vieram pela estrada do sul, e Edran ouviu-os antes de os ver. Um exército de Redom anuncia-se muito antes de chegar, não com gritos, que seria desonra, mas com aquele som de coisa única, centenas de homens pisando no mesmo instante. Tum. Tum. Tum. Como um coração grande demais para um corpo só.

Ele largou a enxada na terra. Não correu. Vi o pensamento atravessá-lo, claro como água: não havia para onde correr que o som não alcançasse primeiro. Então endireitou as costas e ficou à espera do que vinha.

O capitão que entrou em Têmpano não era cruel. Os homens dele não incendiaram nada. Não tomaram as mulheres. Não houve a alegria suja que se vê nos exércitos dos outros: a dos Grakh, que riem enquanto matam, a dos meus próprios filhos, que matam sem rir. Desmontaram em fileira. O capitão, um rapaz de queixo limpo e olhos de quem dorme bem, desenrolou um pergaminho e leu, em voz quase gentil, que a aldeia de Têmpano e suas terras passavam, daquele dia em diante, à administração do Coração de Pedra, sob a graça de Korath e a lei de Redom.

Foi só isso. Uma frase.

Os Grakh teriam matado Edran, e seria um sábado qualquer. Eu teria comprado a dívida dele, ou o filho, e ele nunca saberia que fora vendido. Redom fez algo pior do que matar e mais limpo do que comprar. Num minuto, com uma frase lida por um rapaz educado, Edran deixou de ser um homem que vivia pela sua conta e virou um número numa coluna, um tributo a calcular, um par de mãos que lavraria a mesma terra para um senhor que nunca veria.

E metade da aldeia ficou aliviada. Vi-os. Os velhos, sobretudo. Cansados de temer os Grakh nas noites de seca, de não saber se a colheita seria roubada, se a estação seguinte traria fome ou faca. Ali estava Redom oferecendo o que nenhum outro povo sabe oferecer com cara de favor: a paz. A paz dura, a paz de joelhos, a paz de quem troca a liberdade pela certeza de acordar vivo. Aceitaram-na com lágrimas nos olhos, alguns deles, agradecendo ao deus do homem de queixo limpo que os engolira.

Cada velho que naquela manhã murmurou uma prece de alívio tirou-me um grão de poder das mãos e entregou-o a Korath, sem saber que existiam mãos, que existia poder, que existia eu.

Edran não agradeceu. Foi o seu pequeno e inútil heroísmo, e eu registrei-o como registro tudo. Um dia os heroísmos inúteis vendem-se por bom preço. Não cuspiu, não gritou, não puxou a foice; não era tolo. Apenas não baixou os olhos quando o capitão passou, e o capitão reparou.

O rapaz dobrou o documento com o cuidado de quem respeita o papel. Depois olhou para Edran.

— A terra continua sua para trabalhar — disse. — Vinte por cento da colheita, não mais. Em troca, proteção da guarnição de Borda Leste. O senhor ganha mais do que perde.

Edran não respondeu. Continuou a olhar o ponto no chão onde estava a lâmina da enxada.

— Há uma lista para reclamações — disse o rapaz, depois de um momento. — O conselho revê todos os casos. É uma oferta honesta.

Silêncio. O capitão tentou mais uma vez, porque era genuinamente bom no ofício, que é diferente de ser um homem bom. Deu um passo e baixou a voz, como se a gentileza precisasse de ser cochichada para resultar.

— Tens algo a dizer?

Havia até alguma bondade na pergunta, o que de novo é o detalhe que importa. Edran pensou por um tempo longo. Eu estava dentro daquele tempo com ele, e sei o que quase disse, e sei o que disse, e sei que as duas coisas eram verdadeiras. O que quase disse foi: esta terra é minha, foi do meu pai, e o teu deus não estava aqui quando eu a tirei das pedras. O que disse foi:

— Não, senhor.

E baixou os olhos. Tarde, mas baixou.

Ri porque aquele instante, o instante em que um homem livre escolhe o pão dos filhos em vez do orgulho, é o instante exato em que Redom vence, repetido um milhão de vezes pelo continente. E o engano maior do mundo, o que faz a minha arte parecer brincadeira de criança, é a gratidão que um homem sente ao perder tudo de forma educada.

Deixei Têmpano ao meio-dia. O capitão já partira; Edran já voltara à enxada, lavrando o que não era mais seu. Estou onde há um segredo a recolher, e há segredos em toda parte. Guardei o rosto de Edran. Guardo milhões deles.

Levei comigo uma certeza que vinha crescendo havia meses: dentro de um ano, homens como Edran teriam entregado o mundo a Korath — não por amá-lo, mas por estarem cansados demais de temer. Já tínhamos decidido, os três, na única conversa em mil eras que não terminou em ameaça. E eu já escolhera o rosto que vestiria: o de uma mercadora. Uma mercadora pode ir a qualquer lugar, até ao coração branco de Redom, e ninguém desconfia da mulher que lhe vende o que ele deseja. Eu seria o que estava dentro da casa, e a casa não me veria. Os covardes escondem-se longe. Eu escondo-me no meio. É pior.

Korath tem uma campeã de quem se orgulha a ponto de a exibir como se exibe uma lâmina nova, e ama-a cego, que é o único modo como ele sabe amar. Aí está a fraqueza de todos eles: veem o campo inteiro e ficam cegos justamente para a peça que mais amam.

Fica Edran, então, curvado sobre a terra que deixou de ser dele, lavrando em silêncio sob um céu que pertencia, naquela manhã, a um deus que ele agradeceu. Guardei o rosto dele, como guardo todos. A verdade, naquela manhã, tinha o formato de um homem que baixou os olhos um instante tarde demais.

CapítuloIV
Kronk, filho do deserto
✦ ✦ ✦

O sol já rachar a areia quando nós sair pra caçar. No deserto ser simples: o bicho que nós pegar de dia ser o que nós comer de noite, e barriga de Grakh nunca encher de vez. Kronk gostar de caçar. Kronk gostar de comer. E o Korr querer ir junto. O Korr sempre querer ir, e sempre ser pequeno demais.

— Korr ir — ele falar, agarrado na perna de Kronk c'as duas mão.

— Korr não ir. Korr ficar c'a Urgha.

— Korr ir. Korr caçar. Korr forte.

E ele apertar o braço fininho pra mostrar a força que não ter.

Kronk olhar pra Urgha. A Urgha olhar pro outro lado, fingir que mexer no caldo. A velha não ajudar Kronk nunca nessas hora. Achar graça de ver Kronk perder pro cria.

Então Kronk levar o Korr. Botar ele nas costa, onde o cria gostar de ir, e mandar segurar firme e ficar quieto quando a caça aparecer. O Korr prometer ficar quieto. O Korr nunca ficar quieto.

No meio da caçada, quando todos tar agachado e o touro-de-pedra ainda não ver nós, o Korr espirrar. Alto. O touro levantar a cabeça. A Hessa olhar pra Kronk c'uma cara de matar. E o Korr, nas costa de Kronk, falar baixinho "foi sem querer", do jeito que cria falar quando sabe do apronto.

Só botar o Korr atrás duma pedra, mandar ficar ali, e ir correr atrás da presa que agora saber que nós tar ali.

Kronk correr mais rápido que todos. Sempre ser assim. Kronk correr e a distância entre Kronk e o resto abrir, devagar, depois rápido, depois muito, e aí vir o riso. O riso vir quando a distância abrir. Kronk não conseguir segurar. Ruim pra caçar, que o bicho ouvir. Mas Kronk rir mesmo assim.

A Hessa gritar atrás que Kronk ser idiota, que Kronk espantar a presa, que ela partir a cabeça de Kronk c'a marreta quando pegar Kronk. Kronk rir mais. Ela nunca pegar Kronk em corrida. Isso ela saber e Kronk saber. Por isso ela xingar mais alto: quando não poder fazer nada, o Grakh xingar. Ser quase a mesma coisa.

O bicho ser um touro-de-pedra, do tipo c'a carapaça dura nas costa e os chifre que crescer torto. Grande, mais que Kronk. Raro o bicho ser maior que Kronk, e isso também dar o riso. Kronk gostar de coisa grande. Coisa grande ser coisa que merecer.

Kronk alcançar ele antes do Brenn, antes do Durt, antes de todos. Pular no pescoço, os dois braço na carapaça, a força vir toda duma vez como sempre vir. O bicho mugir, tentar se jogar no chão pra esmagar Kronk. Kronk jogar primeiro. Rolar. O bicho cair em cima de nada e Kronk já tar de pé do outro lado, rindo muito, e aí o Brenn e o Durt chegar e pular também, e o bicho finalmente cair c'os três em cima.

Brenn levantar o punho. Durt levantar o punho. Kronk levantar os dois.

Atrás, a Hessa chegar caminhar devagar, sem correr. Ela nunca correr pra chegar depois do bicho tar no chão. Só correr quando o bicho ainda tar de pé. Ser o jeito dela. Ela parar, olhar o bicho morto, olhar nós. Não falar nada. Virar e começar a caminhar de volta.

— Hessa! Nós matar ele! — Brenn gritar atrás dela.

— Vejo — ela falar, sem virar.

— Kronk segurar sozinho primeiro! O maior de nós, Hessa!

Ela parar. Ficar de costa. Depois continuar andar.

— O maior de nós ainda chegar. — Ela falar baixo, só pra frente. — Pra sorte de todos.

Brenn olhar pra Kronk. Kronk olhar de volta pra Brenn. Não saber o que a Hessa querer dizer. Ela sempre falar coisa que Kronk não entender direito. Mas ela ser a maior de nós, então Kronk guardar.

Na volta Kronk desviar pra pedra onde deixar o Korr. Ele tar sentado, abraçado nos joelho. Quando ver Kronk, levantar rápido. Kronk botar ele nas costa de novo e pegar o bicho no ombro. Ser pesado. Kronk gostar de coisa pesada. Kronk gostar da queimação no ombro, do chão afundar mais onde Kronk pisar.

Quando chegar no acampamento, o Korr pedir pra Kronk levantar ele c'os braço pra cima. Kronk levantar c'uma mão, bicho n'outro lado. Ele rir muito. Pegar no cabelo de Kronk. Chamar de árvore, que ser o nome que ele dar pra Kronk quando era menor e achar que Kronk ser mais planta que Grakh.

— Maior que árvore! — ele dizer, c'a boca cheia de orgulho.

— Maior que tudo — Kronk responder.

E ser verdade. Naquele momento, c'o bicho no ombro e o pequeno Korr no braço e o cheiro de fogueira vir do acampamento e a voz da velha Urgha xingar por alguma coisa. Kronk ser a maior coisa no deserto, e gostar muito disso.

Na fogueira, depois, Brenn contar história. Ser o jeito dele, Brenn gostar de falar, e falar melhor quando a barriga tar cheia e o bicho já tar no espeto. Kronk sentar do outro lado c'o Korr dormindo no braço esquerdo, pesado feito pedra pequenininha, e ouvir.

—...e o touro se jogar no chão pra esmagar o Kronk, e qualquer um c'um dedo de juízo sair de baixo — Brenn já rir antes de acabar — mas o Kronk não, o Kronk rolar PRA DENTRO, pro lado do bicho, onde o chifre não alcançar—

— Ali ser o lugar certo — Kronk dizer.

— Ali ser o lugar que MATAR todo mundo menos tu!

Brenn bater no joelho.

— E tu rolar pra lá e sair em pé do outro lado e sorrir como se ter planejado!

— Kronk ter planejado.

— Tu não ter planejado nada na vida, Kronk.

Kronk pensar nisso. Ser verdade. Mas dar certo mesmo assim.

A velha Urgha não levantar os olho do caldo, mas algo no ombro dela mudar. Ser o jeito que Urgha rir. Não na boca, no ombro. O Korr mexer no braço de Kronk, resmungar alguma coisa sem acordar. Kronk ajustar c'o outro braço. O cheiro do cozido vir mais forte agora, c'uma coisa que Urgha botar que Kronk não saber o nome mas gostar muito.

— Que ser isso? — Kronk perguntar, apontando pro caldeirão.

— Comer e calar — Urgha dizer.

— Mas o cheiro—

— Comer. E. Calar.

Kronk comer e calar. Ser bom mesmo assim.

CapítuloV
Sael, o Tecelão
✦ ✦ ✦

Têmpano tem vinte e três casas. Contei-as ao chegar, por hábito — é o tipo de detalhe que não serve para nada e que passa a ser tudo se alguma coisa correr mal. Vinte e três casas, um poço, uma taberna que também é estalagem, e, à entrada dela, mais cavalos amarrados do que uma aldeia deste tamanho cria num ano. Foram os cavalos que me fizeram parar.

O que me trouxe foi maior do que Têmpano. Há três dias vi passar uma coluna do exército de Redom — não um destacamento, uma coluna, com máquinas de cerco que levaram uma tarde inteira a desfilar por um único ponto da estrada. Aço para tomar um reino. Onde há poder a mover-se em peso, há oportunidade a escorrer pelas beiradas — contratos por assinar, segredos por vender, posições por preencher antes que alguém mais esperto chegue primeiro.

Encostei-me à parede do lado de fora e tirei o cachimbo. Acendi, esperei que a fumaça pegasse, fumei devagar enquanto contava os cavalos outra vez. Doze. Guarnição pequena, então — os que ficaram para trás quando a coluna seguiu. Guardei o cachimbo e entrei.

Sou Davel hoje. Comerciante de sal do sul, com uma carroça que deixei a um dia de distância porque o eixo partiu — o tipo de azar que faz as pessoas confiarem, porque ninguém desconfia de um homem a quem as coisas correm mal. Davel tem cinquenta e um anos, os ombros descaídos de quem passou a vida a carregar sacos que não eram seus, e uma lentidão de fala que faz os outros completarem-lhe as frases. Davel não pergunta. Davel senta-se, pede o que há, e deixa que lhe contem.

O que havia era cerveja morna. Havia também seis soldados em duas mesas juntas, um mapa dobrado que um deles tinha espalmado no tampo e que os outros consultavam com o orgulho de quem foi incumbido de coisa importante. Destacamento de retaguarda — os que ficaram para avisar as aldeias de que as aldeias eram de Redom agora. Ficaram de fora do que importa, e falam porque falar é a única maneira que têm de ainda fazer parte.

Levei o caneco aos lábios e não bebi.

— ...e ela passou a cavalo por cima do rio sem parar, escuta, sem parar, com a coluna atrás — dizia o mais novo, com as mãos a abrir no ar para mostrar o tamanho da coisa. — Ninguém atravessa aquele rio a galope. Ela atravessou.

— A Lâmina atravessa o que quiser — disse outro. — É por isso que ela lidera e tu contas a história.

Davel pousou o cotovelo no balcão com o peso de quem tem os ossos cansados e virou-se para eles.

— Perdoem um velho. Estão a falar da Lâmina de Redom?

— Da mesma — disse o mais velho, com orgulho de propriedade. — Nunca perdeu um campo. Comanda a linha de frente da maior caçada que Redom já fez.

— Mulher que lidera, nunca perde e cavalga assim — disse Davel, pensativo. — Quem me dera ser o cavalo.

Os soldados olharam um para o outro. O mais novo começou a rir. O mais velho ficou um segundo sem saber se devia rir também, e depois riu.

Davel esperou que o riso assentasse.

— E por onde vai uma coisa dessas, cem mil homens?

— Pela serra. — O soldado apontou vagamente para norte. — Volkarn. O dragão.

— Ah. — Davel franziu o sobrolho com esforço de quem tenta acompanhar. — E como é que cem mil homens chegam à serra? Pelo caminho do norte é tudo pedra, se bem me lembro. Passei lá com o sal há uns anos, quase parti o eixo numa ravina.

— Não pelo caminho do norte. — O soldado endireitou-se com a satisfação de quem explica a uma criança. — Pelo desfiladeiro de Ceth, a nordeste. Três dias de marcha, passagem larga, foi o próprio Lorde-Marechal que escolheu a rota. — Fez uma pausa. — Tens sorte que não estavas na estrada quando passaram. Durou dois dias o desfile.

— Ceth — repetiu Davel, devagar, como quem guarda.

Tinha a rota.

Quando uma coisa me cai tão fácil na mão, paro de gostar dela e começo a olhar em volta à procura do que não cai. Estava no canto.

No fim do balcão havia um homem que não estava a falar. Quarentão, dedos grossos de enxada, as duas mãos abertas à frente do copo. Não olhava para os soldados. Não olhava para nada. Era o único mortal na sala que não parecia ter opinião sobre cem mil homens a marchar para a serra, e um homem sem opinião sobre o que toda a gente tem opinião ou é tolo, ou viu mais do que diz. Sentei-me ao lado dele com o cuidado de velho que Davel carrega nos ossos.

— Davel — disse. — Sal, do sul. Vim tarde demais à festa, pelo que vejo.

Ele rodou o copo entre os dedos. Uma volta. Duas.

— Edran — disse, por fim. Só o nome.

Tinha dados no bolso, como tenho sempre. Pus-os no balcão sem convite — é o convite que os homens em silêncio aceitam mais depressa do que os outros, porque não pede nada em troca. Edran olhou para os dados. Depois olhou para mim.

— Uma jogada — disse Davel. — Para passar a noite.

Ele jogou. Perdi as duas primeiras com o descuido que irrita mais do que a derrota calculada — ninguém gosta de perder para um homem que não está a tentar. Na terceira ele avançou a mão e recolheu o que era seu como quem colhe o que plantou. Entre as jogadas, comecei a trabalhar.

— Mau negócio, a anexação — disse Davel, com o tom de quem lamenta de longe. — Para os que ficam com a terra, digo. O império passa, os impostos ficam.

Edran não respondeu.

— Tenho um sobrinho que passou por isso em Vael, há uns anos. Perdeu metade da colheita em tributo no primeiro ano. Metade. — Davel abanou a cabeça. — Vocês aqui já sabem o que vem a seguir?

— Já tivemos senhor antes — disse Edran.

— E como foi?

Ele olhou para o copo.

— Foi — disse.

Mudei de abordagem. Contei-lhe uma história sobre um general que conhecera numa estalagem a sul, cheio de segredos que não eram meus, para ver se ele trocava. Ofereci-lhe uma queixa sobre Redom, calibrada para o que um lavrador com terras anexadas devia sentir, para ver se ele concordava com mais do que o mínimo. Perguntei-lhe pela aldeia, pela colheita, pela família, pelos soldados que ficaram, se eram muitos, se eram problemáticos, se tinham requisitado gado.

A cada coisa, Edran deu o mínimo que a pergunta exigia e nem uma palavra mais. Não era cautela — era secura. Como um cofre vazio que continua fechado por hábito.

Empurrei-lhe a última mão de presente e levantei-me.

— Sabes o que és, Edran? — disse, já sem ser Davel.

Ele olhou para mim.

— O Lavrador do Terreno Infértil. — Sorri sem sorrir. — Não dás nada porque não tens nada. Nem tu sabias.

Saí antes que ele respondesse, se é que ia responder.

Na rua, um homem cruzou comigo e perguntou-me o nome. Abri a boca para dizer Davel, e Davel tinha ficado para trás, no balcão. O próximo ainda não tinha vindo. Disse um nome qualquer. O homem acenou e seguiu.

Tomei o norte, pelo desfiladeiro de Ceth, atrás da coluna. Havia de roçar mais aldeias como esta. Não vou por encomenda de ninguém. Vou porque a norte uma coisa enorme está prestes a abrir-se.

CapítuloVI
Bryne, a Lâmina de Redom
✦ ✦ ✦

A casa da Maren ficava na Rua dos Ferreiros, no bairro militar, onde as paredes são grossas e os vizinhos acordam cedo e sem cerimônia. Crescemos ali as duas, debaixo do mesmo telhado que o Vohl remendava todo inverno com aquela teimosia de quem sabe que o remendo não vai durar e remenda na mesma. O telhado ainda rangia. A parede do fundo tinha uma fissura longa que subia do rodapé até quase a janela, do tipo que aparece quando a fundação assenta e não há nada a fazer senão deixá-la assentar. Eu tinha mandado um pedreiro ver aquilo. A Maren mandou-o embora antes de ele tirar as medidas.

— Já ofereci — disse eu, uma vez, sobre o pedreiro e sobre outras coisas.

— Eu sei — disse ela. E não disse mais nada, que é o modo dela de encerrar o que não quer discutir.

Lá fora, no pátio dos recrutas duas ruas acima, alguém contava em voz alta. Um. Dois. Três. A parede grossa engolia o som até virar ritmo sem palavras, o tipo de barulho que deixa de ser barulho quando se cresceu a ouvir.

Minha irmã come devagar. Sempre comeu. Quando éramos pequenas, eu acabava a tigela e ficava olhando-a mastigar com aquela paciência que me enlouquecia, até a mãe me tirar da mesa. Hoje fico olhando do mesmo jeito. Mas ela sabe que estou olhando. Hoje ela sabe.

— Estás a fazer aquela cara — disse, sem levantar os olhos do prato.

— Não estou a fazer cara nenhuma.

— A cara de quem já decidiu e ainda está a convencer-se.

Fui verificar o estado da porta. A tranca era nova, a dobradiça trocada havia pouco; alguém reforçara a casa sem dizer nada. Olhei para a minha irmã. Continuava a comer.

— Reforçaste a porta.

— Estava a ranger.

— Desde quando te importas com ranger.

Ela levantou os olhos. Não a intensidade de antes. Uma espécie de cansaço calculado, do tipo que se pratica. Reparei no ângulo dos ombros, nos punhos perto da borda da mesa. A minha irmã aprendera a sentar-se perto das saídas. Não sei quando. Não perguntei.

Sentei-me outra vez e forcei as mãos a ficar quietas em cima da mesa.

— A cara de quem já decidiu — repetiu ela.

Não respondi. O Vohl dizia que os meus pensamentos moram no rosto, e que se eu não aprendesse a parar com isso não chegaria aos trinta. Cheguei aos trinta e oito.

Os olhos dela eram iguais aos meus. A mãe dizia que, quando nascemos, o tinteiro derramou e coloriu os dois pares do mesmo modo. Hoje os dela carregavam mais do que o habitual.

Fiz-lhe um resumo da serra. Não o dos relatórios, esse já circulara, já chegara ao conselho, já virara documento com selos e números. O outro. Ela ouviu sem interromper, como sempre ouve: guardando cada palavra para examinar em silêncio depois, quando eu não estiver. O Vohl fazia igual.

— O dragão estava a sofrer — disse ela por fim. — Estava preso, estava a perder.

— Estava. E então a luz apareceu.

— A luz.

— Algo aconteceu no campo. Um véu, algo que não era nosso. E quando o dragão reagiu, os Grakh apareceram nos flancos. Ao mesmo tempo.

Pausei.

— Não foi coincidência.

Ela ficou quieta. Fora, no pátio, o Garran treinava recrutas. O bater ritmado de madeira contra madeira.

— Ou foi guerra — disse ela. — E guerra tem timing.

— Três mil homens viram o que eu vi. Os infiltrados abriram o flanco leste exatamente quando o dragão se levantou. Exatamente.

— Dormiste, Bryne?

Não era desvio de assunto. Ela sabe o que pergunta.

— Pouco.

— Os sonhos voltaram?

Sim. Desde a serra. Não são os sonhos que conheço, os do Vohl, da mãe, das campanhas antigas. São outros. Mais quentes. Às vezes acordo convicta de algo que não sei nomear, com uma urgência que não é minha, ou que parece minha, que é o problema. Não disse nada disso. Disse só:

— São sonhos. Passam.

— O conselho não ordenou isto — disse ela. Não era pergunta.

— Não.

— E os três mil?

— Voluntários.

— Voluntários.

Repetiu a palavra como se precisasse de tempo para ela.

— Bryne. Isto tem um nome.

— Eu sei o nome.

— Deserção é o nome mais gentil. O outro é traição.

— Então é traição.

Não havia muito a acrescentar.

— Já perdemos cem mil naquela montanha. Voltaram menos de um em dez, e os que abriram os flancos por dentro eram deles. Se eu esperar que o conselho autorize, vão autorizar quando tivermos a próxima serra, e o próximo dragão, e os próximos cem mil. Não estou disposta a esperar.

Ela ficou um tempo sem falar. O Garran parou de treinar lá fora. O silêncio era o tipo que ela usa quando pensa algo que sabe que eu não quero ouvir.

— E se estiveres errada? — disse por fim. — Sobre o pacto.

Fiquei olhando a mesa.

— Então é o que é.

Ela repetiu as minhas palavras de volta, e a voz subiu de um jeito que eu não ouvia desde que éramos crianças.

— É o que é. Vais para o deserto morrer por uma teoria, e dizes isso como se fosse chuva.

— Não vou morrer.

— Vais ou não vais, tanto faz!

A mão dela bateu na mesa e os pratos saltaram.

— Se os Grakh te matarem no deserto, morres. Se não te matarem, voltas a Redom e o conselho enforca-te por deserção. As duas estradas acabam contigo numa cova, Bryne, e tu escolheste-as as duas ao mesmo tempo.

— A cidade precisa—

— A cidade!

Ela riu, e não foi um riso bom.

— Não faças isto pela cidade. Pela cidade faz o conselho, que dorme em camas quentes. Tu fazes isto porque alguém te fez sentir que a justiça é tua para carregar, e tu carregas tudo, sempre carregaste, mesmo o que não te pertence. Não é coragem. É vaidade vestida de dever.

Isso doeu mais do que a deixei ver.

— Tu prometeste — disse ela, e agora a voz baixara, o que era pior. — Depois da Montanha. Olhaste para mim e disseste: o dragão é a última. A última vez que me ponho na frente de uma coisa que pode não voltar. Disseste isso. Há um mês. E aqui estás.

— As coisas mudaram.

— As coisas não mudaram. Tu é que não sabes parar.

Ela respirou.

— Eu não quero ser a irmã que sobrou. Não quero ser a que fica a empurrar a tua cadeira de volta para a mesa, a fingir que vais voltar para a sentar. Não tens o direito de me deixar isso.

Eu não tinha resposta para aquilo. Tinha argumentos para o conselho, para o Garran, para os meus homens. Para ela, nenhum.

Ela não disse que entendia. Não ia mentir. Acabou de comer devagar, lavou o prato, secou as mãos no avental. Na porta, parou.

— O Vohl teria feito a pergunta que eu fiz.

— Eu sei.

— E não teria gostado da resposta.

Não respondi. Ela saiu.

Fiquei sentada com a mesa vazia entre mim e a cadeira dela, ligeiramente puxada para fora. Levantei e empurrei-a até o fim.

— Te amo, irmã — disse, para a porta fechada, baixo demais para servir de alguma coisa.

CapítuloVII
Korath, a vontade da Têmpera
✦ ✦ ✦

Os homens de Redom erguem-me altares e chamam-me Têmpera, e há cem anos que os meus vencem. Um deus da honra não desvia o olhar da própria falha. A armadilha tinha três partes, e eu vi cada uma separada e não vi o conjunto. A luz que protegeu o dragão era de Véspera; conheci-a como se conhece o passo de um velho rival no corredor às escuras. O músculo era Thrym: um Grakh grande demais, inteiro demais, rindo daquele jeito que só ri o que não pode morrer. E quem arrumou tudo antes do primeiro soldado descer a serra era Aélith, que põe luvas para não sujar de sangue o que depois chama de ordem. Reconheci as três peças tarde, depois que se fecharam. Cheguei tarde porque desci: estava dentro da minha filha, embriagado do que ela fazia. É o que houve.

Há uma coisa que não digo aos meus filhos e que é preciso dizer aqui, porque a honra exige: eu queria aquilo.

Os dragões são alicerces. Quando os quatro fizemos o mundo, fizemos os dragões juntos — a única coisa em que concordámos, porque sem eles o mundo não se sustenta. Feri-los é ferir os pilares que sustentam a vida. Eu sei disso. Sabia antes de aprovar a caçada, sabia enquanto a caçada marchava, e quis assim mesmo. Faltava um ano. E o meu povo — o mais comum de todos, o sem dom, o de carne e osso e nada mais — estava a um passo de derrubar o que nenhum povo antes derrubara. Seria o ápice: cem anos de honra marcial culminando no impossível feito possível pela disciplina pura. Aprovei a caçada sabendo o que custaria ao tabuleiro, e aprovei-a na mesma. Essa é a primeira falha, e ela é minha, e fica registada aqui.

A segunda falha veio depois.

O pior daquele dia não aconteceu na serra. Aconteceu depois, atrás das minhas muralhas brancas, na boca dos meus próprios filhos.

Trouxeram os mortos para casa, e com os mortos veio a pergunta que sempre vem, a que separa os povos fortes dos que apenas parecem fortes: e agora? Reuniram-se no Salão dos Cem Cânticos, os de cabelo grisalho, os que assinaram a marcha. Eu estava lá, como estou em todo lugar onde se decide o destino dos que me pertencem, no ar entre as colunas, invisível e atento.

O primeiro a levantar foi Caldros. Quarenta anos a servir Redom sem tirar a armadura. Levantou sem pedir a palavra, como quem a toma por direito de quem sempre a teve.

— Eu sei o que perdemos — disse. Seco. — Eu próprio os trouxe para casa, os que sobravam. Não me venham falar de números, que os sei de cor até o último. Construímos as máquinas uma vez. Construímos de novo, maiores. Desta vez sabemos da luz. Desta vez vamos com o dobro.

Houve um rumor de assentimento. Vi-o percorrer o salão como vento numa seara, as cabeças inclinando-se, os punhos fechando-se sobre as mesas. Era a minha têmpera a falar pela boca daquele homem. Quase tive orgulho. Quase.

O segundo foi o conselheiro Vasse. Ficou sentado; nunca precisou de altura para se fazer ouvir. Esperou que o rumor de Caldros se gastasse.

— O general descreve um exército — disse. — Eu vou descrever uma aritmética. Perdemos cem mil. Temos ainda trezentos mil. Se voltarmos e perdermos mais cem mil, ficamos com duzentos mil e um dragão de pé e mais irritado. Cem mil é o número abaixo do qual Redom deixa de existir. Não proponho covardia. Proponho sobrevivência.

— O dragão dorme — cuspiu Caldros.

— Dormia — respondeu Vasse, sem alterar o tom. — Antes de lhe mandarmos um exército.

Então virou-se para o general e disse a coisa que eu não tinha previsto que fosse dita naquele salão.

— O general fala como se a serra tivesse sido um azar. Não foi. Marchámos contra um dragão sem medir o dragão, porque medir teria parecido medo, e fomos ensinados que medo é a única coisa que um homem de Redom não pode sentir. Cem mil morreram do que nos ensinaram a chamar de virtude. Não foi o lagarto que os matou primeiro. Foi a nossa certeza.

O salão calou-se.

Eu não.

Vasse nomeou a minha falha na minha cara, sem saber que o autor estava sentado no ar acima dele.

Havia um peso meu pousado sobre o conselho inteiro, o favor com que sustento a convicção dos meus na hora de decidir. Senti-o ali, firme sobre Caldros, pronto. E ali fiquei, com o peso nos braços, sem saber onde pô-lo.

Se o empurrasse para Caldros, mais cem mil marchariam contra um alicerce que eu próprio sabia não poder dobrar desta vez — e faria isso para guardar a doutrina intacta ao preço de outro campo de mortos meus. Se o empurrasse para Vasse, deixaria a dúvida vencer dentro do povo mais firme que criei, a um ano da linha de chegada, com o portfólio ainda dominante e a balança ainda a meu favor. Dois caminhos. Cada um acusava uma coisa diferente que eu sou.

Fiquei com o peso parado.

Ninguém no salão soube. Caldros continuou de pé, ainda convicto, sem o meu ombro por baixo. A dúvida que Vasse soltou ficou de pé sozinha, sem que eu a empurrasse para fora — e uma vez dita dentro de um salão, não volta a calar-se. Deixei os dois lados ficarem ali, sem que eu pusesse o peso em nenhum.

— Enviar uma comitiva — disse Caldros, como se o assunto não tivesse parado. — Não com ferro. Com grão.

— Redom não manda grão a dragões — disse Vasse.

— Redom mandou cem mil homens a um dragão e voltou com menos de dez mil. — Caldros não ergueu a voz. — Talvez seja altura de experimentar outra coisa.

Um murmúrio percorreu o salão. Não de assentimento — de desconforto, o som que fazem os homens quando uma ideia os incomoda porque não é errada.

— E se não aceitar o grão? — disse um dos conselheiros do fundo.

— Então saberemos que o problema não é de apetite — disse Vasse, seco.

Ninguém respondeu. Caldros ficou de pé, com a cara de quem não terminou, e não terminou, e o salão deixou-o ficar assim.

Enquanto os velhos discutiam, a minha filha tomava a sua decisão sozinha.

Reuniu os três mil veteranos que a serra não engolira, mandou abater rebanhos e salgar a carne, encheu carroças, requisitou tendas, cordas, ferreiros, mulas. À margem da Capital ergueu um acampamento de lonas e fogueiras, longe dos olhos do conselho. Vi-a caminhar por ali à noite, de fogueira em fogueira, sabendo o nome de homens que outros generais nem olhariam; e os homens, ao vê-la passar, endireitavam as costas. Seguiram-na sem aval de ninguém, cada um pondo o pescoço duas vezes na corda — uma no deserto, outra em casa. A Capital, vendo-os partir em silêncio pelos portões, não soube se assistia à saída de uma heroína ou à primeira fenda de uma guerra que ainda não tinha nome.

Eu soube.

Conheço a têmpera que forjo nos meus: a honra que arde devagar, que aquece sem consumir, que distingue entre o que merece arder e o que fica no caminho. O que movia os passos dela para o sul não era isso. Era um fogo que não distingue. Não saiu da minha forja — saiu de alguma coisa que imita a minha, que tomou a justa raiva dela e a deixou crescer além do que a raiva justa cresce. Não sei o nome do que é. Sei que os passos dela já não iam para onde eu aponto.

A minha campeã saiu pelos portões de Redom sem ordem de ninguém, em marcha não autorizada, à frente de um exército que lhe pertence mais do que pertence ao império. É o que eu mesmo ensinei a nunca fazer. É a definição exata do que a doutrina proíbe. E é a melhor coisa que já criei a fazer isso.

Retirei-lhe o título. Retirei o que pus nela no dia em que a escolhi como minha campeã, minha favorita: o reconhecimento, o favor, o peso que fazia a sorte inclinar-se para o lado dela na hora estreita. Ela não estremeceu. Continuou a andar para sul, mais leve. Não a abandonei; quem forja não abandona o que forjou. Apenas retirei o que era meu.

Fiquei acima do salão sem árbitro e acima de uma filha que já não era inteiramente minha campeã. Com um ano ainda na contagem. Com o tabuleiro rachando de dentro para fora e o peso parado nos braços, sem destino.

Vou ver até ao fim.

CapítuloVIII
Kronk, filho do deserto
✦ ✦ ✦

A fome vir antes de tudo, todo dia, antes do sol e antes do nome de Kronk. Primeiro o aperto nas duas barriga. Depois Kronk. Ser essa a ordem. Kronk comer três lagarto de pedra antes do sol e ainda doer fundo. Os velho dizer que a fome ser a voz de Thrym. Kronk não ligar pra voz nenhuma. Kronk ligar pro aperto.

Naquela manhã a cria acordar antes de Kronk, o que ser raro. Quando Kronk abrir o olho, o Korr usar a pele de lagarto de Kronk como capa, arrastar ela no chão, c'uma pedra na mão como se fosse a marreta da Hessa.

— Korr ser Kronk — ele falar, sério, batendo a pedra no chão. — Korr matar o bicho grande.

— Esse bicho ser uma pedra — Kronk falar.

— Ser o bicho grande — a cria insistir, do jeito que cria insistir quando a verdade dela ser melhor que a verdade dos outro.

Uma coisa apertar dentro de Kronk que não ser a fome, e Kronk não ter nome pra ela. Kronk deitar de novo e fingir ser a pedra, e deixar o Korr subir em cima batendo a pedrinha e gritando que ganhar. O Korr ganhar. O Korr sempre ganhar essas.

A velha Urgha mexer o caldo de osso. Ela ver tudo sem levantar o olho.

— Tu vai partir essa cara de orgulho um dia desses, Kronk. Força demais, cabeça de menos. Eu já vi muito guerreiro grande virar muito defunto grande.

— Então Kronk morrer grande — Kronk responder. E roubar um osso do caldo. Ela bater na mão de Kronk c'a colher, e quase rir, que nela ser o mesmo que rir alto.

Kronk gostar da velha Urgha. Ela ser das pouca que não ter medo de Kronk.

— Tu vai ser o maior que já viver — ela falar, ainda sem olhar. — Não tar perguntando, tar falando. Eu já vi isso nos teu osso quando tu ser cria. Só que o maior que já viver vai ter que descobrir que tamanho não ser tudo. Um dia vai tar na frente de alguma coisa e a força não resolver. E esse dia — ela finalmente olhar pra Kronk — esse dia ser muito difícil pra quem nunca ter que pensar antes de fazer.

— Kronk pensar — Kronk falar.

Ela não responder. Voltar pro caldo.

— Urgha. Kronk PENSAR.

— Tu contar os lagarto de hoje antes de comer? — ela perguntar.

— Três.

— Tu pensar em matar eles, ou tu matar eles?

Kronk não responder. Ela mexer o caldo.

— Ser isso — ela falar baixo.

Kronk não entender. Mas guardar, do jeito que Kronk guardar pedra que pode servir depois.

A Hessa chegar de noite, e Kronk saber antes de ver.

O cheiro dela ser errado. Hessa cheirar sempre a sangue e a areia quente. Essa noite ela cheirar a sangue frio e a fumaça de coisa que não ser madeira.

Ela sentar perto do fogo sem falar. Ninguém falar pra ela. Os velhos que ficar olhar pro fogo fingirem que o fogo ser mais interessante que ela, que ser o jeito dos velhos de dar espaço. Kronk ficar deitado onde tar, fingir dormir. O Korr dormir de verdade no ombro de Kronk, quente e pesado como pedra de sol. Kronk não mexer.

O Voragh vir depois.

Voragh ser um dos mais grande, e andar devagar. Ele sentar do outro lado do fogo. Olhar pra Hessa. Ela olhar pro fogo.

— Quantos — ele falar. Não ser pergunta.

— Muitos — ela falar. — Mais do que eu querer contar.

— Dos nosso.

— Dos nosso. Dos deles também.

Silêncio. O fogo estalar.

— O bicho — Voragh falar.

— O bicho matar dos dois lado. — Hessa cuspir pro lado. — Não tar interessado em quem chamar ele.

Kronk não entender muito, mas entender isso: ter um bicho. Um bicho grande que não escolher lado. Kronk nunca ver bicho assim. Bicho sempre escolher. Fome sempre escolher.

— O Maior — Voragh falar, devagar, do jeito que ele falar coisa que pesar.

Hessa não responder de imediato. Kronk ver a mandíbula dela fechar.

— O Maior vir — ela falar. — Guiar nós. Ser igual sempre ser.

— E depois.

— E depois sumir.

O fogo estalar de novo. Dessa vez ninguém falar nada por um tempo longo. Kronk contar o silêncio pelo calor na cara. Ser muito silêncio.

— Nunca sumir antes — Voragh falar.

— Eu saber — Hessa falar.

— Os velho dizer que o Maior sempre ficar. Ou cair. Nunca sumir.

— Eu SABER, Voragh.

O Korr mexer no ombro de Kronk, resmungar, não acordar. Kronk prender o ar. O nome do Maior Kronk conhecer desde pequeno, igual todo Grakh conhecer: quando o Maior aparecer do nada, ser guerra. Ser sempre assim. O Maior aparecer, Grakh seguir, guerra acontecer. Não ter outro jeito e não precisar ter outro jeito. Ser simples como fome. Mas o Maior sempre ficar até o fim. Essa ser a parte que Kronk nunca ouvir diferente.

Kronk não ter resposta. Hessa e Voragh também não ter.

— Nós voltar — Hessa falar, por fim. — Eles recuar. Ser o que acontecer.

— Ser o que acontecer — Voragh repetir.

Hessa não responder. Jogar um graveto no fogo. O fogo comer o graveto depressa.

Voragh levantar. Ir embora sem mais nada.

Kronk ficar deitado, c'o Korr no ombro, olhando o fogo baixar.

Kronk não entender tudo que ouvir. Mas guardar, do jeito que Kronk guardar pedra que poder servir depois. Mas guardar.

O Korr murmurar alguma coisa no sono. Kronk apertar ele um pouco mais.

— Árvore — o Korr falar, meio dormindo. Ser o nome que ele dar pra Kronk. — Árvore ser grande?

— Kronk ser grande.

— Mais grande que o escuro?

Kronk pensar. O escuro ser muito grande. Mas o Korr esperar, c'os olho quase fechado, e Kronk saber qual resposta o Korr querer.

— Mais grande — Kronk falar.

— Então Korr dormir.

— Então Korr dormir. Kronk segurar o escuro.

O Korr dormir contra o peito de Kronk. E Kronk acreditar. Kronk acreditar mesmo que poder segurar o escuro c'os dois braço grande demais.

CapítuloIX
Aélith, a vontade da Forma
✦ ✦ ✦

A fissura no rosto da estátua segue um ângulo de dezessete graus em relação ao plano da testa. Não é acidente: é a veia mais frágil do mármore, a linha de menor resistência que já estava ali no dia em que a pedra foi cortada da montanha, esperando apenas o tempo necessário para se tornar inevitável. Venho confirmar o que a geometria me prometeu — quatro graus por século, na curva exata que lhe escrevi sem o saber. Meço-a com o que me serve de dedos, da sobrancelha ao queixo, devagar, do modo como se confere uma conta de que já se tem a certeza.

A conta não fecha.

Meço outra vez. O hábito ensina que o erro está sempre primeiro em quem mede, nunca no que é medido, e por isso refaço a medida três vezes antes de a deixar existir. Três vezes ela me devolve o mesmo número, e o número não é o meu. A fenda cresceu mais do que os quatro graus que lhe desenhei — uma fração a mais, pequena, da ordem do que um olho descuidado perdoaria. Eu não perdoo frações. Uma fração a mais é o mundo inteiro a mais: significa que algo, além da regra que escrevi, esteve aqui a trabalhar nesta pedra, numa direção que eu não pus.

O pátio tem quarenta e dois metros de comprimento por vinte e oito de largura — uma proporção que escolhi, e que o tempo ainda não desfez. As ervas crescem pelas juntas do pavimento em intervalos irregulares, sem respeitar a grelha que lhes pus por baixo. A luz desta hora raspa horizontal sobre a pedra e faz sombras nos sulcos que deveriam ser retos e já não são. Nenhuma destas coisas é nova. Meço-as porque medir é o que faço enquanto não decido.

Recuo um passo e olho a estátua como se a visse pela primeira vez. O mármore que um povo morto talhou à minha imagem deteriora-se segundo uma regra, e uma regra não mente, porque não quer nada; foi por isso que sempre vim a este rosto quando precisei de pensar com exatidão. Era o lugar do mundo em que eu tinha a certeza de que nada se mexia sem a minha conta. E mexeu-se.

O Tacet veio comigo. Está três passos atrás, onde os servos ficam, a face de bronze voltada para a estátua e para mim com a mesma paciência sem fome com que esperaria mil anos por uma palavra. Construíram-no os Lúmae, e quando os Lúmae deixaram de existir ele continuou a servir, porque é da natureza dele continuar. Move a cabeça um grau na minha direção — é o que faz quando uma medida minha tem a forma de uma ordem sem ser uma. Espera que eu lhe diga o número, para o gravar. E eu não lho digo, porque um número que não fecha não se grava: corrige-se, ou apaga-se.

São essas as opções, e percorro-as como percorro qualquer estrutura, pela ordem do menor custo. A primeira é medir de novo, mais fino, até encontrar onde a minha conta falhou — e já a meço de novo enquanto penso nela, e de novo o número não é o meu, e compreendo que esta porta não dá para parte nenhuma: o erro não está na medida. A segunda é desfazer a estátua. Reduzi-la ao pó, como reduzi as outras duzentas e doze que faltam neste pátio, e com ela apagar a anomalia — uma forma que se comporta fora da minha regra deixa de ser uma forma que me sirva, e o que não me serve, eu retiro. Bastaria querer. A terceira é a que não tem nome no meu catálogo: deixá-la de pé, crescendo a uma taxa que não desenhei, e viver com uma medida solta dentro do único lugar onde eu vinha medir em paz.

Fico mais tempo diante da escolha do que a escolha justifica. A deusa que ama o que já sabe deveria desfazer aquilo num instante; uma assimetria que não se cataloga é exatamente a espécie de coisa que existo para corrigir. Estendo a vontade para a pedra, pronta a reduzi-la. E não a reduzo. Porque desfazê-la seria apagar a única prova que tenho de que alguma coisa, neste mundo que julgo ter desenhado inteiro, se move por uma regra que não é minha — e apagar a prova não apaga a regra. Ficaria sem a anomalia e com o que a fez, que continua lá fora, a crescer noutra pedra qualquer que eu não vigio. Deixo a estátua de pé. Não por clemência: por cálculo.

O Tacet aguarda o número que não vem. Recolhe a cabeça ao grau de onde a tirou, sem nada que se pareça com pergunta.

Há, na base da estátua, um fragmento de mão caído entre as ervas. Os dedos estão inteiros: cinco, no ângulo certo, a proporção que distinguia os Lúmae de tudo o que existira antes deles. Abaixo-me. O Tacet abaixa-se também, e do compartimento que lhe serve de peito retira a caixa de catalogação. É o que se faz a um fragmento de valor demonstrável: mede-se, numera-se, guarda-se. Estende-a. Espera.

É a mesma escolha de há pouco, reduzida ao que cabe na palma. Pôr o caco na caixa seria fechá-lo na paz do que está medido e não muda mais. Deixá-lo na erva seria entregá-lo ao tempo, que é a única vontade com que não combinei nada e que ganha de todos nós, devagar, à mesma taxa teimosa com que acabou de mexer no rosto que tenho diante de mim. Fecho a mão sobre o fragmento. Não o ponho na caixa. O Tacet espera o tempo de uma medição inteira e depois recolhe a caixa vazia.

Quatro estátuas de pé, de duzentas e dezasseis. A pedra e o tempo levaram as outras — ou eu as levei, no dia em que decidi que aquela forma já não me servia. A estátua é de um Lúmae, a coisa mais bela que esta intenção sem matéria já deu ao mundo, e dei ordem de a desfazer junto com o povo que ela retratava, a obra e o modelo apagados pela mesma vontade, no mesmo gesto. Não há proveito em fingir outra coisa diante de uma face que ainda me devolve a proporção que lhe dei: os Lúmae chegaram perto demais do que nenhuma criatura deve medir, que são as costuras do que somos. Chamei os outros três não por fraqueza, mas porque uma culpa repartida entre quatro pesa menos em cada nome. Só no nome. A verdade que encaro diante desta pedra continua inteira, indivisa, minha.

Quatro de pé. E noto, porque sou obrigada a notar tudo, que quatro é também o número de uma outra contagem que mantenho — uma que não talhei em pedra, que ainda respira, espalhada pelo mundo, fingindo-se de coisas pequenas. Quatro que escaparam. Reduzi um povo a quatro fugitivos e julguei a equação quase fechada, à espera apenas de os apagar um a um. Mas uma equação não está fechada enquanto resta uma variável livre, e hoje a pedra ensinou-me que talvez eu tenha contado mal a casa errada: não são só os quatro que andam soltos. É a regra por que andam. Apaguei o povo e não apaguei o que neles eu não soube medir, e é essa coisa não-medida que acabou de crescer um milímetro a mais no rosto que mandei partir.

Levanto-me. O fragmento na mão fechada, frio como a face de onde caiu. A forma perfeita pressupõe que tudo já é sabido; e eu venho a este pátio confirmar que tudo o é, e saio dele a carregar, na palma, exatamente a prova de que não é. Não dou ao Tacet a ordem de gravar coisa alguma. Há medidas que não se confiam nem ao bronze que nunca esquece, porque gravá-las seria declará-las fechadas, e esta não está. Hei de fechá-la. Não hoje. Adiar é o único luxo de quem mede em eras.

O Tacet segue-me três passos atrás, a esperar a ordem que eu não dei e que ele esperará, sem pressa, até que eu a saiba.

Tacet
CapítuloX
Aerin, um dos últimos
✦ ✦ ✦

Moí o trigo dos outros há trinta e um anos, e em trinta e um anos aprendi que a farinha é a coisa mais honesta do mundo: não finge ser pão, não sonha ser bolo, apenas espera, branca e paciente, que mãos mais novas que as minhas decidam o que fazer dela. Invejo a farinha. É a única coisa nesta aldeia que envelhece no ritmo certo.

Um moinho é um bom lugar para um homem desaparecer. Ninguém olha duas vezes para quem range ossos sobre uma mó; o moleiro é mobília, é paisagem, é o velho do fim da estrada de quem as crianças têm um medo morno e os adultos, nenhum. As mãos brancas escondem que nunca calejam como deviam. As costas curvadas escondem que não se curvam de cansaço, mas de hábito — de um século a fingir o peso dos anos que este corpo se recusa a carregar.

Naquela manhã veio a primeira freguesa, antes mesmo de a pedra esquentar. A mulher do tecelão, com o saco de sempre.

— Tá frio o teu moinho, moleiro. Mais frio que o de fora.

— A pedra guarda a noite — disse eu. É a resposta que dou há trinta anos, e que nunca falha porque ninguém escuta.

— Sentiste o chão, há três dias? — Ela pousou o saco. — O meu marido diz que foi trovão na terra. Eu digo que trovão é no céu.

— Senti.

— E então? És velho, viste muito. Foi o quê?

— Foi alguma coisa grande, a norte, a virar-se no sono.

Ela riu, porque tomou por graça de velho. Não era graça.

A terra sacudiu mesmo, há três dias, e não como sacode quando uma árvore cai. Os pássaros tinham fugido na noite anterior. A água do poço ficou turva sem razão. E o que me veio, ao sentir o tremor, não foi pensamento: foi a voz de trinta e um anos atrás, encostado ao arame de uma armadilha, a dizer à Mãe do Inverno que um dia eles olhariam para cima, e quando o céu não se ajoelhasse, olhariam para ela. Ela não negara. O chão, há três dias, dissera-me que tinham olhado — só que não para ela. Para outro, mais perto, mais a sul, mais conveniente. Faz sentido. Redom é assim: dobra o que está à mão antes de dobrar o que está longe.

Há uma pedra na entrada do moinho, lisa de um modo que não tem a ver com o canteiro que a cortou. Polida assim por pés — décadas de pés, cada par com a sua pressão, que eu leio como se lê uma história. O passo pesado do ferreiro, o passo miúdo das crianças que chegam correndo e travam antes de entrar, o passo incerto dos velhos que já não confiam nos próprios calcanhares. Trinta e um anos de aldeia gravados numa pedra que ninguém olha.

O meu povo tinha um rito para isto. Quando partíamos de um lugar para não voltar, o mais velho ficava para trás e caminhava por cada divisão, por cada ângulo de luz a determinada hora, e lia tudo o que aquele espaço tinha guardado. Depois saía. A ideia era que o lugar não morria de todo enquanto alguém o carregasse. Fiz esse rito pela aldeia da Eriel, a nossa, numa manhã inteira, antes dos soldados chegarem. Guardo tudo: o cheiro da sopa de raízes que só ela sabia; a luz da tarde no quarto das crianças; a pedra da entrada, polida do mesmo jeito que esta, só que por pés que eu conhecia pelo nome.

O rito foi concebido para continuar em cadeia. Não foi concebido para ser o fim da linha.

Os homens enforcaram um inocente neste inverno. Chamava-se Tobias, almocreve, forasteiro — e numa aldeia pequena ser forasteiro é metade de uma condenação; basta um morto para completar a outra metade. Uma criança apareceu boiando no riacho, e uma aldeia que não entende a própria morte não procura a verdade: procura uma porta de fora onde pendurar o medo. Tobias foi a porta.

Eu conhecia o Tobias. Pouco, mas conhecia. Parava no moinho com a carroça, e era dos poucos que falava comigo como se eu fosse gente, não mobília. Ficava encostado ao portal enquanto eu moía, sem precisar de nada, só da companhia de alguém que respondesse. Voltou três, quatro vezes. Mais do que precisava para recolher a farinha.

— Tu falas pouco, moleiro — disse-me ele numa tarde, encostado ao portal. — Mas reparas em tudo. Vi-te olhar para o eixo da minha carroça.

— Está a abrir do lado esquerdo. Uma semana, talvez duas.

— Vês? — E depois, mais sério, do jeito de quem está sozinho na estrada há tempo demais: — É bom ter com quem falar. Nesta aldeia ninguém fala com forasteiro. Olham de lado, como se a gente cheirasse a outra coisa.

— Olham de lado para mim há trinta anos, e eu nem forasteiro sou.

— Então somos dois. — Estendeu-me a mão. — Tobias.

Apertei-a. Não toco em ninguém há mais tempo do que ele tinha de vida, mas apertei-a. Dei-lhe o meu nome — não o de moleiro que uso na aldeia, o meu, o verdadeiro, que é meu e nunca larguei. Talvez porque ele ia partir na manhã seguinte. Talvez porque, naquelas quatro tardes encostado ao meu portal, tinha sido a pessoa mais parecida com companhia que eu tivera em décadas. Quando o enforcaram, três meses depois, fui o único na aldeia que sabia que o nome dele era verdadeiro e a culpa, falsa.

Porque eu sabia que não fora ele. Sei com a certeza tranquila que só a minha espécie tem, porque nós lemos o que os corpos confessam sem boca: vi Tobias na praça e li nele apenas o pavor limpo de quem é acusado do que não fez. E o verdadeiro — esse também o vi, três passos adiante na multidão, gritando por justiça mais alto que todos, pedindo a corda para o forasteiro com uma paixão que convenceu a aldeia inteira. O corpo dele, por baixo do grito, estava quieto de um modo que corpo nenhum fica quieto assim. Quis lê-lo como leio todos — a tensão nos ombros, o peso do passo, o que as mãos trairiam se deixasse — e ele escorregou. A forma estava lá; o que devia estar dentro da forma, não estava. Ou estava escondido com um cuidado que não é humano.

Soube que não era aldeão, não era homem comum. Era outra coisa, antiga à sua maneira.

Eu podia tê-lo desmascarado. Tenho uma magia que tira a verdade pela boca — não pela dor, pela vontade dobrada, e quem a vê confessar pensa que confessa de livre vontade. Usá-la acenderia a luz sob a minha pele, e luz acesa de dia, numa praça, diante de cem pessoas, é uma marca no chão para quem me rastreia há um século. Engoli a verdade.

Fui ao enforcamento. Obrigar-me a ver é a única penitência ao alcance de um covarde. Tobias procurou, do alto da forca, um único rosto que acreditasse nele. Encontrou o meu. Sustentei-lhe o olhar até ao fim.

O assassino partiu na manhã seguinte, numa carroça qualquer. Passou pela estrada do moinho. Cruzámos os olhos por um segundo — dois predadores velhos a reconhecerem-se no escuro — e ele sorriu e seguiu. Deixou-me com a sensação de ter olhado para algo que escorregava antes de fixar: havia uma presença ali dentro, mas a forma dela recusava-se a ser lida, como se o próprio espaço onde devia haver um rosto se fechasse ao toque.

Na manhã em que saí, a mulher do ferreiro veio buscar farinha.

Pousou o saco no balcão. Disse o preço que ela queria pagar, que não era o preço certo.

— Está bem — disse eu.

Contei-lhe o troco. Ela pegou e virou para a porta.

— Bom dia, moleiro.

— Bom dia.

Não perguntou como eu estava. Não reparou na mochila encostada à parede. Trinta e um anos de moinho, e eu moera o casamento dela, os filhos dela, os netos dela — e naquela manhã era o velho do balcão que devolve o troco certo. Era o que eu tinha construído. Era o que eu queria.

Só naquela manhã, pela primeira vez, custou-me alguma coisa saber que tinha resultado.

Sob a pele, na testa, no pescoço, nas costas das mãos, a luz correu por um instante — linhas finas como nervuras de folha, mais vivas do que eu deixava há anos. Apaguei-as, uma a uma, do jeito que aprendi: pensar devagar, raso, morno, nunca deixar uma ideia brilhar forte demais. Depois peguei a mochila e saí pela estrada do norte, na direção de onde a terra tinha sacudido.

CapítuloXI
Thrym, a vontade da Fome
✦ ✦ ✦

Não vou olhar para o corpo. Decidi isso agora. Não preciso. Está lá, na pedra, a carne cinzenta com as costelas para fora e a boca aberta do modo que só eu abro a boca, porque esse modo é meu e não muda nem quando quem está no chão sou eu. Não preciso olhar. Ainda. Não ainda.

Olhei.

Era o meu. Não como o meu: o meu. Um deus desce ao mundo num corpo de cada vez, e aquele era o que eu vestia para andar entre os Grakh e empurrá-los contra a montanha. Sou Thrym. A Fome. Um dos quatro que fizeram o mundo, e o único burro o bastante para gostar dele. O tamanho, os dentes, a boca. O lagarto partiu tudo de cima, cego de raiva, e o meu corpo foi junto com as pedras e os homens, indiferente, como se eu fosse só mais peso a esmagar no caminho. E é isso que me parte: que não foi pessoal. O lagarto nem soube que eu era eu. Esmigalhou-me como quem esmigalha uma pedra debaixo do pé. Devia importar menos. Não importa menos. Volto ao trabalho.

O trabalho é este, e eu odeio-o com tudo o que sou: juntar. A substância de um deus, quando o corpo se quebra, não desaparece — espalha-se, fina, no escuro entre as coisas, e tem de ser puxada de volta fio a fio e adensada até voltar a ter peso. Eu puxo. Condenso. Faço crescer, do nada, a base de uma mão. Os dedos vêm primeiro, depois a palma, e é lento, lento de um jeito que não tem palavra na minha língua porque a minha língua nunca precisou da palavra. Eu sou o ímpeto que parte antes de pensar. E estou aqui, no escuro, a fazer trabalho de costureira numa agulha que não existe.

Vejo de cima. É a única coisa que ainda posso fazer, e é o pior castigo para quem nunca soube olhar de longe. A mulher de aço desce do norte com os melhores cães de Korath atrás. Aço, couro, bandeiras brancas, e aquele passo único que me enjoa, pé direito pé esquerdo pé direito, uma coisa só a andar. Sei para onde vão antes de eles saberem. Vão para o deserto. Para as fogueiras dos meus.

Os meus Grakh, vivos ainda, neste instante, montando as tendas, partilhando o caldo de osso, sem saber que têm prazo. Um grande jovem, demasiado grande para os invernos que tem, sentado com uma cria adormecida no colo, os olhos abertos para o escuro. Ele não sabe. E aqui está a conta que não quero fazer, e que faço, porque a matemática não muda por eu não a querer: cada um daqueles que vai cair não é só um dos meus a morrer. É um pedaço de mim a morrer com ele. Sou feito da fome deles. Quantos mais me marcam, vivos, mais depressa eu volto a ter peso; quantos menos, mais devagar. A serra de aço que desce para o sul não vai só matar o meu povo. Vai comer o material de que eu preciso para voltar. Cada Grakh que tombar adia o meu corpo num dia, numa semana, num ano. Eles vão massacrar os meus e, sem saber, vão prender-me mais tempo no escuro. Devia rir. Rio de tudo. Não rio disto.

De Véspera não sei nada. Não a vejo, não a sinto, não tenho como. Sumiu no ruído desta guerra do jeito que só ela some. Que suma. Tenho menos uma coisa para puxar do escuro, e o escuro já me chega.

Houve passos, a certa altura. Não os mil passos da coisa de aço. Um só. Perto. Arrastado, cansado, de pés grandes na pedra solta. Um batedor, Grakh, dos meus, jovem, perdido da horda e mais perdido do que sabe. Veio na direção do nada onde eu estava, farejando o ar, porque alguma coisa nele sentiu que ali, naquele escuro, havia o cheiro de uma coisa grande.

E havia. Mas o cheiro era só de mim, e eu não tinha boca para o chamar, nem mão para o segurar, nem peso para o empurrar na direção do sul antes que fosse tarde. Quis. Por todos os séculos que existo, quis. Mover um dedo. Soprar uma palavra no ouvido dele: corre, acorda os teus, vem aço pelo norte. E não havia dedo. Não havia palavra. Havia uma vontade do tamanho do mundo a empurrar contra uma porta que não abre por dentro, porque do lado de cá não há mãos.

O batedor parou. Farejou o vazio mais um instante. Não encontrou nada — só um deus sem corpo. Deu meia-volta e seguiu, na direção errada, para longe do sul, para longe do aviso que eu não pude dar. Vi-o ir. Vi-o ficar pequeno. Vi a noite engoli-lo. E não fiz nada, porque nada era tudo o que eu tinha para fazer.

Voltei a puxar os cacos. Um a um. Há uma coisa que os outros três não sabem sobre mim, ou sabem e fingem que não: que eu não tenho distância. Não tenho o frio da Geômetra, nem a paciência do Véu, nem a certeza de ferro do Têmpera. Tenho a fome. E a fome não raciocina — quer, agora, e quando não pode ter o que quer, o que sente não é filosofia. É um buraco onde devia estar a carne.

Não vou chegar a tempo. Já sei. A cria ainda dorme num colo quente, a sul, e o colo vai esfriar antes de eu ter mãos para a tirar de lá. Continuo a juntar, mesmo assim. Puxo um caco. Depois outro. Não porque adiante — não adianta. Puxo porque a alternativa é o que fiz com o batedor: ver. Não outra vez. Se a única coisa que tenho é puxar fio no escuro, puxo até ter dedo, e o dedo vira mão, e a mão chega tarde para esta cria mas não para a próxima. É contra isto que junto: contra o lado de cá da porta, onde não há mãos. Cada caco que adenso é um não à porta fechada. Os mil pés de aço, lá em cima, não mudam de ritmo por nada que eu faça aqui embaixo. Eu sei. Puxo na mesma. Estou a fazer carne para deixar de só ver.

Campo após a batalha — Thrym
CapítuloXII
Bryne, a Lâmina de Redom
✦ ✦ ✦

Na terceira semana de marcha, contei os homens à noite. O velho Vohl ensinou-me isso antes de cada batalha. O número sempre me acalmou. Naquela noite, não.

Não por serem poucos. Eram três mil, os melhores. Gente que sangrou comigo na serra e não correu. Com três mil daqueles tomei cidades de guarnição dez vezes maior. O número estava certo. O silêncio em volta das fogueiras é que estava errado.

Um exército à beira de uma boa guerra faz barulho. Aposta. Briga. Canta mal. Conta vantagem. Conheço esse barulho como conheço o peso da minha espada. Naquele acampamento não havia barulho, e a falta dele dizia o que eu não queria saber: que os homens marchavam comigo, mas já não marchavam por mim. Marchavam por hábito, e por amor ao que eu fui para eles em vinte anos.

Na décima noite o Garran arranjou um barril de algo que chamou de vinho com generosidade considerável. Houve fogo no bivaque, pela primeira vez na semana. Sentei-me à distância certa para ouvir sem ser vista a ouvir.

—...no Passo de Mira — o Dunt dizia, o copo no ar — quando a Comandante mandou o Vael cobrir a passagem do norte com trinta homens contra duzentos, e qualquer um de nós sabe que trinta não é duzentos—

— Eram quarenta — eu disse, sem levantar os olhos do mapa.

Silêncio no raio de três metros. Depois o Dunt, mais baixo:

— Quarenta. Contra duzentos. E a Lâmina ficou no portão sul e disse "abrem caminho ou derrubam o portão", e nós derrubámos o portão.

— Arrombámos o portão — corrigi.

— É a mesma coisa.

— O portão custou três anos de trabalho e duzentos homens em material. Não é a mesma coisa.

Houve uma gargalhada a que não me juntei e que também não consegui não ouvir. O Garran veio com dois copos e pôs um ao lado da minha mão sem dizer nada. Bebi. Era vinho se você fizesse o esforço mínimo na definição.

— A Comandante vai contar a versão real algum dia? — perguntou ele, baixo, só para mim.

— A versão real é que tivemos sorte.

— Não foi só sorte.

— A versão real raramente é.

Fiquei mais meia hora. O Dunt começava a história de Boca do Vento quando me levantei e fui verificar os postos. Não por necessidade.

O Garran disse em voz alta o que os outros calavam. Devo-lhe isso, por mais que me custe registrá-lo. Veio à minha tenda sem a arrogância de sempre. Parou à entrada como soldado, não como rival.

— Os homens perguntam uma coisa — disse. — Entre eles, à noite. Perguntam se é Redom que vamos vingar. Ou outra coisa.

Calou-se. Não acrescentou nada. Não precisava.

Era uma pergunta justa, feita por um homem de coragem. Um comandante sem ninguém à volta que lhe diga não na cara está cego, e a cegueira mata exércitos mais depressa que o inimigo. O Vohl martelou-me essa lição quando eu ainda nem erguia a espada à altura do ombro. Devia ter agradecido ao Garran. Devia ter-me sentado com ele e respondido a cada pergunta, uma a uma.

Não fiz. Subiu-me o calor. Na nuca, atrás dos olhos, aquele calor que eu andava a chamar de força havia semanas.

— Eles viram os nossos serem rasgados — respondi. A voz saiu mais baixa e mais dura do que eu quis. — Viram os Grakh nas nossas linhas. Eu vi. Não preciso da licença do conselho para fazer justiça, Garran. Nem da tua. Volta ao teu posto.

Ele não voltou ao posto.

— Com respeito, Comandante. Servi quarenta anos. Servi ao seu pai. Servi à senhora. Vi justiça, vi execução, vi represália. Sei a diferença.

— Então sabes que isto é necessário.

— Sei que às vezes parece necessário.

O calor subiu mais.

— Garran.

— O Vohl morreu em batalha — disse ele, devagar, como quem mede cada palavra. — Os homens que caíram na serra morreram em batalha. O que a senhora está a levar lá para baixo não é batalha. A senhora sabe. Eu sei que sabe.

Havia verdade naquilo. Eu sentia-a como sinto o terreno ceder sob o pé antes que o olho veja. Uma parte de mim, a parte que o Vohl forjou, a parte que ainda tinha o nome dele dentro, essa parte sabia. Olhei para ela por um segundo. Depois o calor fechou-me os olhos para ela.

— Volta ao teu posto, Garran. Última vez que digo.

Ele ficou parado. Não foi o instante habitual de um soldado que recebe uma ordem de que não gosta. Foi mais. Ficou a olhar o chão à frente dos próprios pés, como quem decide alguma coisa, e ergueu os olhos para mim um segundo. Não disse mais nada. Virou-se e saiu.

Fiquei com o calor, e chamei-lhe convicção.

Os sonhos eu não contava a ninguém. Vinham toda noite, desde o portão branco, desde o juramento. Não eram pesadelos. Quem me dera. De pesadelo a gente acorda e agradece. Estes eram bons, e é isso que me gela ao lembrar: eu deitava-me com pressa de dormir, porque dormir era voltar a eles.

Via os Grakh arder. Via-me no meio, inteira, de pé, a espada a fazer o que a espada sabe. E sentia paz. Uma paz quente que a vigília nunca me deu. No sonho a perda do meu exército não doía, porque no sonho eu a pagava, golpe a golpe, e cada Grakh que tombava era um dos meus de volta. Acordava limpa. Certa. Afiada.

Numa dessas noites pensei, ainda dentro do sonho, a coisa que penso acordada: eles mataram os meus. E veio a resposta, na minha própria voz, só que mais quente do que a minha voz é: então mata os deles. Todos. Até a raiz. Pensei: tenho de acabar com isto. E a voz, no mesmo tom: não há acabar pela metade. Era tão parecida comigo que não parei para perguntar de quem era. Ninguém desconfia da própria voz.

Uma vez acordei com um cheiro que não estava na tenda. Não de sangue, não de fogo. Terra molhada e raiz velha, como o fundo de um brejo que secou há muito. Durou um segundo. Levei a mão à espada antes de a cabeça saber por quê. Depois passou, e eu não voltei a pensar nisso, porque não havia nada na tenda e um comandante não persegue cheiros no escuro.

Ao fim de quase um mês, o verde ficara muito para trás. Depois a água. Depois a sombra. Só restava pedra quente. E então, num amanhecer, avistámos a linha amarela do deserto a tremer no calor: a Boca Seca, o lar do povo que eu jurara apagar.

Os homens calaram-se ainda mais, se é que era possível. Olhei a vastidão e esperei a velha clareza de comando, a frieza do Vohl, o aço. Veio o calor. Sorri.

E uma parte de mim, cada vez menor, cada vez mais longe, viu-me sorrir e teve medo. Não dos Grakh. De mim. Calei essa parte como calara o Garran. E o calor, lá dentro, concordou.

CapítuloXIII
Véspera, a vontade do Véu
✦ ✦ ✦

A deusa que via o tabuleiro inteiro passa agora os dias a fitar uma parede de pedra a três palmos do nariz. Decorei cada veio dela. É o que tenho. Estou presa, e fui eu, a mais cuidadosa dos quatro, quem se deixou prender.

Uso a palavra que jurei nunca usar, agora que sou eu a peça encurralada nele: tabuleiro. Saboreio a ironia porque é a única coisa com sabor que me resta. Eu, que andei por Redom anos vestida de mercadora sem que um só dos seus generais farejasse o que eu era, fui derrubada por um homem de barba rala e tabardo sujo, que cheirava a couro e a sono. Um soldado de portão como há mil.

Foi assim, e revivo-o como quem lambe um dente partido. Ele veio na minha direção pelo corredor, e eu sorri-lhe, porque um sorriso abre mais portas do que uma chave e custa menos. Já tinha o veneno a postos sob a unha, o gesto que mata um homem como quem lhe ajeita a gola. Toquei-lhe o pescoço, ali onde a pele é fina e o sangue passa perto. Senti o veneno entrar.

E o homem não morreu.

Soube, no tempo de um batimento, que não era um homem. Nenhum mortal sobrevive ao que lhe pus na pele. Sob o tabardo havia outra coisa, vasta e quente e velha como uma forja, e quando os meus olhos finalmente viram através do disfarce, já era tarde para a graça que isso teria.

— Levou-me mil anos — disse o guarda, na voz que não era de guarda nenhum. A mão dele fechou-se no meu braço como pedra em torno de um galho. — Mas aprendi contigo, Véspera. O disfarce mais perfeito não é o mais belo. É o mais invisível. Quem havia de descer em pessoa, e vestir isto, só para te apanhar?

Korath. O tolo magnífico tinha descido à carne e escolhido o avatar mais sem-graça que se possa imaginar, só para me apanhar com as minhas próprias regras na garganta. Roubou-me a única lição que eu julgava só minha, e usou-a contra mim. Quase tive orgulho. Quase. A mão de pedra não afrouxou, e a graça toda escorreu por entre os dedos dele, junto com a minha liberdade.

A cela não foi feita para mim — esta é a humilhação dentro da humilhação. Redom odeia a magia com aquele asco honesto que só os cegos têm pelo escuro, e há muito cavou, nas entranhas da sua cidade branca, uma ala para os poucos conjuradores que a história lhe deu a guardar. As paredes são de uma pedra que não conheço e que detesto: surda, pesada, que bebe a magia como a areia bebe a água. A magia não é força. É foco. É a mente que se afia até quase sair do corpo e tocar o avesso do mundo. Encostada a esta pedra, a mente não se afia: escorrega, esfarela, dispersa-se antes de chegar à ponta. Eles descobriram, sem nunca entenderem o que descobriram, que a melhor corrente para um mago não é de ferro. É de distração.

E para o caso de a pedra não bastar, têm a outra chave: a dor. Vêm a horas que eu não consigo prever, e é esse o engenho, tirar-me até a previsão. Fazem ao meu corpo o que se faz para que uma mente nunca encontre o silêncio de que precisa para conjurar. Eu, que dei ao mundo o veneno e a paciência, sou mantida presa por veneno e impaciência. Há uma simetria nisto que até Aélith acharia bela. Não uso magia que acenda a minha presença, e sem isso nem um deus me localiza. Ninguém sabe onde estou.

Estou cega. Não dos olhos — esses servem, para o pouco que há para ver. Cega do resto. Um deus que desce a um avatar abdica da visão do alto e passa a ver só o que o corpo vê; é o preço da carne, e sempre o paguei de bom grado, porque sabia recolher o avatar quando me convinha e voltar a planar sobre a partida toda. Agora não recolho coisa nenhuma. Enquanto esta carne respirar nesta cela, o mundo inteiro, para mim, tem o tamanho destas quatro paredes. Não vejo os meus exércitos, nem os meus rivais, nem o que arde lá fora. Fui reduzida ao que sabe um rato num buraco: o som dos passos que se aproximam.

Há um modo de sair, e os meus carcereiros não o conhecem. Eu poderia deixar este avatar morrer. Seria uma porta: voltar a ser vontade pura, livre, ainda que cega por muito tempo, até forjar outro corpo. Eles mantêm-me viva com atenção excessiva, sem perceber que a morte seria escape, não derrota.

Não me deixo morrer. Não ainda. Vontade pura não toca, não tem fios, não tem ouvidos, e eu tenho dívidas por cobrar neste mundo que só se cobram com carne. Reconheço a situação melhor do que ninguém: já a construí para outros. Uma prisão é só uma prisão enquanto ninguém de fora tem motivo para a abrir. E eu passei tempo demais a tecer dívidas pelo mundo para crer que não reste, em algum lugar, um único fio meu ainda solto — alguém esperto o bastante para farejar que há, nas entranhas de Redom, um prisioneiro que vale mais do que toda a cidade acima dele.

Então faço a única coisa que a pedra me deixa fazer. Todas as noites, na hora curta entre uma visita e outra, junto o que me sobra de vontade numa ponta fina como agulha e lanço-a contra estas paredes surdas, à espera de que escorregue por uma fresta que a pedra não cobriu e chegue à fibra certa. Não suplico. Lanço uma isca. A melhor que já tive para oferecer: o que ninguém mais sabe, trancado, à espera, e à disposição de quem souber comprá-lo. Afio a agulha no escuro e atiro-a outra vez, e outra, contando os veios da pedra entre uma e outra, paciente como sempre fui, porque a paciência é a única lâmina que se esqueceram de me tirar.

CapítuloXIV
Sael, o Tecelão
✦ ✦ ✦

Uma aldeia enforca sempre o homem errado. E o homem certo, quase sempre, é o que grita mais alto a pedir justiça. Sei disto melhor do que ninguém, porque costumo ser o que grita.

Sou Ferrin hoje. Mascate de miudezas, daqueles que param numa aldeia pequena porque a carroça precisa de roda nova e ficam o tempo que a roda demora. Ferrin tem o riso fácil e a memória curta — ou é o que mostra. Ninguém guarda segredo de um homem que esquece o que lhe disseram ontem. Cheguei no rasto dos que fugiam de Redom, semanas depois da serra, quando já se sabia, de boca em boca, que o exército descera para matar o dragão e voltara em pedaços.

A taberna era a de sempre, em toda parte: uma sala, um balcão, um homem atrás dele que sabe da vida de todos e troca isso por moedas sem perceber que troca.

— Cerveja — disse Ferrin. — E o que se come, se é que se come.

— Come-se pouco. A colheita foi má.

— A colheita é sempre má no sítio onde eu chego.

O homem riu, porque é o tipo de coisa que um mascate diz. Tomei o caneco e não bebi — levei aos lábios, pousou, ficou cheio.

— Aldeia parada, esta. Morreu alguém?

— Ainda não — disse o taberneiro, e achou graça à própria graça. — Mas há uns que vêm de longe a cair por aqui. Soldado. Daqueles que fugiram da cidade.

— Da cidade que ganhou a guerra grande, é?

— Essa mesma. — Ele baixou a voz, do jeito de quem adora ter uma coisa para baixar a voz a dizer. — Dizem que de ganhar não teve nada. Mas isso não se repete, mascate. Aqui não.

Não se repetia ali, claro.

No fim do balcão havia um homem que não estava a falar. Quarentão, dedos grossos, as duas mãos abertas à frente do copo como se esquecesse que tinha mãos. Não olhava para os soldados que falavam mais alto. Olhava para o lado do copo onde não havia nada. Era o único mortal na sala sem opinião sobre cem mil homens, e um homem sem opinião sobre o que toda a gente tem opinião ou é tolo, ou viu mais do que diz. Pedi outra ronda para todos e fui sentar ao lado dele com o cuidado de ossos velhos que Ferrin carrega.

Tirei os dados do bolso e pus-os no balcão sem dizer nada. É o convite que os homens calados aceitam mais depressa que qualquer palavra — não pede nada em troca, só a noite.

— Não jogo — disse ele.

— Nem eu, contra mim mesmo. — Lancei. — Perdi. Vês? Sou péssimo. Ganhas o teu jantar e a consciência limpa.

Perdi as duas primeiras do modo habitual — com o descuido que irrita mais do que a derrota calculada. À terceira ele avançou a mão. Homem que não joga sempre acaba por jogar.

Fui lendo. Aposta a aposta, o homem ia aparecendo. Quarentão. Mãos duras mas não de lavrador — calos no lugar errado para lavrador. Militar, então. Olhos que dormem pouco e não pelo luto, pelo vigiar. A mentira de "vim ver um primo" ainda estava quente na boca, ensaiada a cavalo durante dias — uma mentira ensaiada sozinho nunca aguenta a primeira pergunta torta.

Deixei-o ganhar a quarta.

— Tens família aqui perto? — disse eu, entre uma jogada e outra, com o tom de quem preenche o silêncio.

Ele olhou para o copo.

— Três filhos.

Saiu depressa demais.

— Três — disse eu. — Todos aqui?

— Na aldeia, sim. — Uma pausa. — A mulher também.

— Sorte tua.

Ele não respondeu. Contou-os com os olhos, sem os olhar — dois à esquerda da sala, um que tinha ficado em casa. Contou-os três vezes em dez minutos. Fiz a conta antes de ele saber que eu a fazia.

Deixei a conversa assentar. Lancei os dados. Depois, casual, como quem muda de assunto sem mudar:

— E o que traz um homem com mulher e três filhos a uma taberna a esta hora, sem copo à frente?

Ele rodou os dados entre os dedos. Uma volta. Duas.

— O primo — disse.

— Claro. — Sorri-lhe sem maldade, que é como se entrega a maldade. — Eu tenho primos em toda parte. É espantoso como aparecem quando preciso de uma cama e somem quando preciso de dinheiro.

Ele não sorriu. Os ombros fecharam um grau.

Tentei outra direção — mais devagar, mais lateral. Falei de estradas, de rumores, de um general que conhecera numa estalagem a sul. Perguntei pela aldeia, pela guarnição, se os soldados que por cá passavam traziam notícias da cidade. A cada coisa ele deu o mínimo que a pergunta exigia e nem uma palavra mais. Não era cautela — era secura. Como terra que não retém água.

Tentei a serra. Diretamente, desta vez, com a cara de quem ouviu falar e quer confirmar.

— Dizem que foi mau — disse Ferrin. — Na montanha.

O homem pousou os dados no balcão.

— Não sei nada disso.

— Claro que não. — Recolhi os dados e levantei-me. Empurrei-lhe a última mão de presente. — Boa sorte com o primo.

Saí antes que ele respondesse, se é que ia responder.

Fiquei na rua um momento. O vento tinha virado e cheirava a lenha queimada e a cozinha fria. Tirei o cachimbo, acendi, fumei até a brasa pegar bem. A aldeia estava quieta do jeito que só fica quando não espera mais nada da noite.

Na rua, Ferrin ficou para trás, no balcão. O próximo ainda não tinha vindo.

Há uma cortesia que faço, porque me sai barata e porque gosto de a fazer: dou-lhes a hipótese de não ser preciso. Avisar é de graça. O que vem depois do aviso é que se paga.

Deixei um bilhete debaixo da porta, à noite, na letra de ninguém. Não assinei.

Esperou um dia. Dei-lhe o tempo de achar que tinha sido o vento.

Não veio.

Antes disso, a casa.

Aldeia de porta sem tranca — a ingenuidade dos que ainda acreditam que o perigo vem pela estrada e anuncia-se. A fechadura era decorativa, do tipo que existe para que o dono sinta que fechou. Abri-a com o instrumento certo em menos tempo do que levaria a bater. Entrei.

Vesti escuro, calço o que uso quando o trabalho é deste tipo — sola de feltro duplo, sem costura metálica, sem tacão. Numa casa de aldeia o perigo não é o chão, é o chão mais os anos de madeira mal-assente que range em lugares que ninguém mapeou. Parei na entrada e ouvi a casa respirar: o pai num quarto a norte, pesado, o sono culpado dos que bebem para não pensar; a mulher do lado, mais leve. Os filhos a leste, os três juntos, que é como as famílias sem espaço dormem.

Mapeei o chão à entrada, três passos lentos, um de cada vez, antes de confiar o peso do pé seguinte. Há uma arte em mover-se numa casa alheia que não tem nome porque quem a pratica não escreve manuais. É leitura — de madeira, de peso, de onde a casa cede e onde resiste. Cheguei ao quarto dos filhos sem que a casa dissesse uma palavra sobre mim.

A caçula era a de canto. Quatro anos, talvez cinco — a que dorme mais fundo porque ainda não aprendeu a vigiar o escuro. Seria o do meio, mas o do meio estava deitado de braço sobre a irmã, e braço solto de criança que acorda é o tipo de complicação que não preciso. A caçula estava livre.

Tirei do bolso o pano com a mistura — valeriana, papoila, uma resina do sul que os herboristas vendem para cólicas de bebé sem saber para o que mais serve. Pousei-o sobre o nariz e a boca dela com a leveza de quem cobre um frasco. Ela murmurou. Não acordou. Contei até trinta, que é o tempo que a mistura leva para aprofundar o que já era sono, e recolhi o pano.

Olhei em volta. A casa tinha aquele cheiro específico de família pobre que tenta — roupa lavada, madeira esfregada, uma vela de sebo gasta até ao fio. As paredes estavam descascadas mas limpas. Havia um desenho de criança pregado com um prego torto, por cima da cama. Três palhinhas no chão, do tipo que se usa para sortear quem dorme no lugar melhor.

Gente que sorteia a cama dos filhos com palhinhas. É comovente, num sentido estritamente clínico.

Peguei na caçula. Pesava menos do que esperava — e notei isso com a mesma atenção distraída com que se nota o peso de uma mala quando se tem outra coisa na cabeça. Saí pela porta que deixara aberta. A casa não disse nada.

O riacho recebia tudo o que lhe davam sem perguntar de onde vinha, que é o tipo de discrição que aprecio numa paisagem. A caçula não acordou durante o percurso, que confirmava a qualidade da mistura — há herboristas que vendem pó de farinha com pretensões, e é sempre bom verificar.

Quando acabou, fiquei na margem. Enxuguei as mãos na relva.

O Desertor Pai de Dois não sabia ainda que era o Desertor Pai de Dois.

No terceiro bilhete ele já sabia que não era o vento. Marcou a hora e veio.

Cheguei antes dele. O celeiro tinha uma fresta longa entre duas tábuas, do tipo que a madeira abre quando seca — larga o suficiente para a voz passar, estreita o suficiente para não passar mais nada. Fiquei do lado de dentro, no escuro, encostado à madeira. Quando ele entrou pelo outro lado ouvi-o procurar com os olhos o que não havia para ver.

— Há alguém? — disse ele.

— Há — disse eu, numa voz que não era de nenhum rosto que ele conhecesse.

Entrou com os punhos fechados. Ouvi-o pela respiração antes de o ouvir pelos passos — curta, alta, do tipo que antecede o murro ou o choro e ainda não decidiu qual.

— Foste tu — disse ele. Não era pergunta.

— Fui — disse a voz.

— Ela tinha quatro anos. — A voz partiu no meio. Recolheu-se. — Quatro anos, percebes?

Não respondi.

— Vou-te matar. — Disse-o com a convicção de quem acredita mesmo, por um segundo. — Não sei quem és, não sei a tua cara, mas vou-te encontrar e vou-te matar, juro que—

— Tens dois que ficaram em casa — disse a voz, pela fresta. — E a noite é longa. E eu sei onde fica a cama de cada um.

O silêncio que se seguiu tinha um peso específico — o de um homem a fazer uma aritmética que nenhum pai devia ter de fazer. Ouvi-o do outro lado. Ouvi-o chegar ao número.

— O que queres — disse ele. Já sem a raiva. Com algo pior do que a raiva.

— O que viste. O que sabes. Tudo.

E então ele falou. Não de seguido — aos arranques, com as mãos que eu não via mas ouvia nas tábuas, nos punhos que abriam e fechavam contra a madeira. Falou como falam os que se rompem — sem ordem, sem começo, atirando os fragmentos pela fresta e deixando-me montar o quadro.

— Fugi — disse ele, e a palavra saiu como sai uma faca de uma ferida, de uma vez. — Fugi e não volto atrás nisso, não me peças que me arrependa, porque tenho dois que ficaram e se eu morresse naquela montanha estúpida ficavam sem nada, percebes? Sem nada. A mulher não—

Parou. Recomeçou.

— O conselho não decide nada. Anda às voltas, convoca, adia, convoca outra vez. Os generais falam uns por cima dos outros e nenhum diz o que toda a gente sabe, que é que não há exército. Que os que ficaram não chegam para segurar as muralhas se alguém aparecer a bater sério. — A voz subiu, desceu, perdeu o fio. — E há quem fale em voltar lá. À montanha. Ao bicho. Como se desta vez fosse diferente. Como se o bicho fosse estar mais morto, ou nós mais vivos. Ouvi isso numa taberna, três dias antes de fugir, um general a falar sério, com mapas na mesa. Mapas. Para o mesmo sítio onde deixámos noventa mil. — Engoliu. — Foi aí que percebi que não havia volta que me fizesse sentido. Que iam mandar-nos outra vez, e outra, até não restar ninguém para mandar. E os homens somem de noite. Uns para o sul, atrás da Lâmina, que juntou os dela e marchou para o deserto sem ordem de ninguém. Outros, como eu — só somem. A cidade esvazia-se por dentro sem que ninguém lhe toque a muralha por fora, e o conselho continua a convocar reuniões.

Parou. A respiração estava mais devagar agora — o tipo de calma que vem depois de tudo sair, não a calma de quem está bem.

— É tudo — disse ele. — É tudo o que sei.

— Sei — disse a voz.

— Os meus dois — disse ele, e a voz quebrou mesmo, desta vez sem tentar recolher. — Juras que—

— Desertor Pai de Dois — disse eu, manso, pela fresta.

Silêncio.

— O quê?

— É como te chamo, para mim. — Deixei assentar. — Foste sensato. Vai para casa. Os que ficam estão a salvo.

Era verdade, do meu jeito de dizer verdades.

Havia um almocreve de passagem chamado Tobias. Dos que falam com toda a gente e por isso não têm ninguém — o tipo de homem que uma aldeia pequena já condenou a meio só por ser de fora. Larguei uma coisa dele perto do riacho. Deixei cair uma palavra no ouvido certo, na fila do poço, com a cara preocupada de quem não quer espalhar boato mas espalha.

No dia da forca eu estava à frente. Não ao fundo calado, que é o erro dos principiantes. A minha era a voz que pedia justiça mais alto que todas, a minha que chamava o forasteiro de cão e exigia a corda — sei chorar, é a perícia mais simples que tenho, e as lágrimas vieram porque sei deixá-las vir quando servem. Reger uma turba é simples: ela já quer cantar, só não sabe a letra. Dei-lhe a letra e desapareci dentro da própria voz dela. Por baixo do grito, o cinéreo ainda ardia na boca — o único gosto que não troco por nenhum rosto.

Tobias procurou, do alto da forca, um rosto que acreditasse nele. Encontrou, na beira da praça, um velho moleiro de mãos quietas que olhava a cena com uns olhos que não pediam nada e mesmo assim viam tudo. Não era olhar de aldeão. Era olhar de quem leu — leu o que havia dentro da carroça de Ferrin e sentiu que a forma escorregava antes de fixar.

Um velho que vê é uma chave que ainda não sei que porta abre.

Parti de manhã. Ao passar pela estrada do moinho, os olhos do velho estavam lá. Cruzaram-se com os meus por um segundo — dois que reconhecem o que o outro é, no tempo de um piscar, sem que nenhum dos dois confirme em voz alta. Sorri-lhe. Ele não sorriu. Guardei-o, porque nunca deixo uma chave para trás, e porque, honestamente, um velho que não sorri de volta é a coisa mais interessante que vi nesta aldeia.

O caminho seguia para norte. Virei para leste.

Redom.

CapítuloXV
Kronk, filho do deserto
✦ ✦ ✦

Primeiro vir o som. Kronk lembrar do som. Toda noite ele voltar. Não ser som de guerra. Guerra Kronk conhecer. Guerra ser grito, ser ferro batendo ferro, ser bicho com medo a correr torto. Aquilo não. Aquilo ser um som só, repetido, igual. PUM. PUM. PUM. Vir de longe, na terra dura, como um coração grande demais batendo embaixo do chão.

Kronk demorar pra entender que ser pé. Muito pé. Mil pé bater junto, parar junto, andar junto. Nenhum bicho andar assim. Bicho correr cada um pro seu lado, cada um pro seu medo. Aquilo andar como uma coisa só. E Kronk, que nunca ter medo de nada que respira, sentir o pelo do braço subir antes da cabeça de Kronk saber por quê.

A velha Urgha parar de mexer o caldo. Não falar nada. Só olhar pro lado do som. Depois ela falar baixo.

— Pega o pequeno. Pega o Korr e corre pras pedra alta.

E Kronk rir. Kronk sempre rir do medo dos outro. Kronk falar que não correr de barulho, que Kronk ir ver o que ser. A velha não brigar com Kronk. Só olhar Kronk. Kronk nunca saber o que os outro pensar, cara de gente pra Kronk ser só cara. Mas ela voltar pro caldo que ninguém ia comer.

Kronk subir a duna pra ver.

O chão da duna ser quente. O sol bater atrás da cabeça. Lá embaixo, o deserto ficar quieto demais, quieto que doer no ouvido. Kronk cheirar o ar. Só pedra quente. Nada de bicho. Nada.

Kronk ver. E não caber na cabeça de Kronk.

Não ser horda. Horda Kronk entender. Horda ser muita gente, e muita gente Kronk saber quebrar, ser só achar o meio e abrir. Aquilo não ser muita gente. Aquilo ser UMA COISA SÓ. Uma parede de homem, duma ponta a outra do mundo, tudo da mesma cor, todo escudo na mesma altura, toda lança no mesmo lugar. Parede que andar. Não ter ponta pra Kronk bater. Não ter chefe na frente pra Kronk desafiar. Não ter cara. Só a coisa, andar no PUM, PUM, e parar, e baixar mil lança junto c'um barulho só, e andar de novo.

Kronk olhar aquilo e não pensar em quanto Kronk ser forte, como sempre pensar. Vir outra coisa na cabeça de Kronk, fria: a força de Kronk valer o quê, contra uma coisa que não ter onde morder?

A Hessa achar Kronk no meio da confusão. Agarrar o braço de Kronk c'a mão de marreta, a mesma que xingar Kronk a vida toda na caçada.

— Pega o pequeno — ela falar. A voz dela não tremer. A voz da Hessa nunca tremer. — Pega o Korr e corre pras pedra alta.

— Nós correr junto.

— Não. — E ela olhar pra Kronk dum jeito que Kronk só entender muito depois. — Alguém segurar a parede pra outro alguém correr. Hoje o Voragh segurar. Hoje eu segurar. Corre, Kronk.

Kronk querer discutir. Kronk ser mais forte, Kronk dever segurar—

— CORRE. — A última coisa que a Hessa mandar Kronk fazer naquele campo. E Kronk, que nunca obedecer ninguém, obedecer ela, porque o Korr gritar atrás das pedra e a mão de Kronk decidir antes da cabeça.

Kronk correr. Kronk odiar Kronk por correr. Mas Kronk correr.

E o Voragh tentar. O Voragh, o mais velho de nós, o que passar dos quarenta inverno quando quase nenhum Grakh passar, a montanha de placa e crista e cicatriz que mal caber numa tenda. A fome velha. Ele juntar o pouco de guerreiro de verdade que nós ter. Sempre pouco. Nós morrer novo, nós viver espalhado. E jogar eles contra a parede de escudo no lugar onde uma parede às vez rachar: bem no meio de dois homem, onde um escudo encostar no outro.

Por um tempo Kronk achar que ia dar. Kronk ver o Voragh entrar naquilo. Entrar matando, devagar, pesado, do jeito que coisa grande matar. À volta dele, homem de Redom cair. Três. Cinco. E Kronk gritar o nome dele das pedra alta, gritar com alegria de fera, porque por um tempo a parede TREMER e Kronk pensar que o mais velho de nós ia rasgar a coisa sozinho.

Mas a parede não ligar pra quanto o Voragh ser forte. Onde ele abrir um buraco, o buraco fechar sozinho: outro homem entrar no lugar do que cair, e outro, e outro, sem pressa, sem medo. Eles não ligar de morrer. Kronk não entender isso. Kronk só ver. Eles não temer o Voragh. Não bater de frente, que de frente ele matar todos. Eles só FECHAR EM VOLTA. Muito homem, de todo lado, fechar. E esperar. E quando o Voragh levantar o braço pra partir mais um, vir muita lança ao mesmo tempo, de muito lado que ele não poder olhar duma vez. E entrar nele. Igual entrar em qualquer um. Porque a carne dele ser carne, velha e dura e enorme, mas carne, como a de Kronk, como a de todo mundo embaixo de todo sol.

O Voragh não cair de joelho. Isso Kronk guardar. Ele ficar de pé c'as haste sair do corpo, e procurar c'os olho o homem que matar ele, pra levar junto. E não ter homem. Não ter UM. Ter a parede, que já fechar por cima dele e seguir no mesmo PUM, PUM, pisar ele sem raiva, sem nem baixar o olho, do jeito que nós pisar o chão. O maior e mais velho de nós virar chão pra eles. E o som não mudar.

Aí vir a raiva. A raiva encher a barriga de Kronk como a fome encher, só que não ser fome. Ser os dente apertar até doer. Ser o cheiro do sangue dos Grakh no chão entrar pelo nariz de Kronk e não sair mais.

Kronk descer a duna correndo e entrar naquilo. Não saber quantos Kronk partir. Saber que partir muito, porque a força vir toda duma vez, a força que os velho temer, a força grande demais pra idade de Kronk, e por um tempo o mundo ser só carne afundar na mão de Kronk e gosto de sangue que não ser de Kronk. Eles morrer. Kronk fazer eles morrer. Mas não adiantar. Cada homem que Kronk derrubar, outro vir no lugar. Sempre outro. Sem fim. E pra cada homem que Kronk jogar no chão, a parede dar um passo. E o passo ser pra trás de Kronk. Pras tenda. Pra onde tar a velha Urgha. Pra onde tar o Korr.

E aí Kronk entender a última coisa. A pior. A que fazer Kronk parar de matar e sair correndo. Eles não vir lutar com Kronk. Kronk, o mais forte, o que partir dez deles, ser o que menos importar naquele campo pra eles. Eles passar por Kronk. Desviar de Kronk. Não pra fugir de Kronk, pra chegar mais rápido ATRÁS de Kronk, onde não ter guerreiro nenhum pra atrapalhar. A parede não vir matar quem lutar. A parede abrir caminho em volta de quem lutar, de manha, pra cercar o resto. Pra ninguém fugir. E o resto ser as mãe. O resto ser as cria. O resto ser o Korr.

Eles não vir pra vencer nós. Eles vir pra acabar com nós. Toda nós. Pra sempre.

Kronk largar o homem que ter na mão. Kronk virar pra correr pras pedra, pro Korr.

E no virar, vir a voz da Hessa. De longe, do meio do ferro e do pó, ainda gritar ordem pra quem sobrar perto dela. Viva. Ainda na linha, ainda brigar sozinha onde o Voragh não tar mais.

Kronk parar um passo só.

As pedra ficar pra um lado. A voz da Hessa ficar pro outro.

Kronk correr pro outro. Pra Hessa.

CapítuloXVI
Bryne, a Lâmina de Redom
✦ ✦ ✦

Dei a ordem antes de a luz chegar. Uma palavra.

A palavra era limpar.

Os meus capitães sabiam o que ela queria dizer. Baixaram os olhos, um instante só, e foram.

Havia um sargento chamado Dael. Comigo desde a primeira campanha dele. Fui eu quem lhe pôs a insígnia no ombro. Vi-o atravessar o campo até uma tenda derrubada e parar. Só parar. Cruzei os trinta passos até ele. Chão de cinza, fumo branco, o barulho estranho de um campo onde a batalha acabou mas os efeitos dela ainda não.

— Dael.

Não se voltou.

— Dael.

Virou-se. Tinha a cara de quem calcula o preço antes de o pagar. Olhei para ele e não disse mais nada. A ordem já estava dada. O silêncio entre nós durou quatro segundos, e nesses quatro segundos eu podia ter dito: volta. Está cancelado. Leva os teus homens. Não disse.

Ele entrou na tenda. Ouvi o que ouvi. Fiquei de pé no mesmo sítio e não me mexi, porque mexer os pés seria fingir que havia outro lugar onde eu pudesse estar. Trouxe três mil homens ao deserto para fazer aquilo. A menor coisa que eu podia fazer era ficar de pé e ouvir até ao fim.

Tirei a pedra do bornal e passei-a no gume. Não precisava: a espada estava afiada do dia anterior. Passei-a na mesma, devagar, de um lado e do outro, enquanto durava o que durava lá dentro, e parei quando parou. É um gesto que os homens veem como disciplina. Não examino o que é.

Não foi um campo entregue. Devo isto aos filhos do deserto, e digo-o porque é verdade e porque ninguém vai dizê-lo por eles.

Eram muitos. Mais do que os batedores tinham contado, porque um Grakh não se conta como se conta um homem: o que parece um acampamento de mil amanhece com o dobro, que cresceu na noite vindo das areias de fora. Atacaram antes do nosso ataque. Saíram do escuro contra a primeira linha enquanto ela ainda formava, e a primeira linha ainda formando é a linha que morre.

Subi ao ponto alto para ler o campo. É o que sei fazer, e é tudo o que se pode fazer quando o resto já começou: ver onde a coisa cede e mandar fechar antes que ceda mais. Vi a fúria deles encontrar a frieza dos meus, e vi o preço. Cada vez que rompiam, levavam quatro, cinco, seis comigo. Um Grakh em cima de um soldado de Redom não é combate; é um touro num cão. Vi o jovem Areth, que eu treinei, ser erguido pelo peito por um daqueles e partido contra o joelho do próprio, as costas a estalarem com um som que atravessou cem passos de batalha e chegou a mim no alto, e o corpo ficar dobrado ao contrário, os pés ainda a dar coices no ar como se não soubessem que já estava feito. Vi um deles arrancar o elmo de um dos meus com o elmo ainda preso à cabeça, e o que ficou na mão dele não era só metal; era couro de escalpo, e por baixo o branco do osso, e o homem continuou de pé três passos antes de perceber que já não tinha por onde pensar. O cheiro a meio da manhã já não era de fumo. Era de tripa aberta ao sol, e de ferro, e doce demais por baixo dos dois, como fruta a apodrecer depressa no calor. Dei ordens a manhã toda e nenhuma precisei de repetir; a palavra do dia anterior ainda corria pela linha sozinha, mais larga do que qualquer ordem que me lembre de ter dado, e os meus cumpriam-na sem me olhar para confirmar. Passei a pedra no gume outra vez, sem precisar. Parei quando parou lá dentro.

À frente deles estava ela. Reconheci-a pelo modo como os outros se moviam à volta: não como tropa em torno de um oficial, mas como bicho menor em torno do bicho maior. Naquele momento era só a que não recuava, e que entrava na nossa linha em vez de esperar que a linha entrasse nela. É outra forma de guerra. Não é a minha.

Mandei a reserva pela esquerda. Garran levou-a. Não para empurrar de frente, que de frente eles ganhavam, mas para os fechar contra o cotovelo de rocha onde a areia endurece e o número deles deixa de caber. A disciplina não vence a fúria por ser mais brava. Vence por chegar inteira ao décimo minuto, quando a fúria já gastou o fôlego que não poupou. Foi o que fizemos. Levou a manhã toda. Levou mais dos meus do que eu jamais hei de querer dizer em voz alta, e disse na mesma, depois, no número seco do relatório, porque um número que se esconde volta maior.

— Quantos? — perguntei a Garran, quando o grosso já tinha caído.

— Não acabei de contar. — Ele tinha sangue de outro homem da têmpora ao queixo. — Passa de mil e oitocentos. Vai chegar aos dois mil antes do meio-dia.

Dois mil. De três. Olhei o campo e fiz a conta que um comandante faz e que nenhuma vitória paga: tinha trazido três mil dos melhores e ia voltar com pouco mais de mil, e os Grakh que restavam de pé cabiam agora numa só olhada. Vencemos. A palavra sabia a cinza na boca.

Foi do ponto alto, antes de descer, que vi os dois focos que sobravam. Um era ela, ainda na linha, a voz a atravessar o campo sem tremer, a fechar os poucos que lhe restavam em torno de si como quem fecha o punho. O outro vinha pela direita, por cima dos corpos da ala que mandei contorná-lo, alto como uma porta de cidadela, e vinha na minha direção.

O grande veio pela direita, e por onde ele vinha a minha linha deixava de ser linha.

Eu já o tinha visto de longe na manhã, novo na cara e velho nas cicatrizes, partindo os meus como quem abre mato. Tinha mandado contorná-lo, porque não se gasta uma ala a domar uma fera quando ela não é o alvo. Mas a ala que mandei contorná-lo estava agora morta na areia, e atrás de mim só havia o ponto alto e a queda.

Desci a ele.

Parou a dez passos. Largou da garganta um som que não era palavra de língua nenhuma. Atacou.

O primeiro golpe levou o meu escudo e o braço todo até ao ombro; o braço adormeceu, e eu soube, pelo modo como adormeceu, que não ia poder contar com ele tão cedo.

Ele riu, como os Grakh costumam rir quando estão a ganhar. Não era o caso. Custou-me o segundo golpe antes de eu entender isso.

Joguei-me de lado e o punho dele passou onde a minha cabeça estava e abriu a areia num buraco que teria sido a minha cara. Não trago elmo. Nunca trago. O velho Vohl dizia que um soldado tem direito de ver os olhos de quem o manda morrer, e eu carrego a mania dele como quem carrega um nome, e naquele instante a mania quase me matou.

Larguei o escudo amassado, que já não era escudo. Dei-lhe o terreno. Recuei para a cinza fofa onde os meus pés afundavam menos que os dele, porque eu peso o que pesa uma mulher e ele pesa o que pesa um touro, e a areia mole não distingue mérito, só carga. Deixei-o vir com tudo e não estava onde ele bateu. Ao passar, abri-lhe a coxa: a lâmina entrou e saiu antes de ele sentir, e o sangue veio espesso, escuro, a escorrer pela perna até à areia, que o bebeu sem marca. Ao passar de novo, as costelas, e ouvi o som que fazem quando a ponta encontra o osso e desliza por cima em vez de partir: um som de raspar, não de cortar. Não para o derrubar, que não se derruba aquilo de um golpe, mas para o sangrar. Um corpo grande sangra mais, não menos. Eu tinha mais paciência do que ele tinha sangue.

Ele riu de novo, mais alto, e veio outra vez. Perdia, e ainda assim ria.

Ele acertou-me uma vez. De raspão, no ombro já morto, e mesmo de raspão atirou-me ao chão. Rolei. A bota dele desceu onde eu estava e a areia saltou. Rolei outra vez, pus-me de pé, e meti-lhe a ponta no flanco aberto antes que ele girasse. Devia tê-lo dobrado. Não dobrou. Rugiu, e o rugido era de raiva, não de dor, como se a dor fosse uma língua que ninguém lhe tinha ensinado.

Foi então que o riso dele parou.

Não por minha causa. A cabeça dele tinha virado, um instante, para onde a minha linha de escudos acabava de se fechar sobre o último foco de resistência, para onde ela ainda estava de pé havia um instante e agora não estava mais: engolida, lanças subindo e descendo no mesmo lugar mais vezes do que precisavam, o corpo dela já no chão e ainda a receber. Eu vi-o ver. Vi o instante exato em que o que estava na cara dele deixou de ser jogo.

Gritou um nome, HESSA, com uma força que atravessou toda a batalha e chegou a mim inteiro. Foi assim que soube como ela se chamava.

E mudou.

Até ali ele lutava a rir. Dali em diante deixou de rir. Os golpes encurtaram e aceleraram e perderam toda a conta consigo mesmo, já não protegia coisa nenhuma, nem o corpo, nem a vida, vinha todo para a frente como se eu fosse a única coisa que sobrava no mundo e ele tivesse de me apagar com as mãos. Veio por cima de mim e por três vezes não tive tempo de lhe dar o terreno. Tive de aparar de frente. Aparar de frente aquilo é pôr a espada no caminho de um aríete: o braço bom gritou, o aço cantou e quase partiu, e a terceira vez ajoelhou-me na areia com ele em cima.

A mão dele fechou-se no meu pescoço.

Senti os dedos, cada um do tamanho de um cabo de machado, fecharem-se e começarem a apertar, e senti o ar parar de passar, e senti também a própria garganta ceder por dentro, um estalo pequeno e fundo que não chegou a ser dor porque a dor já não tinha por onde entrar, e vi a luz da manhã estreitar-se nas beiradas como se o céu se fechasse junto com a minha garganta. Ele tinha-me. Por toda a técnica e todo o terreno e todo o ofício, naquele segundo ele tinha-me, e a única razão por que escrevo isto é que naquele segundo a mão dele tremeu, não de pena, que ele não tinha pena nenhuma, mas do sangue que eu lhe tinha tirado da coxa e do flanco e que escolheu aquele instante exato para lhe falhar a força. O aperto afrouxou um fio. Um fio bastou. Enfiei-lhe o polegar no corte do flanco, fundo até ao nó, e torci dentro da própria ferida, e a dor que ele não falava o corpo falou por ele: a mão abriu de repente, toda, como se tivesse esquecido como se fechava. Caí, engasgada, a respiração a voltar em golpes que arranhavam, e não parei de cair: segui o chão para baixo da guarda dele e meti o aço na coxa que sustentava o peso todo, até ao fundo, e senti a ponta raspar o osso por dentro antes de puxar para o lado, e a carne abriu mais do que um corte tem direito de abrir.

A perna falhou. Ele caiu. Caiu devagar, do jeito que caem as coisas grandes, sem acreditar que estavam a cair.

Pus-lhe o joelho no peito e a ponta da espada na garganta. É o que se faz. Ia fazê-lo. Pelo velho Vohl, ia.

Foi então que o pequeno gritou.

Saiu dos escombros de uma tenda, uma cria suja de não mais que cinco invernos, e atirou-se contra a minha perna com punhos do tamanho de nozes, gritando uma palavra. Não a entendi e entendi-a ao mesmo tempo. Era o nome dele. A criança não me pedia a própria vida. Tentava salvar a dele.

Fiquei parada. O joelho no peito do grande. A espada no ar. A mão sabe o que fazer; fê-lo a manhã toda, parou de precisar de instrução. E parou agora. Ficou no ar. Eu mandei-a descer. Não desceu.

O grande não me olhava a mim. Olhava a cria. E na cara dele, esvaziada de força, não havia rendição. O corpo dele virado para o pequeno. Os braços ainda a tentar mover-se nessa direção, devagar, com o que sobrava. Não olhava para mim. Olhava para ele.

A cria socou-me de novo. Gritou o próprio nome agora, como se chamar bastasse, como se houvesse no mundo alguém que viesse atender.

Tirei o joelho. A mão baixou.

Peguei na criança. Debateu-se. Mordeu-me até ao sangue. Chamou pelo grande até a voz rachar, e depois de rachar continuou a chamar com o que sobrou dela. Levei-a comigo na mesma. Os meus homens não disseram nada. Saímos do campo que eu mandei limpar, e eu levava nos braços a única coisa que escolhi não limpar, e atrás de mim ficava o grande no próprio sangue, e ficava o Dael, e ficavam dois mil dos meus que não voltariam, e ficava a manhã inteira.

No silêncio do campo ganho, fui procurar a certeza que tinha mandado o Dael entrar naquela tenda. O lugar onde ela devia estar estava vazio.

CapítuloXVII
Sael, o Tecelão
✦ ✦ ✦

Há cidades que escondem o que são, e há Redom, que exibe. A Capital Branca recebe um estranho com a confiança de quem nunca precisou mentir, porque acha que a verdade lhe pertence inteira. Entrei por uma das portas do sul atrás de uma carroça de sal, e ninguém me olhou duas vezes, e isso já me disse mais sobre Redom do que um mês de espionagem: um povo que se julga o único acordado nunca repara em quem entra.

Andei. É o que faço primeiro, em toda parte. Ando, e ouço, e deixo a cidade falar. Redom fala de si o tempo todo. Fala nas estátuas de generais em cada praça, na pedra branca esfregada todo dia para que nenhuma mancha lembre que há sujeira no mundo, no modo como os mercados se calam quando passa uma patrulha e voltam a falar exatamente no ponto onde pararam, como gente que não tem nada a esconder e tem o cuidado dos que têm. Ouvi um pai dizer ao filho que os outros povos andam de muletas e que só o homem caminha com as próprias pernas. Disse-o com orgulho. Não soube que estava a recitar a coisa mais útil que um inimigo podia querer ouvir: que Redom é cega para tudo o que não vê, e que do escuro que ela despreza se faz a melhor porta.

Foi atrás desse escuro que fui. Uma cidade que odeia a magia com este asco todo não a ignora: tranca-a. Em algum lugar, debaixo de toda esta brancura, Redom guarda as coisas que jura não existirem. Bastou seguir o cheiro do que não se diz. Os impostos falam: há uma ala da Cidadela que consome velas, pão e carcereiros e não aparece em registo nenhum de presos comuns. Chamam-na, quando muito, e baixinho, de Ala Funda.

Quem guarda o livro de uma prisão sabe mais do que o homem que guarda a chave. A chave abre uma porta. O livro abre todas, para quem souber ler quem o escreve.

A mulher chamava-se Henka. Guarda-livros da Cidadela havia vinte anos, das mãos manchadas de tinta e da paciência azeda de quem registra a vida dos outros e não tem a própria para registrar. Não a abordei como quem quer algo. Sentei-me perto, num pátio onde os funcionários comem, com o pão de um escriba qualquer e a queixa pronta de um escriba qualquer, e deixei-a chegar à conversa por tédio, que é o único caminho por onde gente cansada chega a um estranho.

— Vinte anos de livro — disse ela, quando já falávamos do peso do ofício. — Sei a entrada e a saída de cada alma que passou por aqueles portões. Sei mais de Redom do que o conselho, e ganho menos que um cavalariço.

— Toda alma? — Sorri, do jeito de quem não acredita. A descrença abre o orgulho mais depressa que a pergunta. — Há sempre uma que não entra no livro.

Ela parou de mastigar. Foi um instante curto, e foi tudo.

— Há uma cela que não escrevo — disse, mais baixo, e havia naquilo a vaidade de quem guarda um segredo grande demais para o cargo pequeno. — A do fundo. Não ponho nome, não ponho data, não ponho nada. Ordem de cima. Levam pão e levam outras coisas que eu não anoto, e os carcereiros que descem voltam calados. Vinte anos, e foi a única vez que me mandaram não escrever.

— Um homem perigoso.

— Um feiticeiro. — Ela disse a palavra como Redom a diz, com nojo, e logo se corrigiu, porque até dizê-la a envergonhava. — Ou o que quer que seja. Dizem que a cela é de uma pedra que mata a feitiçaria. Que basta o que está lá dentro encostar na parede para a maldade dele secar. Eu não acredito nessas coisas. Mas mandaram-na construir, e custou ao tesouro mais que uma muralha, e ninguém gasta o que aquilo custou numa coisa em que não acredita.

Não perguntei mais. Há um ponto em que cada pergunta a mais tira da pessoa a certeza de que ela é que está a falar, e a partir desse ponto ela cala. Mudei de assunto, queixei-me do preço do pão, e foi a queixar-me do pão que ela me deu, de borla, a coisa que eu devia ter guardado melhor do que o resto. Disse, com o azedume de quem reclama do ofício, que nem para descer um pão à Ala Funda a deixavam mandar um moço novo: tinha de ser dos quatro carcereiros de sempre, os mesmos havia anos, conhecidos um a um pela guarda da escada, que trocava a palavra-de-ordem a cada turno e barrava cara que não fosse das quatro caras de sempre — «como se um feiticeiro precisasse de descer a escada a pé», riu ela, e eu ri com ela, e por dentro não ri. Redom, que despreza a magia, não confia o fundo dela a defesa de magia nenhuma. Confia-o à desconfiança mais burra e mais teimosa que existe: a do homem que decora rostos e não acredita em mais nada. Guardei aquilo onde guardo o que ainda não sei usar, e deixei-a voltar ao tédio. Já tinha o que vim buscar, e mais do que vim buscar — e, embora ainda não soubesse, levava também a peça que me ia obrigar a sujar o plano.

A coisa cravou-se depois, à noite, do jeito que as coisas grandes se cravam: não quando as ouvimos, mas quando param de nos largar.

Uma pedra que bebe a feitiçaria. Eu já tinha ouvido falar de magia que se apaga, uma vez, meses atrás, longe dali. Foi um desertor da serra, num vilarejo de moleiro, um homem acabado a balbuciar o que vira na guerra contra o dragão: uma luz que cobriu o monstro inteiro no pior instante da batalha, um véu de fogo claro que engoliu as correntes e as lanças de Redom e devolveu a derrota a um exército que já tinha a vitória garantida. Ninguém saíra dali a saber quem o lançara. O desertor jurava que não fora milagre nem maldição do dragão. Fora vontade. Vontade de alguém escondido no próprio acampamento de Redom.

Magia que blinda um dragão. Magia que uma pedra precisa de beber para conter. Eu não ligo coisas por gosto; ligo-as porque é assim que vivo, e há ligações que se fazem sozinhas no escuro enquanto a gente finge dormir. O que está no fundo de Redom não é um feiticeiro de aldeia que mandou um boi cair. É algo grande o bastante para que Redom, que não acredita em magia, gaste mais que uma muralha numa jaula de pedra surda só para o segurar. E quem segura uma coisa dessas, ou ela própria, é da mesma estatura do que pôs um véu de luz sobre um dragão e quase virou uma guerra. Talvez não seja a mesma mão. Mas é da mesma altura, e mãos dessa altura, neste mundo, contam-se nos dedos.

Aqui é onde devia parar. Saber é o meu ofício, e o ofício diz: anota, guarda, vende ao comprador certo no dia certo. Um segredo desta monta vale uma cidade.

Não consigo querer vendê-lo.

É a primeira coisa em não sei quantos rostos que não quero trocar por nada. Cresci entre os meus a ouvir falar de uma Senhora que nenhum de nós jamais viu, adorada de geração em geração como quem herda a cor dos olhos sem a escolher, e achei que tinha deixado isso para trás junto com o último nome que foi de verdade meu. Não deixei. Estava só à espera. E agora há uma porta no fundo de uma cidade que se julga sóbria, e do outro lado dela há uma coisa que apaga a magia do mundo só por existir, e eu sinto por aquela porta um apetite que não sei explicar em palavras. Sei no corpo, do jeito que se sabe, no escuro, para que lado fica a água quando se acorda com sede.

Não digo a mim mesmo um nome para aquilo. Mas sei, com uma certeza que não me lembro de ter sentido por coisa nenhuma, que toda a minha vida de mil rostos foi um caminho até aquela porta, e que descer aqueles degraus é a única coisa que já quis para mim e não para o ofício.

Então paro de querer e começo a medir, que é a parte em que sou bom — ou era, até esta cidade. A Ala Funda não tem motim para a abrir, não há tumulto que a sirva, não há causa que mova uma cidade até ela. Está guardada pelo desinteresse, que para tudo o mais é a melhor das guardas. O meu primeiro plano fez-se sozinho, elegante, do jeito que os meus planos se fazem: uma cara nova de carcereiro, mansa, esquecível, descendo a escada com um cesto de pão a uma hora aprendida. Cheguei a costurá-la. Andei dois dias com ela quase pronta, e foi nesses dois dias, parado em frente à boca da escada a ver os turnos, que percebi o tamanho do erro — tarde, que é o pior tamanho em que se percebe um erro. Aquela escada não tinha medo de um rosto falso. Tinha medo de um rosto novo. A guarda não procura a máscara; procura a estranheza, e uma cara que ninguém viu antes é a única coisa que aquela rotina obtusa enxerga melhor do que eu. O meu ofício inteiro é não ser ninguém; e a única porta deste mundo que quero atravessar é guardada por homens que só deixam passar quem já é alguém que eles conhecem. Ri-me disso, sozinho, sem graça nenhuma. Levei uma vida a derrotar a suspeita esperta, e fui topar, à porta do que mais quis, com a suspeita estúpida, que não se deixa ler porque não pensa.

O plano limpo morreu, então, e no lugar dele fica o sujo. Não preciso de uma cara nova. Preciso de uma das quatro caras de sempre — uma das que a guarda da escada conhece, saúda e deixa passar sem trocar a palavra. Isso não se costura à mesa, com paciência; isso tira-se de um homem, e o homem tem de sair do caminho para a cara dele descer sem ele. É mais feio do que eu queria, e deixa atrás de si exatamente o tipo de ponta que eu não deixo, e faço-o na mesma, porque entre o feio e não descer aquela escada não há, para mim, escolha que se pareça com escolha. Aprendi uma coisa nesta cidade branca, e guardo-a com o cuidado das verdades que mais custam: leio mal quando quero demais. Não é boa altura para descobrir que tenho esse defeito, à porta do único lugar onde um erro de leitura se paga com o que sou. Mas a porta vai abrir. Vai abrir para mim, e não para a cidade, e a cidade nem vai saber que tinha, no próprio ventre, duas coisas trancadas: a que ela construiu a jaula para guardar, e a que eu vim buscar.

CapítuloXVIII
Aerin, um dos últimos
✦ ✦ ✦

Segui o rastro de um exército, e a terra foi-me dizendo, légua a légua, que eu chegava tarde.

Um exército não se esconde. É a coisa menos sutil que a vontade já inventou: deixa trilhos largos, fogueiras mortas, ossos de gado roído, e o medo agarrado a cada aldeia por onde passou, como o cheiro de fumo se agarra à lã.

— Vocês nunca aprendem a limpar o que deixam atrás — disse eu, à estrada, que era onde a coluna tinha estado.

A estrada não respondeu. Não esperava que respondesse.

Bebi pelo caminho. O que o cantil tem dentro muda conforme a terra; a função, não: calar, por umas léguas, o público que mora na minha cabeça e que já viu tudo o que eu vejo. Naquelas noites não cantei. A terra não deixava.

Porque a terra andava errada, e isso eu não bebo para esquecer, porque não vinha de dentro de mim. Houve um tremor fundo, primeiro, lento e antigo, grande demais para ser de terremoto comum, como uma coisa muito velha a virar-se no sono. Depois os pássaros, que partiram cedo e para o lado errado. Depois uma seca fora da estação, hóspede que erra a porta. Leio essas três coisas como se lê uma frase, e a frase diz: alguma coisa imensa foi ferida, e o mundo sangra por dentro sem saber o nome do golpe.

Não foi a dor de um homem que me tirou do moinho. Foi a casa inteira a inclinar-se. A inclinação apontava para o sul, e para o sul fui, com uma raiva fria a crescer-me a cada légua.

Achei primeiro os mortos de Redom, e achei-os porque os tinham escondido.

Covas. Fileiras delas, cavadas à pressa mas cavadas, a terra ainda escura e fofa, sem erva por cima, com pedras alinhadas na cabeceira de cada uma, do jeito que só um povo que se respeita alinha pedras pelos seus. Contei as fileiras enquanto passava e parei de contar, porque o número era do tipo que não se quer trazer na boca o resto do dia. Quem venceu ali pagou caro por vencer, e enterrou os seus com o cuidado de quem precisa acreditar que valeu, e seguiu para o norte deixando o chão remexido como cicatriz.

Sentei-me numa pedra e bebi. O cantil estava quase no fim. O sol batia de lado, longo, daquele jeito de fim de tarde que não aquece nada mas insiste em entrar nos olhos. Fiquei ali um momento, não sei quanto.

E achei depois os outros, e a esses ninguém enterrou.

O campo Grakh ficava mais adiante, numa bacia de areia entre dunas, aberto ao céu, entregue aos corvos, que já eram tantos que o ar tinha o barulho deles. Não era uma batalha o que eu via. Batalha tem dois lados que sangram e caem misturados. Aquilo tinha um lado só: os Grakh estavam caídos do jeito de quem foi caçado depois de a luta acabar, nas costas, em fuga, com crias entre os corpos grandes, mães cobrindo filhos com o próprio peso já frio.

Reconheci a marca. Homens que se acham sóbrios enterram a própria dor com pedra na cabeceira e chamam de lixo a dos outros, e dormem bem na mesma noite. É a mesma pressa que um dia pendurou um inocente numa praça e chamou aquilo de justiça feita, porque uma aldeia que não entende a própria morte prefere uma corda a uma pergunta.

Senti a luz subir-me sob a pele sem que eu a mandasse, na testa, no pescoço, no peito, do jeito que sobe quando o pensamento dói demais para ficar quieto. Apaguei-a. À força, depressa, antes que alguém a visse da janela do mundo.

Foi quando ouvi a respiração.

Estava entre dois rochedos, na borda do campo, e à primeira tomei-o por mais um morto, grande demais para ser outra coisa. Depois o peito subiu. Desceu. Subiu de novo.

Aproximei-me como quem se aproxima de um animal ferido, que era o que ele era: um homenzarrão jovem, ferido em cinco lugares, a carne aberta e a areia colada nela, e o braço fechado contra o próprio peito num arco que eu já tinha visto naquela manhã, numa mãe, sobre um filho que o peso dela não salvara. O braço dele fechava sobre o mesmo arco. Vazio.

E ele chamava. Baixo, rouco, a voz quase toda gasta, mas chamava, sem parar, uma palavra só, de novo e de novo, virando a cabeça de um lado para o outro na areia como quem procura sem força para se erguer e procurar. Não era delírio de moribundo. Delírio divaga. Aquilo tinha endereço.

O sensato era seguir. Foi o que cem anos me ensinaram: o que está morto, ou quase morto, não é da minha conta.

E então o som que ele fazia mudou. Partiu-se no meio, do jeito que uma voz se parte quando o que a empurra deixa de ser força e passa a ser outra coisa.

Não há regra de século nenhum que segure um joelho contra esse som. O meu dobrou antes de eu lhe dar licença.

Ajoelhei-me e abri a bolsa onde, entre a farinha e o pão duro, guardo o que um povo de curandeiros me deixou de herança.

A luz começou a subir antes de eu decidir nada, oferecida, do jeito que sempre se oferece: a dizer usa-me, é para isto que serves. Conheço a oferta. Conheço o preço. Tocar o tecido por trás do mundo acende um Lúmae como uma janela à noite numa planície escura, e há um século que alguém, lá em cima, tem tempo de sobra e nenhuma pressa para gastar numa peça de bronze a mais. Pensei nos três que afundei no gelo, há trinta anos, e em como ainda devem andar por aí, no fundo, cegos, à procura.

Não apaguei a luz.

Fechei os olhos sobre ele e deixei-a vir. Pus as mãos sobre a pior das feridas e empurrei o fio solto de volta ao tecido, e a carne fechou-se debaixo dos meus dedos não devagar, ao longo de dias, como manda a natureza, mas de uma vez, na ordem errada do mundo. O sangue parou. A coisa que se soltava dele prendeu-se outra vez.

Quando abri os olhos, a luz apagava-se sozinha sob a minha pele, exausta, e eu estava exausto com ela, vazio do jeito que se fica vazio quando se gasta de uma vez o que se devia poupar a vida toda. Sentei-me na areia ao lado dele, com as mãos a tremer. Aquilo cobra o preço, sempre, e eu não o pagava havia tanto tempo que esquecera o gosto da conta.

Ele abriu os olhos. Olhos de fome, mesmo assim. Olhou-me, o velho de mãos ainda a esmaecer curvado sobre ele, e a primeira coisa que fez não foi agradecer nem recuar. Foi procurar com a mão, no chão à volta, tateando a areia, à procura daquilo que os dedos tinham largado. Não achou. E o que lhe atravessou a cara quando não achou foi pior do que qualquer ferida que eu acabara de fechar.

— Quieto — disse eu. — Se te mexes, abres o que fechei.

Ele não me ouviu. Tentou erguer-se, e o corpo não deixou, e ele caiu de volta e bateu a mão aberta na areia, uma vez, com uma raiva que não tinha força para ser raiva.

— Korr — disse ele. Não a mim. Ao deserto inteiro. — Levar Korr. A mulher de aço levar.

Pôs-se a procurar outra vez, os olhos a correrem o campo de mortos, o braço a fechar-se no mesmo arco vazio que eu já conhecia daquela manhã, e a chamar o nome agora com a pouca voz que a cura lhe devolvera, gastando essa voz toda no nome em vez de a gastar em viver. Tirei-lhe o pão e a água da bolsa e pus-lhos na mão. Ele comeu, porque um Grakh come como respira, mesmo a desfazer-se, mas comia olhando para o sul, para onde a coluna tinha ido, mastigando e procurando ao mesmo tempo, e em nenhum momento o desespero dele parou para descansar.

A meio de uma mordida, ele parou.

Não foi escolha. O maxilar travou, o pão ainda na mão, os olhos fixos num ponto qualquer da areia que não tinha nada de especial, e o ar que ele tinha posto de lado para chamar mais uma vez ficou-lhe na garganta sem sair como nome.

Saiu como outra coisa.

Um som que eu nunca tinha ouvido de um Grakh e que reconheci de qualquer maneira, porque alguns sons não pedem licença para serem entendidos: alto, partido a meio, sem vergonha nenhuma de ser alto, do jeito que só chora quem nunca aprendeu que chorar tem volume certo. Não foi um soluço. Foi quase um grito, e depois outro, e o corpo todo dele ia com cada um, os ombros, o peito aberto, as mãos que tinham parado de procurar porque já não havia nada que as mãos pudessem fazer com aquilo.

Fiquei sentado ao lado dele. Não toquei. Não disse nada. Há choros que se interrompem com uma palavra e há choros que só se respeitam com silêncio, e eu já enterrei gente bastante para saber distinguir os dois.

Deixei-o.

Conheço a forma daquele som, não porque a tenha feito. É isso, exatamente isso, que me tirou do lugar onde eu estava sentado a calcular distâncias. Há um século que o meu povo acabou, e eu nunca fiz aquele som nem uma vez. Fugi calado. Escondi-me calado. Cantei a minha vergonha baixo, numa língua que mais ninguém entende, para que nem o vento me ouvisse bem. Ele berra o nome de quem perdeu para o deserto inteiro, sem pedir licença a ninguém, gastando nisso a única voz que lhe resta.

Não levantei a mochila. Não ensaiei o rosto seguinte, o de um velho qualquer, que é o que faço sempre que decido ir andando. Parti o resto do pão dele em dois e comi a minha parte ali, devagar, ao lado do som que ele ainda fazia.

Pela primeira vez em cem anos, não ensaiei rosto nenhum para ir embora.

CapítuloXIX
Bryne, a Lâmina de Redom
✦ ✦ ✦

Garran me achou na terceira noite da volta, sentada longe das fogueiras, e fez o que ninguém mais no acampamento tinha coragem de fazer. Sentou-se sem pedir licença.

Era um homem velho para soldado. Cinquenta anos, talvez mais, com a barba grisalha mal feita e as mãos grossas de quem lavrou antes de pegar em lança. Servira sob o meu pai. Servira sob mim no deserto. Estava entre os que voltaram, o que já dizia algo sobre ele. Menos do que eu jurara a mim mesma que voltariam quando contei os três mil na partida. Tínhamos passado dois dias a abrir covas antes de marchar; um exército que enterra os seus marcha mais devagar e mais calado, e o nosso ia devagar e calado.

— A comandante não come há dois dias — ele disse. Não era pergunta.

— Não tenho fome.

— Ninguém tem. — Ele tirou do bolso um pedaço de pão duro e partiu ao meio. Estendeu a metade.

Eu não peguei. Ele deixou a mão estendida o tempo que foi preciso para aquilo virar constrangimento, e depois pousou o pão no meu joelho e comeu a sua parte, devagar, com os poucos dentes que lhe restavam. Mastigou olhando o fogo distante. Não disse mais nada por um tempo bom. Eu agradeci esse silêncio mais do que teria agradecido qualquer palavra.

— O senhor estava lá — eu disse, por fim. — Nas tendas.

— Estava.

— Eu dei a ordem.

— Deu.

Eu queria que ele dissesse mais. Que me acusasse, ou que me defendesse, qualquer das duas coisas serviria, porque qualquer das duas tiraria de mim o peso de decidir sozinha qual delas era a verdadeira. Ele não fez nem uma nem outra. Partiu outro naco de pão. Eu comecei a falar e não consegui parar, o que não é do meu feitio.

— Eu acreditei que era justiça. — As palavras saíram rápidas, erradas, sem a ordem que eu costumo dar a elas. — Eles mataram os meus na serra. Cem mil, Garran. Eu vi homens que treinei desde rapazes serem esmagados por aquele dragão por causa de uma traição que não foi minha. E eu jurei. Jurei sobre os corpos que faria os filhos do deserto pagarem. E fui, e fiz, e enquanto marchava para lá fazia sentido, cada passo fazia sentido, era a coisa mais clara do mundo. — Parei. A parte seguinte custou. — E agora não faço. Olho para trás e não encontro o raciocínio que me levou até as tendas. Sei que ele existiu. Não consigo mais segui-lo. É como procurar o caminho de volta numa estrada que alguém apagou atrás de mim.

— A senhora matou as crias — disse Garran. Sem peso na voz. Só pondo o fato no chão entre nós, como se pousa uma ferramenta.

— Mandei matar. É o mesmo.

— É o mesmo — ele concordou.

E foi a coisa mais bondosa que alguém podia me dizer, porque foi a única honesta.

Ficamos calados outra vez. No acampamento, alguém ria de alguma coisa, longe, e o som chegou estranho até nós, de um mundo onde ainda se ria. Garran raspou a lama da bota com uma lasca de madeira. Quando falou de novo, foi sem me olhar.

— Meu avô plantava cevada perto do Brejo Torto. Lugar ruim. A gente da terra não chegava perto depois do escuro.

Eu não disse nada. Não via o que cevada tinha a ver com aquilo, mas estava cansada demais para apressar um velho.

— Ele dizia que havia coisas no brejo. Não fantasma, não bicho. Coisas sem corpo, que não tinham fome de carne. Tinham fome do que vai por dentro da gente. Ele dizia que se um homem chegasse no brejo já com raiva no peito, a raiva crescia. Que se chegasse com medo, o medo virava terror antes de ele achar a saída. As coisas não botavam nada na cabeça do homem. Só… engordavam o que já estava lá. Pegavam uma fagulha e sopravam até virar incêndio. — Ele deu de ombros, o gesto de quem conta uma bobagem de velho. — Histórias de roça. Pra criança não andar no brejo à noite.

— Por que está me contando isso?

Ele me olhou então. Olhos claros, aguados de idade, mas firmes.

— Porque a senhora chegou na serra com um luto do tamanho do mundo. E eu vi a senhora marchar mês afora até o deserto. E todo dia daquela marcha a senhora estava um pouco mais dura, um pouco mais certa, um pouco mais surda pra quem dizia pra parar. Eu já vi raiva, comandante. Servi quarenta anos, vi muita. A raiva da senhora não crescia como cresce a dos homens. Crescia como a do brejo. De fora pra dentro.

Eu quis rir dele. Quis dizer que era superstição de lavrador, que demônios não disputam a cabeça de uma comandante de Redom, que fui eu, só eu, a minha vontade e a minha ordem e a minha culpa, inteiras, minhas. Abri a boca para dizer isso.

E lembrei dos sonhos. Da voz que eu tomava pela minha própria, nas noites da marcha, sempre tão razoável, sempre empurrando para a frente. Lembrei de como o ódio, lá pelo fim, tinha um calor que não me aquecia, um calor de fora. Fechei a boca.

— Se for verdade — eu disse, devagar, porque a ideia era um terreno que eu não sabia pisar —, se uma coisa dessas mexeu comigo, então o que eu fiz não foi… — parei.

— Não falei isso. — A voz dele endureceu. — Não disse que não foi a senhora. O brejo não obrigava ninguém. Meu avô dizia isso também. A coisa sopra a fagulha, mas a fagulha é tua. A mão que pega a lança é tua. A senhora deu a ordem com a sua boca. Isso não muda.

— Então de que serve saber?

— Serve pra senhora saber que ainda dá pra parar de andar pro brejo. — Ele se levantou, com o estalo dos joelhos velhos. — Quem foi soprado uma vez pode ser soprado de novo. A senhora vai voltar pra Redom e vão te chamar de heroína ou de carniceira, e tanto faz qual, porque as duas vozes vão querer te empurrar pra algum lugar. O que eu peço, comandante, de um velho que serviu seu pai, é que da próxima vez que uma certeza chegar quente demais e fácil demais, a senhora desconfie. Certeza que não custa a vir não é sua. É soprada.

Ele pegou o resto do pão do meu joelho, o que eu não tinha comido, e botou de volta na minha mão. Dessa vez fechou os meus dedos em volta com a mão grossa dele.

Comi o pão depois que ele saiu. Estava velho e seco e foi a melhor coisa que provei em semanas.

CapítuloXX
Thrym, a vontade da Fome
✦ ✦ ✦

Estão alinhados pela areia que ainda guarda o calor do dia, e nenhum deles tem fome. É a primeira coisa que registo, e é a pior: o velho, Voragh, partido na pedra há dias. A jovem de olho de brasa, Hessa, engolida ontem por aço que nem lhe sabia o nome. As crias, que não pesam nada e por isso pesam tudo. Um Grakh vivo tem sempre fome, é como ele respira. Estes não respiram, e a boca de cada um está fechada do jeito errado, do jeito que nunca fecham vivos.

Não tenho fome. Tenho. Ela não pára por eu não ter onde a pôr, e sobe por dentro de mim agora sem achar saída: quero fazer alguma coisa com isto, morder, gritar, comer a raiva até virar outra coisa. Não há boca minha neste mundo hoje. Só a deles, fechada errado, na areia.

Tentei fechar o queixo sobre o ar, só para sentir alguma coisa entre os dentes que não tenho. Nada se fecha. Um deus sem corpo não morde nem a própria fome.

Sei a conta. Já a fiz uma vez, no escuro, antes disto: cada um dos meus que cai atrasa o corpo que estou a juntar, um dia, uma semana, um ano. Não repito a soma. A soma está feita. O que mudou é que agora tem nome.

De Aélith, pouco. Ela mediu, ela desenhou, ela pôs a mordida na boca de um general que nem sabia o nome dela e ficou longe, sem nada entre os dentes. Não me dá fome nenhuma, falar dela. É indigesta de tão correta. Guardo. Há de azedar até prestar para alguma coisa. Véspera ao menos queimou luz própria até quase se mostrar. Aélith não perdeu nada que doesse.

Mas a mulher. A mulher de aço, essa dá fome a sério, do tipo que faz a boca doer de vontade de fechar. Essa eu odeio do jeito que se ama, quente e inteira, com tudo o que ainda tenho mesmo sem ter onde pôr.

Vi-a varrer os meus do chão como quem varre cinza de manhã, sem pressa, sem nojo, sem prazer nenhum, só a tarefa feita. Não ergueu a voz. Não chorou nenhum dos seus enquanto fazia isso. Limpou o campo e seguiu, e a cara dela ao seguir era a cara de quem cumpriu, não a de quem matou.

Porque ela escolheu. Aélith abriu a porta há muito, antes disto, longe disto. Foi a mulher quem atravessou esta com a espada na mão, e a boca dela disse a ordem que limpou o campo de feridos e de crias. Os deuses não culpam o que se move só porque a nossa mão empurrou. Mas esta moveu-se demais por conta própria para eu fingir que foi só impulso meu a empurrar. Viu o que ia fazer, inteiro, antes de fazer. E fez. O que escolhe, paga.

Não a acho agora. Ainda não. Entrou nalgum ruído da cidade branca, e sem corpo perco o sabor fino de uma vida só no meio de cem mil vidas assustadas. Devia ser humilhação, isto. Que seja. Eu como humilhação como lenha, queimo-a, fico mais quente. E não corro detrás dela. Isso, num como eu, que sempre fui ímpeto antes de ser qualquer outra coisa, é a coisa mais perigosa que já existiu, porque eu não esqueço, não morro, não desisto, e o mundo é redondo, e tudo o que anda nele acaba por passar de novo no mesmo lugar.

Hei de ter boca outra vez. E quando a tiver, ponho os dentes devagar no pescoço fino dela e fecho devagar, devagar do jeito que nunca fui, para ela ter tempo de sentir, no último instante, exatamente o sabor do que escolheu naquela manhã na areia. Prometo isto à areia. A areia guarda promessa melhor que a pedra.

Quase rio, no meio disto. Vejo o grande andar para o norte. O jovem grande demais para os invernos que tem, o que segurou a cria no colo na última noite quente. Ferido, manco, de pé. Vai para o gelo, para os Aug, que são meus como os Grakh são meus, fome da mesma fome. Vai para casa e não sabe que é casa. Acha que vai porque os seus sempre foram amigos dos do gelo, e tem razão sem saber a razão, porque não é a cabeça dele que aponta o caminho. É a fome. E a fome fui eu que fiz.

Ao lado dele anda um velho de luz, um Lúmae, filho de Aélith, um dos poucos que ela não apagou, a curar e a alimentar e a guiar um filho meu pelo deserto afora. Um filho dela a dar de comer a um filho meu. Se eu tivesse boca, ria-lhe na cara: a Forma mediu tudo e esqueceu de medir isto. Há aqui uma desordem que ela detesta e que eu, que sou desordem, acho a coisa mais bonita que vi em muito tempo. Que o cure. Que o alimente. Que o leve inteiro até à porta dos Aug. Está, sem saber, a entregar-me a fome que eu mais quero de pé quando voltar.

Elejo o grande. Aqui, sem boca, com os meus a esfriar na areia, elejo-o. Não porque me sirva já, que não serve de nada agora, e dizer que serve seria mentira, e eu não minto. Elejo-o porque é a fome mais parecida com a minha que ficou de pé no mundo: fome que anda antes de pensar, fúria que não se explica, corpo que age enquanto a cabeça ainda dorme. Quando eu voltar, quero-o perto. E ele vem. O que é meu vem, tarde ou a tempo, do jeito que a fome chega antes de ter nome.

Anda, grande. Vai para o gelo com as pernas que ainda tens. Eu espero. Eu, que nunca soube esperar, aprendi hoje, à força, e quem me ensinou foi a mulher de aço, e é com essa paciência que volto a buscá-la. Não há pressa. Há fome.

CapítuloXXI
Bryne, a Lâmina de Redom
✦ ✦ ✦

Entrei em Redom de manhã, com o que restava dos três mil atrás de mim, e entrei pela porta principal. Não às escondidas, não por um portão de serviço de madrugada. Em formação, com a coluna em ordem de marcha, como a tropa que ainda éramos. Se vinha ser presa, vinha de pé, e que a cidade me visse entrar de pé.

A cidade não sabia o que fazer comigo. Vi isso nas ruas antes de ver qualquer outra coisa, porque é a primeira coisa que se vê: como as pessoas se posicionam. Uns pararam a olhar, parados de mais, do jeito de quem não decidiu de que lado fica. Uns viraram as costas, com a intenção toda no ombro. E uns ergueram os braços e gritaram o meu nome como se gritassem vitória, e foram esses que me deram mais vontade de descer do cavalo e mandá-los calar. Não corrigi nenhum dos três. Nunca corrijo em voz alta. Deixei a rua decidir sem mim, que é o que a rua faz de qualquer forma.

Vi a minha irmã no meio da multidão, do lado esquerdo da rua, encostada a uma coluna de pedra. Não gritava, não virava as costas. Ficou parada com aquela quietude que ela tem quando já disse tudo o que havia a dizer e passou para o lado de lá das palavras. Os olhos encontraram os meus por um instante — nem acusação, nem perdão, só o rosto de quem acertou na previsão e não tira prazer nenhum disso. Passei. Não parei. Um soldado que para no meio da entrada não entra: fica.

Pedi audiência ao conselho assim que entreguei a coluna. Deram-na para a tarde do mesmo dia. Quando um conselho que costuma fazer um soldado esperar semanas recebe no mesmo dia, é porque já tinha a sala montada à espera, e a audiência não era sobre ouvir-me. Era sobre eu ser vista a ser ouvida.

O salão estava cheio para além do que uma audiência pede. Havia gente encostada às colunas do fundo, gente nos degraus laterais, gente sem cargo ali nenhum. Não tinham vindo ver-me cair. Tinham vindo torcer para que eu não caísse, e o conselho deixara-os entrar porque negar-lhes a entrada seria admitir que temia o que eles queriam. Uma cidade que ama a sua comandante e a vai julgar mesmo assim precisa de fazê-lo à vista de todos, ou não acredita na própria justiça.

Falei primeiro. Aprendi cedo que quem fala primeiro escolhe o terreno, e o terreno era a única vantagem que eu ainda tinha.

— Os homens e as mulheres que me seguiram ao deserto seguiram ordem minha — disse. — A decisão foi minha. A responsabilidade é minha. Quem obedece a uma ordem legítima não responde pela ordem: responde quem a deu. Julguem-me. Soltem-nos.

O conselheiro Vasse não se levantou. Vasse nunca se levanta. Fica sentado e baixa a voz, e obriga a sala inteira a calar-se e a inclinar-se para o ouvir, e nessa inclinação já ganhou metade do que veio buscar.

— A Lâmina de Redom. — Disse o título devagar, sem o devolver com desprezo; disse-o com o respeito cansado de quem lamenta o que vai ter de fazer. — Servimos juntos a esta cidade vinte anos, comandante. Ninguém nesta sala lhe nega o que fez na serra. Foi ordem nossa, foi cumprida com honra, e o que voltou da montanha voltou por causa da senhora. Disso ninguém duvida.

— Então o senhor sabe que não é por isso que estou aqui.

— Sei. — Juntou as pontas dos dedos, devagar, como quem tem tempo e não tem gosto nenhum no que vai dizer. — A serra foi ordem. O deserto não foi. A senhora juntou três mil soldados de Redom e marchou-os para a Boca Seca sem uma palavra a este conselho. Tomou o exército da cidade e usou-o numa guerra que a cidade não declarou. — Olhou em volta, para a sala cheia, e a sala estava do meu lado, e ele sabia que estava. — Metade desta gente quer dar-lhe uma coroa. Eu também gostaria. Mas Redom não é Redom por causa do que sente. É Redom por causa do que cumpre. Se a Lâmina pode levar o nosso exército onde lhe apetece, sem ordem, então a ordem não vale para ninguém, e no dia em que a ordem não valer para ninguém deixamos de ser uma cidade e passamos a ser uma horda com muralhas. A senhora sabe disto melhor do que eu. Ensinaram-lho com a mesma espada com que me ensinaram.

Senti um calor subir-me pela nuca. Não era o da serra, o que me empurrara estrada afora; esse vinha de fora, e este vinha de dentro, e a diferença, agora, eu já sabia reconhecer. Este era só meu: a vontade de dizer que o deserto também fora preciso, que houvera uma armadilha na montanha que ninguém naquela sala vira, que eu pagara com cem mil o direito a uma certeza. Abri a boca para a defesa.

E vi, na primeira fila, dois rostos que eu conhecia. Soldados meus, dos três mil, ainda de ferros nos pulsos, presos comigo por terem-me seguido, à espera de saber o que a cidade ia fazer com quem obedece a uma ordem que não devia ter sido dada. Olhavam para mim do jeito que um soldado olha para o comandante quando já não pode fazer nada a não ser olhar.

E fechei a boca. Porque Vasse tinha razão, e a defesa que eu ia montar era pelos motivos certos pelos motivos errados: eu queria provar que estivera certa, e não estava ali para estar certa. Estava ali para tirar os meus da corda. Uma comandante que se defende com brilho diante de uma sala que já a ama transforma o próprio julgamento num espetáculo, e num espetáculo o conselho tem de endurecer para não parecer fraco, e quem endurece com o comandante endurece com a tropa que o seguiu.

Engoli o calor. Doeu, porque ele já não queria descer, mas desceu.

— O senhor tem razão — disse, e a sala calou-se, porque não era o que tinham vindo ouvir. — A decisão de marchar para o deserto foi minha. A ordem foi minha. Quem me seguiu seguiu a sua comandante, que é o que um soldado de Redom é treinado para fazer e o que a cidade lhe pede que faça. Não há disciplina sem isso. Punir o soldado por obedecer é desfazer a própria lei que o senhor está aqui para defender. — Olhei para os dois da primeira fila, e depois para Vasse. — Julguem a cabeça que decidiu. Soltem as mãos que cumpriram. É a lei. O senhor mesmo o disse.

Vasse olhou-me um longo momento. Vi-o pesar aquilo, e vi-o concordar antes de falar, porque era de facto a lei, e um homem que invoca a lei contra ti fica preso a ela quando ela se volta a teu favor.

— Os que seguiram ordem da comandante respondem por terem obedecido, e obedecer não é crime em Redom — disse, por fim, para a sala mais do que para mim. — Cumprida a investigação de cada um, os soldados serão soltos. A comandante fica. A responsabilidade era dela, e dela é o julgamento. Que conste que o conselho é justo, e que a justiça de Redom não poupa nem a sua melhor espada.

Não era a soltura imediata que eu viera buscar, mas era o caminho dela, e era mais do que tinham na manga ao entrar. Não deixei o alívio aparecer-me no rosto. Não lhe dei sequer isso.

— Aceito.

Saí escoltada. Não resisti. Não havia o que resistir.

A cela é de pedra, com uma janela gradeada alta demais para ver a rua. Avaliei-a no relance em que entrei, porque um soldado avalia um espaço antes de pensar em fazê-lo, e o relance dizia: daqui não se sai sem ajuda de fora ou ferramenta que não tenho. Avaliei e larguei.

Não vim para fugir. Quem se entrega e depois passa a noite a medir a grade não se entregou: recuou, e chama ao recuo entrega para dormir melhor. Eu não recuei. Vim porque achei que era o certo, e fico porque achei que era o certo, e a parte de mim que ainda quer medir a grade é a parte que tenho de mandar calar, e mandei. Sentei-me. Tirei do bornal o punhado de brancarda que carrego sempre, seco, e o cheiro, de mel pálido com fundo de pedra, encheu a cela por um instante e foi a única coisa daquele dia que não me pediu nada.

Pensei na minha irmã uma vez, rápido, e guardei. Não havia nada a fazer com isso dentro de uma cela, e ela sabia disso quando ficou parada na rua sem dizer nada. Era o jeito dela de me dizer que sabia.

Em vez da grade, fico a pensar no menino.

Korr. Soube o nome depois, de um dos meus, que ouviu o Grakh grande gritá-lo no campo. Trouxe-o comigo do campo que mandei limpar, e durante a marcha de volta tratei-o melhor do que tratei qualquer cativo na vida. Dei-lhe a minha água quando a ração apertou. Pus-lhe o meu manto por cima quando o deserto esfriou de noite. Ele mordeu-me duas vezes, com força, e as duas vezes eu deixei a mão onde estava e esperei que ele largasse. Não sei explicar por que fiz nenhuma dessas coisas, e desconfio das coisas que não sei explicar, porque costumam ser as que me metem em sarilho.

Entreguei-o aos cuidados de Redom quando chegámos. Vivo. Inteiro. Pedi que o tratassem bem. As leis de Redom sobre cativos do deserto são o que são, e eu já desafiei a lei o bastante por um inverno. Há uma parte de mim que quer ir buscá-lo agora, arrombar a porta da própria cela e escondê-lo e fazer por ele o que fiz no campo. E há a parte que sabe que uma comandante presa por deserção não protege ninguém, e que ir buscá-lo só o poria em pior lugar do que o que está. Deixei-o nas leis de Redom. Talvez seja o meu último erro. Não há de ser o pior que cometi este ano.

À noite ouve-se a cidade, e a cidade não decidiu se está de luto ou em festa, porque a guerra do dragão e a marcha ao deserto deixaram cada casa com um morto para chorar e cada praça com uma vitória para gritar, e ninguém sabe ao certo como se carrega as duas coisas ao mesmo tempo. Durmo pouco. Os sonhos voltaram, e não são os de antes, não os do Vohl, não os da minha mãe, não os da campanha longa no sul. São outros. Mais quentes. Vêm com cheiro de rio parado em noite de verão, água que não corre, um cheiro que não existe em deserto nenhum onde dormi e que, quando acordo, parece mais real que o ar seco da cela.

E quando acordo estou certa de coisas, e desta vez as coisas vêm com palavras. Chegam baixas, para não acordar o silêncio: fizeste o que era preciso. E depois: o conselho que te prende é o mesmo que te mandou à serra. E depois: a cidade por quem perdeste cem mil não te reconhece o serviço.

Fiquei deitada com aquilo muito tempo, a tentar fazer com elas o que Garran me ensinou: desconfiar da certeza que chega quente demais e fácil demais. O problema é que cada uma daquelas frases é verdadeira. Eu fiz o que achei preciso. O conselho mandou-me mesmo à serra. A cidade não reconhece coisa nenhuma. Penso-as desde o deserto, com a minha cabeça. Isso é convicção, e convicção é minha.

E ao mesmo tempo. Há, dentro da convicção, uma veia que não tem a mesma textura do resto. Mais quente que o resto. Que insiste depois de eu já ter concluído, que empurra um passo além de onde o raciocínio precisava de parar, do mesmo modo que, na marcha, o ódio tinha lá pelo fim um calor que não me aquecia, calor de fora. Tentei separar a veia do resto. Pôr de um lado o que é meu e do outro o que foi soprado. Passei a noite nisso, que é o tipo de tarefa em que sou boa. Não consegui marcar a linha. As duas vozes dizem a mesma coisa, com as mesmas palavras, e uma é minha e a outra não, e eu já não sei qual.

De madrugada veio barulho de fora. Vozes, alguma coisa a partir-se, o tipo de confusão que não é a ronda da noite. Um guarda entrou, olhou, saiu sem dizer nada. Sentei-me na cama de pedra e esperei, porque um julgamento leva semanas e eu tinha feito o que podia pelos soldados, e o que viesse a seguir não estava nas minhas mãos.

A voz voltou então, sussurrada, por cima do barulho que crescia lá fora: não ficará assim para sempre.

Desta vez nem tentei saber se era minha.

Bryne no tribunal
CapítuloXXII
Kronk, filho do deserto
✦ ✦ ✦

Dois dia depois da mão de luz, Kronk voltar pro campo. O corpo de Kronk gritar a cada passo. Kronk não ligar.

O velho ir também, sem Kronk pedir. Andar um passo atrás, devagar, do jeito de quem já andar aquele campo antes sozinho e não gostar de andar de novo.

O cheiro chegar primeiro, do jeito que sempre chegar primeiro pro nariz de Kronk: doce demais por baixo do ferro, do jeito de fruta podre. Os corvo nem voar quando os dois passar perto. Só observar c'o olho de lado, gordo demais pra ter pressa.

Kronk procurar o lugar. Lembrar onde a parede fechar por último, onde a voz da Hessa parar de gritar ordem. Ser fácil de lembrar. Kronk só não saber se conseguir andar até lá.

Achar ela, c'a areia que o vento já levar pra cima dela esses dois dia. Ela lutar até cair. Não ter espaço pra cair limpo. Kronk tirar a areia de cima dela c'a mão boa, devagar, e o velho ajudar c'o outro lado sem precisar pedir.

A Hessa tar c'a cara pro céu. A boca dela ainda aberta, do jeito que gritar a última coisa até o ar acabar. Os olho dela já não ter olho nenhum — os corvo levar isso primeiro, sempre levar isso primeiro. As mosca já tar nela, fileira de mosca na borda de cada corte, e ela ter corte demais pra contar, no braço, no peito, na perna que dobrar pro lado errado. Um corte fundo no pescoço, esse Kronk reconhecer: ferro de Redom, ferro fino, ferro de gente que golpear por trás. A pele dela já ficar escura nas bordas, do jeito que carne ficar quando o sol trabalhar nela dia e noite sem parar.

Kronk ajoelhar do lado dela.

Kronk querer levantar ela. Carregar pra longe dos corvo, enterrar fundo onde os bicho não cavar. A costela de Kronk gritar no instante que os braço de Kronk fechar embaixo dela, e o mundo ficar branco, e Kronk cair pra trás na areia, sem ar, a dor subir do peito até atrás dos olho.

Não ser a dor que fazer Kronk gritar. Ser a raiva. Raiva do corpo de Kronk, que não servir pra nada, que nem servir pra carregar a própria Hessa pra longe dos bicho. Raiva da mulher de aço, que deixar Kronk vivo pra ver isso, pra chegar tarde demais até pra isso. Kronk bater na areia, uma vez, duas, até a mão sangrar um pouco e a raiva não sair, porque raiva daquele tamanho não saber sair pelo murro.

O velho não tentar parar Kronk. Sentar do outro lado da Hessa e ficar quieto, do jeito que ele já ficar quieto outras vez, e deixar Kronk bater na areia até a raiva cansar antes de Kronk.

Quando a raiva cansar, o velho começar a cavar primeiro. C'as duas mão, na areia mole perto da pedra, sem ferramenta nenhuma. Kronk olhar ele cavar um tempo, depois ajudar c'a mão boa, devagar, porque a outra ainda não obedecer direito.

Não cavar fundo. Mas cavar o bastante pra os bicho não chegar fácil.

Kronk ficar de joelho do lado da terra revolta um tempo, sem saber mais o que fazer c'as mão.

Ter mais um nome pra dizer. Kronk abrir a boca pra dizer. Não conseguir. O nome do Korr travar, do jeito que osso travar na garganta, e Kronk fechar a boca de novo sem dizer nada.

O velho ficar quieto um tempo. Depois ele falar, c'uma voz devagar que Kronk achar que nunca chegar ao fim.

— O meu povo. Fomos quase todos, uma vez. Depois não fomos. — Ele olhar o norte, não Kronk, nem a terra revolta. — Não foi exército. Foi decisão de alguém grande demais para ter rosto.

Ele não explicar mais. Kronk não perguntar. O deserto ficar quieto. Kronk e o velho ficar quieto junto c'o deserto.

— Kronk ir buscar o Korr — Kronk falar, depois de um tempo bom.

— Sabes para onde o levaram?

— Talvez ser pro mesmo lado de onde a parede vir. — Kronk apontar c'o queixo, pro lado onde o sol nascer.

O velho ficar quieto um instante, do jeito que ele ficar quieto quando a cabeça dele trabalhar atrás da cara calma.

— Redom — ele falar, baixo, mais pra ele que pra Kronk.

— Que?

O velho olhar pra Kronk, do jeito de quem esquecer que ter alguém pra ouvir.

— Redom. A capital. O Coração de Pedra. De onde veio o exército todo, com a comandante e tudo o resto.

— Kronk ir lá. Agora.

— Sozinho. Ferido. Dentro dos muros deles. — O velho não levantar a voz. Não precisar levantar. — É a pior ideia que ouço em cem anos, e já ouvi muita.

Kronk não gostar de ouvir isso. Mas o corpo de Kronk já saber que o velho ter razão antes da boca de Kronk admitir.

— Não tens mais ninguém? — o velho perguntar. — Alguém que sobrou. Que possa ajudar.

Kronk pensar. Pensar ser difícil pra Kronk.

— Ter os Aug.

— Os Aug? — O velho repetir a palavra, e algo na voz dele mudar um grau só, do jeito que o vento mudar antes da gente sentir no rosto.

— Povo do norte. Maior que Grakh. Bem maior. — Kronk parar pra achar as palavra, que as palavra de coisa antiga ser difícil de achar. — Mas a cria do Aug demorar dez inverno pra nascer. Kronk não entender como. Só saber que ser assim. Ter Grakh lá também. Grakh que perder lugar na horda e não ficar pra morrer por isso. Ir pro frio. Sempre ser assim, desde antes de Kronk. Quando a Boca Seca ficar ruim demais, a horda ir pro norte, e lá já ter sangue igual pra receber.

— Sei onde fica — o velho falar, depois de um tempo. — Vivi trinta anos na borda daquele frio.

Ele olhar pro norte, e o olhar dele ficar mais longe que o norte.

— Há uma velha amiga minha por lá.

— Amiga Aug? — Kronk perguntar. Kronk nunca conseguir saber, c'os Aug, qual ser fêmea e qual ser macho, mesmo de perto.

— Não. — A boca do velho fazer uma coisa que Kronk só ver na Urgha, quando ela rir só c'os ombro, sem deixar a boca participar. — Não vou explicar. Não cabe na estrada. Vou contigo — ele falar, por fim, e a voz dele não pedir confirmação nenhuma. Só dizer.

O velho falar pra esperar. Kronk esperar três dia, porque o corpo de Kronk, mesmo Kronk não querer, obedecer o velho antes de obedecer Kronk.

No terceiro dia, antes do amanhecer, o velho ficar de pé de frente pro vento um tempo maior que o normal. Depois pegar a trouxa pequena que trazer sempre, e andar.

Não falar "vamos". Kronk seguir do mesmo jeito, sem perguntar por que o quarto dia virar terceiro. Perguntar tirar tempo que os dois já não ter.

Os dois dar talvez cem passo quando o velho parar no meio de um passo, c'o pé ainda no ar. A respiração dele cortar pela metade.

Kronk parar também, sem saber por quê, só porque o corpo do velho parar primeiro.

— O que tu ver?

O velho não responder na hora. Olhar pro lado onde a luz da manhã ainda não tar forte, onde a areia virar cinza antes de virar dourada.

Kronk seguir o olhar dele e ver.

Homem. Vários homem, do tamanho de formiga no horizonte ainda. Vir no mesmo passo, todos no mesmo passo. O passo deles não cansar. Pé de gente cansar. Aquilo não. Kronk contar nas mão, e a conta não dar. Contar de novo. A conta não dar de novo.

Mais que as duas mão de Kronk.

— Tacet — o velho falar, baixo, do jeito de quem dizer uma palavra já dita antes, pra alguém que já não tar lá pra ouvir de novo.

Kronk não saber o que ser a palavra. Mas saber, pelo cheiro vazio que vir do lado deles antes mesmo do vento trazer cheiro nenhum, que não ser homem.

CapítuloXXIII
Sael, o Tecelão
✦ ✦ ✦

Vinte e três dias. Não vinte, que seria redondo e fácil de lembrar errado, e não vinte e cinco, que seria desculpa para arredondar para cima. Vinte e três, porque foi isso que levou, e contei cada um porque o golpe que preparei envolveu gente bastante, rostos bastantes — o meu incluído, mais vezes do que gosto de admitir — e quem perde a conta de um perde a conta de todos.

O que vai acontecer hoje em Redom não é o que Redom pensa que é. A cidade acredita que vai libertar a sua comandante presa. Deixo-a acreditar. Dou às pessoas a causa que elas já querem ter, e enquanto elas a perseguem por cima, eu desço por baixo, atrás da minha.

Redom já estava pronta para arder antes de eu chegar. Não inventei a raiva da cidade; encontrei-a e ajeitei-a. A meia dúzia de gente que uma cidade escuta sem saber que escuta não precisou de ordem nenhuma minha. Precisou só da frase seguinte.

Bryne fez o resto sem o saber. Voltou com os sobreviventes, entregou-se, e o conselho prendeu a comandante e os soldados todos e marcou julgamento. Meia cidade chama-lhe heroína e quer-na livre. A outra meia respeita a lei e quer o julgamento. Entre as duas metades há gente bastante, e raiva bastante, para virar tudo.

Naquela manhã fiquei um momento à janela do quarto que pagara em nome de ninguém. A cidade ainda não sabia o que ia acontecer. As ruas tinham o barulho de sempre — o mercado, as crianças, alguém a discutir o preço de alguma coisa. Acendi o cachimbo uma última vez com este rosto. Fumei até ao fim.

Hoje sou Brannoc. Ferreiro de meia-idade, mãos grossas, o rosto de quem envelheceu ao lado de uma forja. Brannoc perdeu um irmão na serra, debaixo das correntes que nunca seguraram o bicho. A raiva de Brannoc é verdadeira e é justa, e a raiva justa é a que mais gente segue.

A carpideira chora em frente de doze casas por semana, e nenhuma delas sabe que está a chorar a mesma coisa.

Fui visitá-la como Doro, escrivão dos mortos de um bairro qualquer — cargo tão pequeno que ninguém o verifica, e que dá a um homem o direito de saber o nome de cada morto antes da própria família o saber bem.

Encontrei-a à porta de uma quinta, à espera de a deixarem entrar para chorar o filho de um peleiro, morto na serra com a corrente nas mãos. Reparei nas argolas pretas que trazia ao pescoço, uma por luto que já levou ao fim, e contei sete. Paguei-lhe a dobrar pelo que veio depois: um nome certo, um número certo, o tipo de detalhe que ela não tinha e que transforma um choro genérico num choro que parece saber de coisa.

— As correntes da retaguarda — disse eu, com a voz mais simples que tenho, a de quem só repete o que ouviu a um soldado bêbado. — Romperam duas vezes antes da escama cair. Os homens viram-na vir e gritaram, e ninguém ouviu por cima do próprio bicho.

Ela não perguntou como eu sabia. Perguntar é menos importante, para uma carpideira, do que ter.

— Isso pesa — disse ela, e já media a frase pelo som, como quem prova um vinho antes de servir.

— Pesa mais se disser que gritaram o nome de quem os mandou para lá.

Ela sorriu, do jeito seco de quem aprova um instrumento novo. Entrou na casa do peleiro com o nome a postos, e à noite, três ruas mais longe, a mesma frase saiu da boca dela noutra casa de luto, com outro nome de filho colado por cima. Não inventei o choro de Redom. Só lhe dei uma melodia que se repete.

A forja dos Vohrn nunca arrefece, nem quando não há encomenda que pague o carvão. Contei seis bigornas e só duas em uso. Mais do que números, isso já era a resposta antes de qualquer um abrir a boca.

— O Caldros quer voltar à serra — disse o mais velho, sem erguer os olhos da bigorna. — Dizem que o bicho ainda dorme.

— E o conselho? — perguntei eu, com a voz de Brannoc, que é a única voz que ali me ouvem.

— O conselho convoca e adia. Sempre convocou e adiou. Não vai ser agora que aprende a decidir.

Bati o martelo uma vez, só para o som me dar tempo.

— O conselho não decide nada há cem anos. Quem decidiu foi sempre quem teve peito para ir sem esperar a vénia deles. — Deixei a frase assentar antes da seguinte. — A Lâmina já mostrou isso uma vez. Foi para o deserto sem pedir licença a ninguém.

— E está presa por causa disso.

— Está presa porque venceu sozinha o que o conselho não teve estômago para mandar fazer. — Olhei para o irmão mais novo, o que tinha o antebraço enfaixado de queimaduras frescas, e baixei a voz do jeito que Brannoc baixa quando fala do irmão morto. — O meu irmão morreu de corrente na mão, à espera de uma ordem que nunca chegou inteira. Vocês perderam quantos lá, no comando das correntes e dos guinchos? Quantos braços vossos seguram hoje o cabo de uma picareta porque já não há contrato que pague martelo de guerra?

Ninguém respondeu em número. Não precisavam.

— Uma comandante que marcha sem esperar permissão é a única coisa que mete medo a um conselho que só sabe adiar. Soltem-na, e é ela que vai arrastar o Caldros de volta à serra antes que ele tenha tempo de convocar outra reunião. — Sorri, do jeito seco de Brannoc, sem alegria nenhuma dentro. — E uma cidade a rearmar paga melhor que uma cidade de luto.

O mais velho olhou para a bigorna, depois para os outros, e o silêncio que se seguiu não era dúvida. Era conta.

Não disse mais nada. Não precisava. Um homem que já está a fazer as contas não precisa de mais ninguém a falar.

O orador da escadaria do Templo de Korath já gritava antes de eu chegar, e gritava bem, do jeito que só grita quem perdeu um olho a ver de mais perto do que devia, e não tem mais nada a perder a dizê-lo outra vez. Uma perna que arrastava, um trapo escuro amarrado sobre o olho que perdeu, a voz rota de quem berrou guerra a vida toda e agora só berra o que resta dela.

Fui ouvi-lo como Egil, mais um veterano qualquer da serra, com um braço em ligadura que não escondia ferida nenhuma. Não lhe falei. Não precisava. Fiquei na borda da multidão, um rosto qualquer entre cinquenta, e quando ele parou para respirar, disse a frase em voz alta o suficiente para que a multidão pensasse que tinha vindo de outra boca, de mais perto dele, de alguém que concordava.

— Quem se entrega não é covarde. Quem prende quem se entrega, é.

Ele repetiu. Claro que repetiu — era a frase que faltava à fúria dele, a única peça que tornava certo o que já sentia errado. Gritou-a duas vezes, e à terceira já não era dele: era de toda a escadaria, e da rua abaixo, e de quem nem tinha ouvido o resto do sermão.

Não escrevo discursos. Só entrego a última palavra a quem já decidiu o resto da frase.

Há três semanas, um dos quatro da escada deixou de existir, e ninguém em Redom perguntou por ele, porque era o tipo de homem que ninguém procura: sem mulher, sem filhos, sem dívida que alguém cobrasse. Levei o rosto dele para casa antes de levar o resto para o rio. Vesti-o dezoito vezes desde então, sempre as mesmas quatro horas, sempre a mesma senha, sempre o mesmo passo arrastado que ele tinha e que tive de aprender a copiar até os outros três pararem de notar a diferença.

Não chorei por ele, não o nomeei depois de o despachar, e não vou nomeá-lo agora. Esta noite não preciso da cara dele. A multidão vai abrir a escada por mim, melhor do que ele alguma vez a abriu; preciso só das chaves que lhe tirei, e essas não têm cara nenhuma para alguém reconhecer.

O motim começou a meio da tarde, e há de ficar nos livros como tendo começado ao anoitecer, porque é assim que as cidades lembram as próprias fúrias: sempre um pouco mais tarde, sempre um pouco mais nobres do que foram. Não começou com violência. Começou com ruído. Quinze vozes nos lugares certos, numa cidade de pedra que devolve o som, soam como quinhentas, e todas as quinze gritavam a mesma frase que um homem de um olho só pôs na boca de uma escadaria há três dias, já sem saber de quem a tinha tomado de empréstimo: *Quem se entrega não é covarde. Quem prende quem se entrega, é.*

As vozes viraram passos, os passos viraram ruas inteiras a despejar gente para fora de casa com a panela ainda ao fogo, e quando chegaram ao portão da prisão já não eram quinhentos: eram milhares, gordos de tochas e de varões de ferro arrancados dos próprios portões da cidade, com mais de um avental de forja entre o fumo, mães ao lado de filhos com idade para morrer numa coluna e nenhuma para morrer numa rua, e a determinação que os guardas reconhecem como real. E é real. Só não é pelas razões que eles pensam.

Os doze homens de lança no portão fizeram o que doze homens fazem contra milhares: gritaram a primeira ordem, gritaram a segunda mais alto, e depois deixaram de gritar coisa nenhuma. Não vi o resto, e não precisei: ouvi-o, o som de aço a ceder a número, que é diferente de aço a ceder a aço — mais húmido, mais comprido. Uma cidade que se levanta não pede licença a doze homens de lança.

Brannoc entrou com a maré, a apontar para o corredor das celas comuns, onde estavam a comandante e os soldados dela. Era esse o plano que a multidão conhecia, e era um bom plano, e era verdadeiro até onde eles conseguiam ver. Eu deixei-me ficar para trás e, quando o corredor encheu de gente e de fumo, larguei Brannoc ali mesmo, como quem larga um casaco que já fez o seu trabalho, e desci com outra cara, a única que ainda não tinha usado essa noite. Sozinho. Para a Ala Funda, enquanto a cidade ardia por uma comandante que eu nunca precisei de soltar.

A Ala Funda fica abaixo do nível da rua. Três portas de ferro e, no fim, uma de pedra. As de ferro abrem-se com chave ou com tempo, e eu tinha as duas coisas: as chaves que tirei a um rosto que já não preciso de vestir esta noite, e o tempo que passei, em dezoito visitas, a aprender em que ordem elas giram. A de pedra é outra conversa.

Dois guardas Verthane, com juramento gravado de não ceder. Os Verthane não cedem por dinheiro nem por medo; a pedra deles endurece com cada juramento cumprido, e nenhum dos dois ia virar as costas a troco do que eu pudesse oferecer. Eu sabia disso antes de descer. Por isso não trouxe moeda. Trouxe a lâmina fina que guardo na bainha das botas, a que não serve para lutar, só para o que eu fui fazer.

Não negocio o que não se negoceia. O primeiro ouviu-me chegar e voltou-se, e a confiança de quem nunca perdeu uma guarda deu-me o meio passo de que eu precisava: entrei por baixo do queixo dele, na carne mole acima do gorjal, e segurei-o contra a parede enquanto o juramento dele se esvaziava quente pela minha mão, sem ruído, porque a mão tapava o que ele queria gritar. Pousei-o no chão devagar, para o aço da armadura não bater na pedra. O segundo demorou mais, e custou-me um corte no antebraço, porque era bom e desconfiou cedo. Mas um homem que respira pela boca quando se assusta entrega-me onde está no escuro, e a faca acha a goela tão bem no escuro como na luz. Limpei a lâmina na capa do primeiro. Não sinto nada a fazer isto, e essa é a parte de mim que não vendo a ninguém, porque é a única que assusta até os que me compram.

A porta de pedra não tinha guarda. Só a própria pedra, que bebe magia: paredes que sugam tudo o que num corpo seja mais que carne e ferro. Encostei a mão e senti o frio que não é frio de inverno. Empurrei.

Escuro. Cheiro de tempo parado e de humidade velha. Uma cela com três palmos de parede até ao fundo.

— Quem és? — A voz veio do escuro. Fria. Calibrada. Sem uma gota de urgência, como quem tem todo o tempo do mundo e o gasta sem pressa porque sabe que sobra.

Parei.

Ninguém com urgência verdadeira fala assim. Ninguém que apodreceu semanas numa jaula de pedra surda fala assim. Eu conheço o som de quem está preso de verdade: gasto-o, vendo-o, fabrico-o quando preciso. Aquela voz não tinha nada disso. Aquela voz era de quem escolheu o lugar onde estava e ficaria nele exatamente o tempo que decidisse ficar.

Não respondi logo. Fiz o que sempre faço primeiro, o que faço diante de qualquer coisa que não entendo: tentei pesá-la. Perigo, classifiquei, e a palavra não pegou. Rival, tentei, e a palavra escorregou sem encontrar onde morder. Vantagem a vender, tentei por fim, porque é a última gaveta onde guardo o que não sei o que é — e essa gaveta, que nunca esteve vazia em todos os meus anos de ofício, em todos os rostos que vesti, estava vazia.

A presença que eu sentira da rua, semanas atrás, vinda do ventre da cidade, estava ali, a três palmos de pedra, e por dentro de mim uma coisa muito velha e que não era bem minha dobrou o joelho antes de eu decidir coisa nenhuma. Não fui eu. Foram todos os Sevrin que vieram antes de mim, gerações a servir uma Senhora que nenhum de nós jamais viu, adorada de boca em boca sem nunca um rosto, e fui eu o primeiro a chegar tão perto. Os meus joelhos quase cederam de verdade. Segurei-me na parede, e a parede bebeu até isso.

— Senhora — disse eu. Saiu num sussurro, do fundo de onde saem as coisas que a gente não escolhe dizer.

Uma pausa. Depois, do escuro, num tom quase divertido:

— Então é um dos meus que vem. — A voz moveu-se, como quem se chega à grade para ver melhor. — Esperei muito por um dos meus. E mandaram-me o melhor. Olá, Sael.

Eu não tinha dito o meu nome. Nunca digo o meu nome, e há tanto que larguei o meu que já não sei se algum foi de verdade meu. E ela disse-o como quem lê de um lugar onde estava escrito desde antes de eu nascer. Talvez esteja. Talvez "Sael" não seja meu de todo, talvez seja só o nome que a linhagem reservou para aquele que um dia ia chegar a esta cela. A ideia devia gelar-me. Em vez disso senti uma coisa que não sentia desde criança e para a qual a única palavra honesta é alívio: a vida inteira sem dono, e ali, no escuro, estava de quem eu era.

— Vim tirá-la daqui.

— Eu sei. É para isso que existes.

Não havia crueldade na voz, e foi isso que mais me gelou: não precisava de crueldade nenhuma para me dispor por inteiro. Bastava-lhe dizer. Pus-me a trabalhar na tranca, e as mãos, que nunca tremem, que são a única parte de mim em que sempre pude confiar, tremiam.

Foi ela quem me avisou do guarda atrás de mim. Não com palavras, que não houve tempo. Um som curto, do tipo que só faz quem aprendeu a falar através de paredes, e eu girei no instante exato. Não foi o meu reflexo que me virou. Foi o dela.

O guarda era grande. Verthane de carreira, dos que sobem para conter o motim e descem outra vez quando alguém mais forte aparece no caminho errado. Vinha já a fugir de alguma coisa antes de decidir lutar comigo: a respiração entrecortada, os olhos mais atrás do que para a frente. A primeira pancada apanhou-me no ombro e atirou-me contra a parede, que doeu mais que o golpe. O segundo não chegou.

Uma figura passou por mim. Braços de soldado, a economia de quem luta há mais tempo do que tem idade para lembrar. Três movimentos, sem teatro, e o Verthane foi ao chão e ficou. Vinha a persegui-lo desde lá de cima — percebi-o pelo fôlego dela, pelo corte ainda fresco na têmpora —, e ele tinha decidido testar a sorte comigo antes de voltar a testá-la com ela. Vinha com um peitoral de guarda mal afivelado por cima da própria roupa de prisioneira, tirado, decerto, a um corpo que já não precisava dele, e atrás dela, ao longe, ouvia-se a prisão a encher de gente e de ordens: o reforço a chegar, o tempo a fechar-se sobre todos nós.

Por um instante ficámos de frente, a três passos, no corredor que a tocha caída iluminava de baixo. Ela conhecia aquele corredor — uma comandante de Redom não chega aonde ela chegou sem saber o que a cidade esconde debaixo de si mesma — e um motim que veio buscar a comandante e os soldados dela não tinha razão nenhuma para mandar ninguém até à Ala Funda. Isso, soube logo, era o fio que podia desfazer vinte e três dias de trabalho. Eu sabia exatamente quem ela era. A Lâmina de Redom, a chave que a cidade enlouquecida me pôs na mão sem nunca saber que ma punha. Ela olhou-me e leu o que via: um homem da multidão, de cara que escolhi para ser esquecida, descido até ali por ela, como tantos outros desciam por ela naquela noite. Para ela eu era um dos seus libertadores anónimos, e a pressa não lhe deixava tempo para eu ser mais do que isso.

Lá estava, finalmente, a mulher de quem eu dissera, uma vez, numa taberna qualquer, que gostava de ser o cavalo. Não tinha sido verdade nenhuma na altura. A língua não perguntou a mesma coisa, e passou-me pelo beiço antes de eu lhe dar ordem — erro de disfarce que qualquer aprendiz sabe que custa caro, e que mesmo eu, com vinte e três dias de trabalho a um fio de se desfazer, não consegui evitar a tempo. Corrigi a cara antes que ela visse mais do que viu.

— Anda — disse ela, já a medir o corredor para lá de mim, para as saídas. — Não te demores. Está a chegar gente, e quem ficar aqui dentro fica preso de verdade.

Não era gratidão. Era comando: o reflexo de quem, mesmo a fugir, conta as cabeças à volta e tenta tirar todas vivas, até a de um estranho. Quase me comoveu.

Parou meio passo antes de ir. O olhar voltou a mim, mais devagar dessa vez. Não disse nada. O barulho do reforço chegou primeiro.

— Não fico — disse eu, com a voz que tinha escolhido para esta noite, e apontei-lhe o corredor de saída, o dela, não o meu. — Vai. Os teus precisam de ti lá fora mais do que aqui.

Ela seguiu o meu braço com o olhar, fez que sim com a cabeça e foi. Guardei o rosto dela à medida que se afastava, e com ele veio a vontade de lhe dar nome, do jeito que me vem sempre, sem eu escolher que venha. Não lhe dei ouvidos. Havia uma porta mais importante à minha espera do que aquela mulher, por mais que a língua tivesse outra opinião sobre isso. O nome ficou a dever-se. Gente como nós dois não se cruza só uma vez.

No fundo do corredor, alguns dos seus esperavam-na, armas na mão, prontos para a tirar dali de vez.

Voltei-me para a cela. A tocha caída lançava agora a luz lá para dentro, e a sombra do fundo deixou de ser sombra. Vi-a.

Passei a vida a olhar pessoas como quem lê um livro de contas: o que querem, o que devem, por onde cedem. Nunca uma cara me parou a respiração. Esta parou. Tive mil rostos e amei em todos eles, fácil, sem que nenhum me ficasse, e fiquei ali diante daquela grade com o peito a fazer o que nunca lhe permiti: era a primeira vez que uma coisa no mundo me parecia maior do que eu, e que eu queria que fosse, e que servi-la não me parecia perder nada.

— Pode sair? — perguntei, e a voz tremeu-me, a voz que nunca treme.

— Há semanas que podia sair, Sael. — Ela levantou-se, e a pedra surda não lhe tirou nada da presença, e isso só podia significar que a presença não vinha de poder nenhum que a pedra soubesse beber. — Fiquei à espera de quem abrisse a porta pela razão errada. Uma cidade inteira a arder para me tirar de uma cela, e nem uma alma a saber que me tirava. — Sorriu, e o sorriso foi a coisa mais fria e mais bonita que vi na vida. — Tu fizeste isso. Imagina o que faremos com a porta certa.

— Os Sevrin pagam as suas dívidas — disse ela, antes que eu me movesse. — É a única lei que o meu povo nunca quebrou. Lembra-te disto quando vier a vez de eu pagar a minha.

Abri a porta.

CapítuloXXIV
Aerin, um dos últimos
✦ ✦ ✦

Cortámos para fora da luz antes que a luz nos cortasse a nós.

Foi a cura. Só podia ter sido a cura: a magia proibida que usei em Kronk acendeu mais do que eu queria, e o que acende demais não volta a apagar-se só porque a ferida fechou. Sabia o preço quando o fiz. Não escolhi de outro jeito mesmo assim.

Não lhe disse isso. Não haveria nada que ele pudesse fazer com a informação, exceto carregá-la, e já carregava o bastante.

— Não corremos — disse, cortando para onde a areia perdia a cor. — Correr é o que esperam de carne assustada.

— Pra onde, então?

— Conheço um caminho que ninguém quer andar. Dizem mal dele há mais anos do que tu tens de vida. Não sei o que há lá. Sei que é o último lugar onde alguém vai procurar-nos.

Ao terceiro dia, perguntou-me se eu comia outra coisa além de folha seca. Disse que sim, sem explicar o quê, porque o que trago no cantil não se explica a um Grakh. Tirou do bolso um naco de carne salgada e partiu-o ao meio, estendeu-me a metade sem uma palavra. A carne tinha o sal de cem mortes e estava perfeita. Não o disse. Há agradecimentos que estragam o gesto, e cem anos ensinaram-me a reconhecer um. Comi. Caminhámos.

Na primeira noite, anunciou que ficava de guarda.

— Kronk vigiar. Contra os bicho que não ser de carne.

— Eu fico. Dorme.

Dormiu. Na segunda noite, repetiu a oferta, e eu repeti a resposta, e ele dormiu outra vez sem discutir, como quem aceita que um velho tenha os seus hábitos e não vale a pena gastar fôlego a desafiá-los.

Foi só na terceira noite que me observou tempo bastante para notar.

— Tu nunca dormir. — Não era pergunta. — Tu sentar. Olho aberto. Ficar quieto a noite toda, sem dizer nada. Isso não ser dormir. Isso ser outra coisa.

— É outra coisa.

— O quê?

— Aprendi a apagar os pensamentos, um a um, até não restar nenhum. Não é sono. É o mais perto que chego dele.

Ficou a olhar para mim mais tempo do que ficaria a olhar para qualquer outra coisa que não pudesse comer ou lutar, e depois disse só:

— Deve ser cansado. — E adormeceu antes de eu encontrar resposta para aquilo.

Nessa mesma tarde, antes de o sol cair, parei e disse-lhe uma coisa que ainda não lhe tinha dito.

— Vou pedir-te coisas pelo caminho que vão parecer-te sem sentido. Quando eu disser para parares, paras. Na hora. Sem perguntar porquê.

Olhou-me com aquela seriedade lenta dele, a que usa quando pesa se vale a pena discordar.

— Agora tu falar igual Hessa. — Pensou nisso mais um instante. — Kronk tentar.

Foi tudo o que disse, e disse como quem fecha um trato que já tinha decidido fechar antes de eu acabar de pedir.

Na quarta tarde, a areia começou a desistir.

Trocou primeiro a cor, de dourada para um cinza sujo, como se o próprio deserto tivesse perdido o interesse em continuar a ser deserto. Depois trocou a textura: já não cedia ao pé, batia de volta, dura como couro velho ressecado ao sol. A leste, contra o fim do dia, vi pela primeira vez a cordilheira que conhecia só de nome — uma fila de dentes negros mordendo o céu, sem neve em cima, sem verde nenhum, e do meio de dois desses dentes corria uma garganta estreita que a luz não alcançava ao fundo a hora nenhuma do dia.

O calor que tínhamos arrastado pela areia o dia inteiro morreu na entrada dela, de uma vez, como se a própria pedra negra bebesse o que sobrasse de sol. Senti o frio subir-me pelas botas antes de sentir qualquer outra coisa, um frio que não combinava com a estação nem com a latitude, um frio que vinha de dentro da rocha e não de cima dela.

Kronk parou ao meu lado e cheirou o ar, a testa franzida.

— Cheiro errado. Cheiro de pedra que não ser pedra.

Não discordei. Também não sabia explicar melhor.

Entrámos porque não havia outro caminho que nos tirasse dos Tacets, e ficámos ali quietos, à entrada, exactamente o tempo que um homem precisa para perceber que está com medo de uma coisa que ainda não viu.

Fui eu quem deu o primeiro passo. Kronk seguiu sem perguntar, e isso, só isso, já era mais confiança do que eu tinha pedido.

A cem passos lá dentro, o peso chegou.

Não é peso de ar nem de som. É um peso que se sente atrás do esterno, como uma pedra a crescer por dentro do peito, e eu conheço esse peso de longe, de outras vidas, de outros séculos que já passei a fugir de alguma coisa. Tentei não deixar a cara dizer o que o peito já sabia. Não sei se consegui.

— Ter problema?

— Talvez. — A voz saiu mais baixa do que eu queria. — Fica perto. E se eu disser para parares, paras. Já falámos disto.

Andámos mais. O peso não parou de crescer, e por baixo dele veio uma certeza que não tinha pedido: não era a pedra que pesava, era o que vivia dentro da pedra, e o que vivia ali não era recente. Tinha-se acumulado devagar, ano sobre ano, do mesmo jeito que um poço acumula água que ninguém vem buscar.

— Há coisas no mundo que não têm corpo — disse a Kronk, mais para organizar o que eu próprio estava a perceber do que para lhe ensinar alguma coisa. — Nascem do que as pessoas sentem quando ficam presas num só sentimento, tempo demais, até o sentimento engordar e andar sozinho. Eu chamo-lhes o que vejo que são: parasitas.

— Bicho?

— Pior que bicho. Um bicho quer comer-te e acaba. Isto quer morar em ti.

— Como matar?

— Normalmente não se mata. Empurra-se de volta para onde veio. Para isso preciso de chegar perto da coisa que a prende deste lado. — Parei. O peso não vinha de um ponto só; vinha de todos os lados ao mesmo tempo, coisa que nunca tinha sentido antes. — Isto pode não ter centro nenhum. Ou pode ter mais de um.

Kronk apontou para leste antes de eu acabar de pensar.

— Ali.

— Como sabes?

Encolheu o ombro bom.

— Cheiro de gente. Muito. Gente que não lavar há muito tempo.

Não discuti. O nariz dele chegou onde a minha arte ainda apalpava o ar.

Vi-os antes de Kronk, porque vejo longe e a luz da tarde ainda chegava ao fundo da garganta em fatias finas. Quatro. Sentados ou deitados entre as pedras negras, tão quietos que pareciam parte delas. Só os olhos se moviam, e moviam-se todos para nós ao mesmo tempo, como se fossem um só par a olhar por quatro caras diferentes.

Roupa que já não era roupa, mais crosta que tecido. Pele que o sol e o frio tinham discutido entre si durante anos sem nenhum dos dois vencer. Um deles sorria. Os outros não tinham, ao que parecia, decidido ainda o que fazer com a própria cara.

— Recua — sussurrei a Kronk. — Esta pode ser forte demais.

Não recuou. Pôs-se atrás de mim, as mãos enormes prontas, sem saber ainda contra o quê.

— Aprendeste tão bem... — disse a primeira.

— ...a não sentir... — continuou a segunda, com a boca da primeira ainda a fechar-se.

— ...em voz alta — fechou a terceira.

Não respondi. Responder seria confirmar que tinham acertado, e não dar essa confirmação é a única defesa que me resta contra isto.

— Achaste que cem anos bastavam — disse a quarta, a que ainda não tinha falado, numa voz mais funda que as outras três juntas. — Cem anos a apagar a luz, a esconder o nome, a fugir de uma coisa que nem sabes que forma tem.

A primeira falou de novo, a boca a formar as palavras um instante depois de eu já as ouvir, como se o som chegasse antes da causa.

— E ainda assim, aqui estás. Mais um esconderijo. Mais um nome trocado. Quantos te faltam, antes de não teres mais nenhum para gastar?

Senti a luz a tremer-me sob a pele, e fechei os olhos, e isso foi um erro, porque atrás dos olhos fechados a aldeia já estava à minha espera: as torres de luz a partir-se, o céu cheio do som que nunca consegui esquecer, e o nome, o meu, o que carrego e não o título, pronunciado por uma boca que não tinha boca, mas que sabia exactamente como dizê-lo para doer mais.

— Diz-nos o nome — disse uma delas, já não sei qual, já quase não importava. — Diz-nos o título. Nós já o sabemos. Só queremos ouvir-te a dizê-lo tu, pela primeira vez em cem anos, em voz alta, para nós.

Não disse. Mas sentir a vontade de dizer foi, por si só, quase o suficiente para elas.

Não soube quando exactamente deixei de sentir as próprias pernas como minhas, nem quantas frases tinham passado desde a última que eu próprio escolhera ouvir em vez de só receber. Só soube que, quando voltei a abrir os olhos a sério, as outras três já não estavam sentadas.

Vinham com as mãos primeiro, unhas crescidas como garras de quem nunca se preocupou em cortá-las, e na mão de uma, um pedaço de ferro afiado de um lado só, do tipo que se faz numa pedra, à força, durante anos sem nada melhor para fazer.

— Kronk segurar — disse, e não era pergunta.

Não esperou resposta. Avançou.

Ouvi o som de osso a abrir-se antes de o ver. Não a partir-se. Abrir-se, que é diferente: o som que um crânio faz quando alguma coisa entra nele e não sai mais pelo mesmo caminho. Quando consegui voltar os olhos para fora de mim, a primeira já estava no chão, a cabeça virada num ângulo que nenhum pescoço devia permitir, e Kronk tinha a mão fechada à volta de um pedaço dela que eu preferia não ter identificado tão depressa.

A segunda chegou por trás. Kronk não se voltou primeiro. Sentiu, e o corpo respondeu antes da cabeça, a primeira vez que eu o via assim, e já bastava para entender por que tinha sobrevivido ao que tinha sobrevivido. O cotovelo dele abriu-lhe a garganta antes mesmo de ela acabar de erguer a faca de pedra, e o sangue saiu quente na ferida fria daquele lugar, a fumegar no ar gelado como se o próprio corpo se recusasse a aceitar onde tinha morrido.

A coisa, dentro de mim, sentiu a presa fugir-lhe das mãos e apertou mais antes que a fuga me esvaziasse de todo. Quis sentir. Por um instante, sob aquele peso, quis pousar o fardo e deixar a culpa subir de uma vez, depois de um século a empurrá-la para baixo. E foi exactamente aí que a disciplina pagou a dívida que eu lhe cobrava há cem anos. Fechei. Apaguei o pensamento como apago a luz sob a pele, quarto a quarto, até ficar só o corredor escuro e nenhuma porta aberta. Não sinto isto. Não agora. Não aqui.

Restavam as outras duas, as que ainda não se tinham levantado. Eram as que faziam o trabalho de dentro, não de fora. Kronk girou para elas, mas eu levantei a mão antes que ele chegasse.

— Esta parte é minha.

Não tinha corpo para empurrar de volta, porque o corpo já não importava: a coisa estava espalhada pelos quatro, ou pelo que restava deles, como fumo que já escapou da fenda na pedra e não sabe voltar a entrar por ela. Empurrei com tudo o que tinha, o pouco que sobrava depois de cem anos a poupar para este preciso instante e nunca o saber.

As duas que restavam não convulsionaram, não gritaram. Simplesmente pararam, como uma vela que se apaga sem vento, porque o que as tinha mantido de pé todos aqueles anos não era mais delas do que o ar que respiravam, e quando se foi, não sobrou corpo bastante para continuar sozinho. Caíram devagar, as duas, quase ao mesmo tempo, e a garganta ficou tão silenciosa que ouvi o próprio sangue a bater-me nos ouvidos.

Fiquei de joelhos. A luz apagava-se sozinha sob a minha pele, exausta, e eu com ela.

Kronk ficou de pé entre os quatro corpos, a respirar fundo pela boca. A costela, percebi, tinha voltado a falar. Não disse nada. Não olhou para o que tinha feito com a cara de quem precisa de olhar para acreditar. Olhou apenas para mim, para confirmar que eu continuava de joelhos e não de outra coisa.

Foi o som que nos pôs de pé outra vez. Não o som que já lá estava, o vento a gemer nas fendas: um som novo, mais fundo, que vinha de mais perto da rocha do que qualquer vento alcança. Outra coisa, ou outras, a notar que ali, finalmente, tinha acontecido alguma coisa depois de gerações de nada.

— Anda. O que quer que isto tenha acordado, não vamos ficar para o conhecer.

Kronk não discutiu. Pegou a maça que tinha deixado encostada à pedra durante a luta. Não tinha precisado dela contra os quatro, e isso, mais do que tudo o resto, foi o que me deixou sem fala. Seguiu-me sem olhar para trás.

Se os Tacets passassem por aquela garganta à nossa procura, pensei, ao menos não passariam sozinhos. Não o disse em voz alta. Algumas piadas são boas demais para gastar com quem não vai rir.

Não voltei a falar até estarmos longe o bastante para o silêncio parecer outra vez silêncio, e não disfarce de alguma coisa a ouvir.

— Tu tar branco — disse Kronk, por fim.

— Estou vivo. Por pouco.

— A coisa quase pegar tu.

— Quase. — Pausei. Tinha de perguntar, e não sabia bem como fazê-lo soar como pergunta e não como confissão. — Elas falaram contigo também? Sentiste alguma coisa a entrar, a tentar dizer-te coisas que doessem?

Pensou na pergunta do mesmo jeito que pensa em tudo: devagar, sem pressa de ter resposta antes de a ter de verdade.

— Não. — Estreitou os olhos. — Elas falar de Korr. Dizer Korr morto, longe, sozinho. Dizer eu nunca mais ver.

Parou, como quem escolhe as palavras com mais cuidado do que costuma.

— Kronk não sentir medo disso. Kronk sentir fome de matar quem dizer isso. — Olhou para as próprias mãos, ainda sujas. — Kronk pensar na mulher de aço. Matar eles a rir.

Não havia vergonha nenhuma na voz dele ao dizer aquilo, nem haveria razão para haver. Para Kronk, matar o que ameaça os seus não é falha nem virtude: é só o que se faz. Fiquei a pensar, o resto da caminhada, no que seria viver sem o espaço onde o medo devia estar, e ter, no lugar dele, só fome e fúria livres para gastar sem desconto. Não soube decidir se invejava ou temia o que tinha visto. Talvez as duas coisas, para alguém como eu, sejam a mesma coisa.

Caminhámos mais um dia depois disso, e a terra mudou debaixo dos nossos pés a cada hora que passava. A rocha negra dos Picos foi cedendo a um cascalho cinzento, depois a uma terra dura e seca que já não tinha cheiro nenhum, e por fim a uma crosta branca que estalava como casca de pão velho a cada passo: a primeira geada que eu via em trinta anos, e a primeira que Kronk via na vida.

Parou para a tocar, desconfiado, como quem testa se o chão ainda é chão.

— Água. Dura. — Encolheu a cara, num nojo sincero que não tentou esconder. — Como é que água decidir ser pedra?

— Frio bastante, e ela esquece que já foi outra coisa.

— Burro. — Disse com convicção total, como se a água tivesse tido escolha e tivesse escolhido mal. — Kronk não fazer isso. Kronk ser sempre Kronk, com calor ou sem.

Não me consegui rir alto, mas ri por dentro o suficiente para que ele, que lê corpos melhor do que eu lhe dou crédito, parasse e me olhasse com uma espécie de orgulho atrapalhado, como quem não sabe bem que graça fez mas gosta do efeito.

Perguntou-me, mais tarde, como eram os Lúmae. Nunca ninguém me tinha perguntado isso em cem anos. Perguntavam-me sempre o que sabia, nunca quem eu tinha sido antes de saber.

— Altos. Pele fina, com luz por baixo. Gente como eu, que não dorme. Construíamos coisas que ninguém hoje sabe construir.

— Porque morrer todos?

— Porque eu vi uma coisa que não devíamos ver, e ensinei aos outros a vê-la também.

Ficou quieto com isso um tempo, do jeito dele de mastigar uma ideia antes de a engolir.

— Uma vez, há muito, Kronk sentir cheiro de Skarn grande. Bicho de presa funda, carne grossa, gordura que durar a horda um inverno inteiro. Kronk ir caçar. Borgath e Senka, pai e mãe de Korr, querer ir também. Carne grande, glória grande, eles querer também.

Parou, e havia na pausa o peso de uma memória a precisar de espaço antes de continuar.

— Skarn ser mais forte do que Kronk pensar. Borgath morrer primeiro, chifre no peito. Senka morrer a tentar tirar o corpo dele. Kronk matar o Skarn depois, sozinho, mas carne grande já não importar. Korr ficar sem pai, sem mãe, no mesmo dia.

— E tu ficaste com ele.

— Kronk não ter culpa deles ser mais fraco que Kronk. — Disse isto sem nenhuma defesa na voz, como quem afirma o tempo que faz. — Mas Kronk ficar perto. Kronk cuidar. Korr não escolher nascer fraco. Kronk não escolher nascer forte. Só acontecer assim.

Mais tarde ainda, perguntou por que eu ia com ele, mesmo podendo ir para qualquer outro lado. Andei uns passos antes de responder. A verdade inteira era grande demais para a estrada, e de toda forma não sei o nome do que me caça; sei que existe, e que o silêncio é o que me esconde dele. Não disse nada disso. Disse-lhe o pedaço verdadeiro que cabia numa frase.

— Reconheci em ti uma coisa que existe em mim. Um povo que se foi quando não devia. Alguém que ficou de pé quando devia ter caído com os outros. — Olhei em frente, para o lado onde o ar começava a saber a gelo. — E tu ainda tens o Korr para ir buscar. Eu já não tenho ninguém. Vou contigo buscar o teu, já que não tenho o meu.

Ficou quieto. Era a quietude que não pede resposta, a única em que ele e eu sempre nos entendemos.

Os dias seguintes apertaram o frio a um ritmo que a pele sentia antes da cabeça entender. O cascalho cinzento dos Picos cedeu, devagar, a uma terra dura sem cor nenhuma, depois a musgo seco que estalava sob a bota, depois à geada que Kronk já não estranhava tanto. A cada légua, o céu ficava mais baixo e mais branco, como se o próprio horizonte estivesse a fechar-se à nossa frente, e o vento deixou de soprar de lado para soprar de frente, direto, sem desculpa.

Foi numa tarde assim, com o vento a cortar a cara e a luz já a cair atrás de nós, que vi a primeira chama. Pequena, distante, tremendo contra um céu da cor do aço por polir.

— Aug.

Kronk parou ao meu lado. Cheirou o ar, e desta vez não torceu a cara: ficou imóvel, como um cão que reconhece de repente o cheiro de casa antes de saber explicar por que reconhece.

— Frio — disse, mas a palavra já não soava a insulto. — Mas ter gente lá. Gente de Kronk.

O frio que me cortava a cara já não era só frio. Trinta anos a viver na borda do gelo dela ensinaram-me a sentir a diferença entre o inverno comum e o inverno que pertence a alguém, e este pertencia. Sisvael sabia que nos aproximávamos, do mesmo jeito que sabe sempre tudo o que entra no seu domínio. Não sabia se ainda se lembrava de mim depois de trinta anos. Ia descobrir.

Quanto a Kronk, ao notar as luzes, soltou um som que podia ser fungada ou respiro fundo. Não sei dizer qual. Sei que precisava de saber que não ia sozinho para o que vinha a seguir, e quis, ali, que ele sentisse isso, porque depois de tanto tempo eu próprio já quase não sentia.

— Vamos buscar o Korr, Kronk.

Sorri para ele, virado para cima, a tentar que a confiança que não tinha por completo parecesse inteira. Olhou para mim e devolveu um sorriso enorme, cheio de dentes, do tipo que assustaria qualquer outra pessoa e que, àquela altura, já não me assustava nada.

Levantou o punho fechado na minha direção. Cumprimento, percebi, ou o mais próximo que um Grakh tem de um. Fechei o meu e encostei-o ao dele. Senti-me, pela primeira vez em muito tempo, perto de feliz.

Descemos os dois em direção às luzes.

CapítuloXXV
Aélith, a vontade da Forma
✦ ✦ ✦

A fissura no rosto da estátua devia ter crescido um milímetro desde a última vez que vim. Meço-a com os dedos, da sobrancelha ao queixo, onde a linha já se anuncia, e meço-a de novo, porque o número que a primeira medição me dá não é o que a regra dos últimos cem anos me prometeu. É mais. Pouco mais — uma fração que um olho descuidado perdoaria, e eu não perdoo frações. O mármore que um povo morto talhou à minha imagem deteriora-se segundo uma regra, e uma regra não mente, porque não quer nada; venho às ruínas dos meus filhos exatamente quando preciso de pensar com exatidão, porque era aqui que eu tinha a certeza de que nada se mexia sem a minha conta. Hoje a pedra mexeu-se um pouco fora dela. Tomo nota, e adio, e volto ao que me trouxe.

Porque não vim, hoje, medir pedra. Vim ler uma estrutura que se fechou — a maior que já desenhei — e confirmar, peça a peça, que fechou exatamente onde a desenhei para fechar. O Tacet veio comigo. Está três passos atrás, a face de bronze à espera, como sempre espera, da ordem que conclui o trabalho de um dia. Há de esperá-la. Deixe-me primeiro percorrer a estrutura, que a estrutura merece ser percorrida, e só uma estrutura inteira se encerra com uma ordem.

O primeiro que se há de entender, porque é onde todos lêem sorte e era desenho, é que nada disto foi reação minha. Não corri atrás de Korath; não me defendi da vitória dele. Korath estava a um ano de fechar a sua própria partida, mais perto do fim do que qualquer um de nós esteve em mil anos — e a um ano do fim um deus deixa de calcular e começa a contar os dias. Uma vitória ao alcance é a única isca grande o bastante para tirar os outros três da segurança do alto e os fazer descer, todos, ao mesmo solo, ao mesmo tempo. Não impedi o ataque ao dragão. Quis o ataque ao dragão. Foi a minha abertura, não a deles.

Ando entre as colunas tombadas enquanto leio a simetria daquilo na ordem em que se fechou, e cada peça que nomeio é uma peça que encaixou: Véspera desceu para velar o dragão dos olhos de Redom, encarnada, exposta; Thrym desceu para os Grakh, para soprar a fome deles contra a montanha, encarnado, exposto. Um deus, cá em cima, é intocável e cego ao detalhe; só no solo, dentro de um avatar, é que se torna eficaz e, no mesmo gesto, vulnerável. Quem desce, arrisca. Desenhei uma estrutura em que os três tinham de descer e eu não. Falo-a baixo, para a pedra, como se confere uma soma cujo total já se conhece.

A terceira pressão, a que fechou tudo, não precisou de um deus: precisou de um homem bem escolhido e de uma coisa faminta para o habitar. Chamava-se Tamel, general da artilharia de Redom. Não o subornei, não o convenci, não lhe falei sequer; falei com o que entrou nele. Procurei, nas bordas do mundo, a coisa sem corpo feita de tudo o que os homens cobiçam e não têm, e ofereci-lhe um general devorado de ambição como quem aponta uma porta destrancada. Ela entrou. E no instante mais cerrado da batalha, quando a coluna de Korath precisava da sua artilharia mais do que do seu deus, Tamel virou as catapultas para dentro e despejou pedra sobre as costas do próprio exército.

Não lhe paguei com nada que fosse meu. Paguei com o que vinha depois: uma cidade que se estilhaça produz medo, luto e ira aos montes, sentimentos sem dono à solta, e disso ela há de se fartar por anos. As coisas como ela não querem vencer; querem comer o que cai. São a ferramenta mais barata que existe, porque se pagam com os destroços que de qualquer modo se iam produzir. Movê-la não me custou mais do que mover uma alavanca, e dei-lhe, depois, tanto pensamento quanto se dá a uma alavanca que já cumpriu a função. Uma peça é uma peça. Encaixou, e está encerrada.

Faço a colheita, e nomeio os frutos. Thrym saiu do solo: senti o peso dele desaparecer quando o avatar morreu, e a vontade foi cuspida de volta para fora do mundo, a recompor-se algures, no escuro, devagar — e a lentidão é, para ele, o pior dos castigos. Quando voltar, virá depressa e mal pensado, como sempre. Os Grakh ficaram sem o sopro do seu deus e sem metade de si, dispersos pelo deserto que já mal os sustinha; deixaram de ser uma peça que se conte. Korath, que nunca desceu, esvaziou-se mesmo assim: um homem que estava a um ano da maior glória da nossa história e que, em vez dela, perdeu cem mil soldados na montanha, depois dois mil dos seus três mil melhores no deserto, depois a própria campeã, e por fim a paz das suas ruas — não por uma derrota, mas por uma sucessão de fissuras, cada uma a abrir a seguinte, todas partindo do dia em que decidiu marchar contra o dragão. Que fui eu que lhe pus ao alcance. Leio-o de longe, pelos fios da cidade que não é minha, porque numa capital de um milhão há sempre os que por baixo da doutrina temem e cobiçam, e por esses eu enxergo. O quase-vencedor está mais fraco hoje do que esteve em séculos.

Três frutos. Conto-os, e param de me ocupar assim que contados. O Tacet move a cabeça um grau, à espera da ordem que conclui o dia. E eu não a dou.

Não a dou porque há um quarto fruto, e o quarto não está no cesto. De Véspera tenho só a ausência. Desceu ao solo, isso soube; depois perdi-lhe o rasto, e não a vi sair do mundo, o que significa que não morreu. Sumiu. Uma vontade que desce e desaparece sem morrer ou se deu muito mal, ou está a tecer no escuro algo que não quer que eu veja. As duas leituras são possíveis. Escolheria, por hábito, a primeira — a mais provável, e a mais cómoda a um dia de colheita. Mas tenho os dedos ainda na fenda da estátua, na fração que cresceu fora da minha regra, e as duas coisas têm a mesma natureza: uma medida que se move numa direção que não desenhei. Já vi uma vez o que é subestimar o que escapa ao que sei — foi um povo inteiro de quatro dedos a mais na proporção, e reduzi-o a quatro fugitivos, e julguei a conta quase fechada. Não está fechada. Guardo, por isso, a leitura inconveniente num canto, junto da fração da pedra, porque guardar a variável que não me agrada é a diferença entre mim e Thrym — e porque uma equação não se encerra enquanto resta uma livre.

Três desceram a meu pedido, sem saberem que era a meu pedido, e os três pagaram por terem descido. Thrym caiu. Véspera sumiu. A coisa em Tamel comeu e voltou ao escuro. Korath esvaziou-se sem descer, porque não é preciso descer para se perder quando foi outra quem desenhou a queda. E eu permaneci onde sempre estive, intocada, a olhar para baixo — não por sorte, mas porque foi a única posição que desenhei para não me ferir. O lugar mais alto, o que Korath ocupou durante toda a contagem, está hoje mais vago do que esteve em mil anos. Não digo que é meu: dizer que algo é meu antes de o ter é o erro de quem perde. A estrutura ainda se move, Véspera ainda respira nalgum lugar, Thrym há de voltar. Sei tudo isto. E, mesmo sabendo, nunca estive tão perto, porque das quatro vontades três se gastaram a descer e só uma soube fazer o mundo inteiro trabalhar por ela sem nunca pôr o pé nele.

Toco a fenda no rosto da estátua. Está fria, como há de estar a pedra de um povo que já não pensa, e cresceu um pouco mais do que eu disse que cresceria, e é a única coisa neste pátio que não me obedeceu hoje. O próximo lance já está desenhado. Não o gravo aqui — há medidas que nem à pedra se confiam, e esta hei de jogá-la sozinha, do alto, como joguei esta. Mas não a jogo enquanto a fração não fechar, e a fração não fecha, e Véspera não aparece, e os dois factos têm o mesmo formato. O Tacet continua a três passos, a face de bronze voltada para mim, à espera da ordem que conclui o dia. Não lha dou. Recolho a mão da fenda, e deixo-o esperar, porque servos de bronze esperam, e porque uma estrutura com uma variável livre ainda não é uma estrutura que se encerre — e quando esta se encerrar, e há de encerrar, não haverá mais quem se sente acima de mim.

CapítuloXXVI
Bryne, a Lâmina de Redom
✦ ✦ ✦

Cavalgo para longe de Redom com o vento a bater-me na cara, e não sei dizer, ao certo, para onde vou. Não escolhi sair. Entreguei-me para ser julgada, e julgamento era o que eu queria, porque um julgamento é uma conta, e uma conta fecha-se. Mas a cidade não quis fechar a conta. A cidade quis arder. E quando a porta da minha cela se abriu, e mãos que eu não conhecia me puxaram para fora no meio do fumo e do grito, percebi que já não era a lei de Redom que decidia o meu destino. Era a multidão. E a multidão tinha decidido que eu era heroína.

Não sou. Sei o que fiz no deserto. Uma heroína não dá a ordem que eu dei. Tentei dizer isso ao homem de mãos grandes que me arrastava por um corredor em chamas, gritei-lho na cara contra o barulho, e ele nem abrandou o passo.

— Depois, comandante. Agora corra.

Corri.

Cavalguei até o cavalo não dar mais, e então desmontei e segui a pé ao lado dele, e eu já gastei coisas demais este ano sem pensar no dia seguinte. Na primeira parada, pensei na minha irmã. Não foi a cabeça que a trouxe; foram as mãos, que sem ordem minha começaram a endireitar o que não estava torto: a apertar uma fivela do arreio que já estava apertada, a alisar a manta sob a sela, a pôr no lugar uma correia que estava no lugar. É o que faço quando uma coisa por dentro se desarruma: arrumo outra, por fora, que se deixe arrumar. Prometi-lhe que o dragão seria a última. Quebrei a promessa antes de a tinta secar no juramento. Deixei as fivelas em paz e fui tratar do casco do cavalo, que tinha mesmo uma pedra encravada, e que era a única coisa ali que precisava de facto de conserto.

Uma rapariga aproximou-se. Dos que me seguiam; não teria vinte anos. Estendeu-me um odre, do jeito de quem serve a alguém a quem se deve servir.

— Não faças isso — disse-lhe.

— Fazer o quê, comandante?

— Tratar-me como se eu soubesse o que estou a fazer. — Bebi na mesma; recusar a água teria sido uma vaidade que já não posso pagar. — Não sei para onde vamos.

Ela respirou fundo.

— Ninguém dos que vieram sabia para onde ia. Vieram à mesma.

Não tive resposta. Devolvi-lhe o odre.

Pensei em Korath, embora não quisesse. Senti que ele me soltou. Que algures uma mão que me guiava desde menina, e que eu nunca vi e sempre soube que estava lá, abriu os dedos e me deixou ir. Não com raiva. Com a calma de quem fecha uma porta que já não compensa manter aberta. Foi a coisa que mais doeu no dia inteiro, e doeu por dentro, num lugar sem nome, e eu mereci-a, e o ter merecido não a torna mais leve. Montei outra vez.

Olhei para trás uma vez. Foi um erro de soldado, e foi a coisa mais importante que fiz no dia inteiro.

Porque atrás de mim, na poeira, não vinha só a minha sombra. Vinham eles. Os que abriram a minha cela. Os que largaram as casas, os ofícios, os nomes que tinham, para cavalgar atrás de uma mulher que lhes gritou, contra o vento, que não era heroína nenhuma. Não me ouviram. Ou ouviram e não quiseram saber. Vinham na mesma. Uma dúzia, e depois mais que uma dúzia, gente a cavalo e gente a pé que não ia aguentar o ritmo e vinha mesmo assim, porque seguir-me parecia, àquela gente, melhor do que ficar a ver Redom arder.

E eu, que queria estar sozinha com a minha culpa, percebi que já não tinha esse direito. Que a fuga não era só minha. Que cada escolha que eu fizesse daqui para a frente, para onde virar, onde parar, em que ia transformar o que restava de mim, ia cair também sobre aquela gente, que decidiu, por razões que são delas e não minhas, que a minha estrada era a estrada deles.

Puxei as rédeas. Abrandei. Só o suficiente para eles me alcançarem. Não porque soubesse para onde ir, mas porque, se vêm de qualquer forma, alguém tem de decidir a direção, e essa, ao que parece, é a única coisa que ainda sei fazer, mesmo quando não devia ser eu a fazê-la.

Eles aproximaram-se, e nos olhos de cada um havia a mesma coisa: estavam a olhar para uma heroína. Para a Lâmina que os ia levar a algum lugar que prestasse. Conheço aquele olhar. Passei a vida a corrigi-lo em silêncio e a deixá-lo crescer, e sempre soube, sem o examinar, o quanto gostava dele. Olhei-os a olharem-me assim e, pela primeira vez, o olhar não me aqueceu: pesou. Não baixei a cara — uma comandante não baixa a cara diante de quem a segue. Apertei as rédeas até o couro me marcar a palma, que é onde ponho o que não deixo subir ao rosto, e deixei que vissem o que precisavam de ver.

O sol descia à minha frente. Virei o cavalo para ele e toquei os flancos, e a poeira atrás de mim cresceu, porque eles vieram. Quem quer que eu venha a ser, vou ser à frente deles agora. Que Redom arda nas minhas costas. O que se acende à minha frente ainda não tem nome.

Fim do Livro I — A Queda das Raízes